sexta-feira, 6 de março de 2026

De criancinhas, sicários e eleições

 



Nelson M. Mendes

Nós não estamos sitiados por “comunistas” ávidos por tomar o poder e comer nossas criancinhas. Pelo contrário, uma das coisas que os famigerados “Arquivos Epstein” tem demonstrado é que a elite capitalista é que gosta de comer criancinhas – em todas as acepções do verbo “comer”. Mas há décadas a indústria cultural tenta nos fazer crer que estamos ameaçados por “comunistas”. Recentemente, um bolsonazista imbecil, entrevistado numa dessas cada vez mais esvaziadas manifestações de extrema direita, afirmava, convicto, que “eles” (uma difusa entidade que aparentemente reuniria Governo Federal e STF) querem tomar as propriedades das pessoas, para dividir com os pobres. Ora, o PT já conquistou a presidência cinco vezes, e não consta que qualquer pessoa tenha perdido um único bem; pelo contrário, uma das características dos governos petistas é a prosperidade generalizada, inclusive dos que já tinham boa situação.  Entretanto, aqueles que não tiveram formação sólida – não leram bons livros, não fizeram um bom curso universitário, não conversaram com mentes esclarecidas – se deixam envolver por esse discurso.

As instituições, de modo geral, trabalham em favor do poder econômico. Sempre foi assim. A imprensa brasileira, desde tempos imperiais, defende a classe dominante. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, se colocou a princípio contra a Abolição da Escravatura; só quando a causa se tornou uma corrente imparável é que ele aderiu. Do mesmo modo, a Rede Globo só passaria a noticiar as manifestações pelas “Diretas já”, nos anos 80 do século XX, quando ficou impossível fingir que nada estava acontecendo. O jornal O Globo se opôs ferozmente à criação do 13º salário por Jango: disse que seria “desastroso” para o país; e saudou entusiasticamente o golpe de 1964, um violento retrocesso em favor da elite econômica e do imperialismo estadunidense.


Hoje esses jornalões, mais do que nunca, defendem os poderosos – os empresários do agronegócio, os banqueiros, os bilionários. O Estadão, para fazer jus à sua tradição escravocrata, acaba de saudar, em editorial, a infame reforma trabalhista imposta por Milei à Argentina, que está sendo destroçada pelo governo ultraliberal.  A missão da imprensa, no momento, é condenar histericamente a derrubada da escala de trabalho 6 X 1 (seis dias de trabalho por um de descanso). Segundo essa imprensa, isso é mais uma coisa que vai “quebrar o Brasil”. Mas engordar banqueiros e rentistas comprometendo quase 50% do Orçamento Federal com  pagamento de juros é econômica e socialmente saudável. Lembrando ainda que os políticos empenhados em se opor a essa nova abolição trabalham numa escala 3 X 4, ou até 2 X 5 – três ou apenas dois dias de trabalho por semana...

Os mesmos setores da classe dominante e da imprensa que se opuseram à abolição da escravatura, ao 13º salário, e que hoje se opõem ao fim da escravocrata escala 6 X 1, dedicam boa parte de seu tempo a torpedear todos aqueles políticos que procuram trabalhar em prol do bem comum. (Não se alarmem! Não estou falando de Comunismo!)

A História mundial está repleta de mártires que tombaram exatamente porque desejavam construir um mundo com menos injustiça, menos dor, menos sangue. E, se não for conveniente assassinar esses líderes que fazem a humanidade caminhar para a frente, sempre se pode desacreditá-los, desmoralizá-los, manchá-los de lama. (Instituições como o FBI e a CIA têm profunda expertise sobre o assunto.) Aqui no Brasil, Getúlio, Jango, Brizola, Juscelino Kubitschek, Lula e Dilma foram alvos de todo tipo de acusações. Ao pesquisar no Google sobre Juscelino, encontro o que se aplica a todos os nomes acima citados: “Apesar de investigações e inquéritos que visavam desgastar sua imagem e bloquear sua carreira política, nenhuma denúncia foi comprovada [...]”

Há algumas décadas, o nome Lula é o grande fantasma das classes dominantes. A revista Veja (que Hélio Fernandes chamava de “sujíssima”) publicava nos anos 80: “Em caso de vitória de Lula, existe a possibilidade de elevação da temperatura social do país, com greves e invasões de terras numa escala como nunca se viu.” Então, Lula vem sendo pintado não apenas como um “comunista” – alguém que roubaria a propriedade dos outros, fecharia igrejas, destruiria a família e faria várias maldades semelhantes –, mas também como um ladrão no sentido estrito do termo. Vários bens mirabolantes já foram atribuídos a Lula (inclusive um triplex, assim como aconteceu com Juscelino) e à sua família. O seu filho Fábio Luís, que não tem o apelido de Lulinha, mas assim é chamado pela imprensa tendenciosa, já foi acusado de ser sócio da Friboi, da Oi, de ter uma fazenda milionária, de ter uma Ferrari de ouro, e assim por diante. Agora está artificialmente implicado na CPMI do INSS e teve seus sigilos quebrados – mas está tranquilo: anteriormente, 10 anos de sua vida foram investigados, sem que nada fosse encontrado. Aliás, seu advogado declarou que não haveria necessidade da quebra de sigilos; porque Fábio espontaneamente coloca todos os seus dados à disposição da Justiça. Só para comparar: o ex-presidente Jair Boçal Fascista decretou 1.108 sigilos de cem anos, e as falcatruas da familícia transbordam no meio da rua como esgoto de dutos entupidos.

As eleições vêm aí. O jogo sujo já começou. Influencers fantasiados de políticos, como Nikolas Ferreira – o campeão das fake news, e que fazia campanha política viajando em jatinho do banqueiro mafioso Vorcaro –, já estão em nova campanha, inventando as mais absurdas mentiras sobre o PT, Lula, sobre qualquer coisa que afete os interesses dos ricos e poderosos. A grande imprensa também está fechada com o grande capital. “Jornalistas de programa” (na definição genial de um criativo amigo), como Merval Pereira, Augusto Nunes, Eliane Cantanhede, Alexandre Garcia, Demétrio Magnoli e muitos outros jamais abandonam o esporte da procura de pelo em ovo, quando se trata de analisar os governos petistas. Para imensa tristeza dessa mídia venenosa e mentirosa, entretanto, na lista de 18 políticos amiguinhos de Vorcaro não há nenhum de partidos progressistas (PT, PSOL, etc.); são todos do “Centrão” ou da direita.

O Brasil – devemos sempre repetir – caminha para a frente: saiu do Mapa da Fome da ONU (ao qual havia voltado no desgoverno de Jair Boçal Fascista), tem discretíssima inflação, crescimento seguro, e está virtualmente numa situação de pleno emprego. Quem ganha até 5 mil reais não paga mais imposto de renda; e é possível que ainda este ano seja varrida para o lixo a escala 6 X 1, que mantém os trabalhadores sob um regime praticamente escravista. Tudo isso deveria deixar o povo feliz e orgulhoso. Porém, o povo não é informado sobre as realizações do governo. Enquanto Lula brilha no exterior, conquistando simpatias e mercados, os correspondentes brasileiros se empenham em fazer fofocas ou trazer temas periféricos, que nada têm a ver com a viagem. Um repórter desses deveria ser imediatamente demitido – se não estivesse fazendo exatamente o que mandam seus chefes e os patrões de seus chefes...

Isso é o que explica que Flávio Rachadinha, tão vagabundo e ladrão como o pai, Jair Boçal Fascista, esteja em condições de disputar a presidência em 2026 com Lula, na opinião de muitos o maior presidente brasileiro da História. Assim como o boçal-pai, o boçal-filho (que, aliás, desmaiou e se cagou num debate quando era candidato a prefeito do Rio), não poderia nem ser síndico – muito menos presidente. Mas a população é tangida como gado pela grande mídia, pelas informações que chegam através das redes sociais, e por pastores picaretas, que só pensam em dinheiro e de fato são ateus – porque se acreditassem no que pregam, teriam medo de ir para o Inferno...

O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman se refere aos jornalistas que são pagos para mentir em favor do poder econômico (praticamente todos os da grande mídia) como “sicários da plutocracia”. Sicário significa mercenário: guerreiro de aluguel, assassino de aluguel. Agora que o termo foi popularizado com o escândalo do banqueiro mafioso Daniel Vorcaro, que deu esse apelido a um auxiliar (aliás, neste momento entre a vida e a morte, depois de suspeita tentativa de suicídio), vamos nos manter em guarda contra os sicários que, nas Tvs, nas rádios, nos portais da Internet e nas redes sociais, levam a Senzala (99,9% da população – todos nós) a acreditar nas mentiras que convêm à Casa-Grande.

Lembremos: o que é bom para Daniel Vorcaro e para os bilionários, de modo geral, não é bom para o Brasil.

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