sábado, 20 de abril de 2019

O Boçalnarismo Arrependido


O bolsonarismo arrependido já começou nas classes populares



Texto original:

http://www.ihu.unisinos.br/588449-o-bolsonarismo-arrependido-ja-comecou-nas-classes-populares



Texto editado / NMM:

 

Eis o artigo artigo publicado por The Intercept, 15-04-2019.


Vale retomar o que escrevi em minha coluna de 29 de outubro, logo após a vitória de BolsonaroOs eleitores de Bolsonaro foram movidos por onda de contágio que foi espalhando medo e uma esperança de mudança radical. É muita expectativa popular para pouco projeto. Isso não dará certo.

De novembro de 2016 a novembro de 2018, numa pesquisa etnográfica, percebemos que, conforme a eleição se aproximava, a adesão a Bolsonaro se transformava em um movimento emocional.

Até poucos meses antes da eleição, os eleitores de baixa renda eram jovens desempregados que se sentiam ameaçados pelo feminismo emergente na escola; ou homens brancos, dos 30 aos 50 anos, com trabalho precário. Nas motivações de voto, o desalento econômico se misturava a uma crise na masculinidade. Homens estavam desempregados, endividados, tinham um desejo íntimo de portar uma arma para se proteger das muitas ameaças — reais e imaginárias — que desestabilizam a ordem do mundo.

No final do período eleitoral, as pessoas falavam que votariam em Bolsonaro por causa da corrupção, para varrer comunismo, tirar o PT, conseguir emprego, melhorar a economia, ter segurança na escola do filho, matar bandido, mamadeira de piroca, ditadura gayzista, evitar invasão alienígena, resolver a unha encravada. Tudo. Tudo o que chegava pelo WhatsApp.

As pessoas apoiavam Bolsonaro pelos mais variados motivos. Muitas pessoas perguntavam: “ué, mas tem outro candidato?”A grande maioria de eleitores no final do processo achava que Bolsonaro não era uma opção ideal, mas que, ao menos, colocaria ordem na casa.

Tendo em vista esses perfis de eleitores, é evidente que a desilusão bateria logo na porta, pois foi uma esperança projetada sobre o nada.

Os estratos esmagados


Há uma significativa desilusão bolsonarista  justamente entre os estratos sociais que ganham de 2 a 5 salários mínimos. Em um artigo irretocável, Laura Carvalho mostra que, de 2014 a 2018, o PT perdeu adesão entre as camadas que sentiram a crise econômica de forma brutal.

Laura Carvalho acredita que o peso da insegurança econômica foi preponderante no Brasil, diferentemente da eleição de Trump nos Estados Unidos, em que o fator “preconceito” foi decisivo. Sem dúvidas, o peso econômico foi imenso, um ponto de partida que mostrou luz no fim do túnel para homens desesperados. Mas também entendo que a dicotomia economia/moral tem se demonstrado falsa.

Ainda que a penúria econômica tenha dado o primeiro pontapé entre os eleitores que se sentiam desamparados socialmente, o conservadorismo, o fundamentalismo religioso, a crise política, as fake news e o fator de “efervescência social” do final das eleições arrastaram milhões de eleitores na onda de contágio. [O editor – NMM – acrescentaria a tudo isso a burrice e o egoísmo.]

Agora, os eleitores começam a pular fora do barco.

Desilusão de baixo para cima


O clima de esperança parece ter cedido lugar ao desânimo.
O grupo da “masculinidade machucada” pela crise econômica não viu ainda a situação de emprego melhorar e tampouco sentiu os efeitos práticos do decreto presidencial de facilitação da posse armas. Acima de tudo, o trabalhador precarizado quer segurança e renda. E estamos muito longe de ver isso acontecer.

Aqueles que votaram por falta de opção voltaram ao lugar comum “de que político é tudo uma bosta”.

Ainda há aqueles eleitores que estão esperando sentados a tal da ordem na casa.

bolsonarista arrependido não é confesso. Mas ele reconhece o caos do país e já colocou Bolsonaro na vala comum do político ruim.

Um dos erros na avaliação do bolsonarismo é acreditar em tudo que se vê na internet, na malha de ódio da extrema direita. Os trolls possuem presença robusta na rede e fazem grande barulho. Quando eles são sujeitos de carne e osso — e não robôs —, representam uma pequena parte do eleitorado, um número insignificante perto de todo o resto que aderiu ao projeto por frustração na onda de contágio.

O eleitor não fanático até pode ter achado graça do personagem. Mas num país em crise como o Brasil, as trapalhadas do presidente terão cada vez menos apelo se não vierem com mudanças. Bolsonaro foi eleito por uma grande parte do eleitorado popular que cultiva no imaginário a ideia do pulso firme. Mas o que esse eleitorado tem visto é despreparo, mandos e desmandos via rede social e guerra de vaidades entre os membros do PSL. Sem um projeto de governo e passando o tempo preocupado com temas distantes do povo — de Cuba a Israel —, a desilusão só tende a piorar.

Há uma tendência muito maior agora à descrença com a democracia representativa e a política institucional.

sábado, 9 de março de 2019

A burrice do fim do mundo



Nelson M. Mendes
O fim está próximo. Não, não seremos salvos pelo meteoro; ou aniquilados pelo meio-ambiente vingador. (Observem que salvação e aniquilação têm o mesmo sentido.) Tudo isso deverá acontecer em algum momento. Antes, porém, a ordem mundial, predominantemente capitalista, deverá morrer devorando as próprias entranhas.
O saudoso e sábio Alceu Amoroso Lima declarou, em entrevista ao jornalista Roberto D´Ávila num programa deTV, que “os regimes não morrem, se suicidam”.
Ele se referia a regimes políticos; mas obviamente essa análise pode ser aplicada a sistemas econômicos. O Capitalismo, por exemplo, padece de congênita doença autoimune.
Todo organismo ou sistema apresentam, no seu fim, “arrancos de cachorro atropelado”, como dizia Nelson Rodrigues (ele próprio um doentio defensor do sistema moribundo). O Capitalismo vem apresentando esses estertores praticamente desde o nascimento. Porque, como dito em vários ensaios anteriores, ele veio para legitimar aquilo que, em princípio, a civilização pretendia superar: a “lei da selva”, o “direito” que tem o mais forte de esmagar e expropriar o mais fraco. Essa doutrina resultaria até em conceitos como “darwinismo social”; e os manuais do Neoliberalismo usam explicitamente a expressão “instinto animal” (animal instinct) em referência a uma qualidade, uma competência que devem desenvolver os operadores econômicos. Obviamente, uma tal proposta civilizatória é natimorta.
É sabido, por qualquer pessoa minimamente culta, que todos os sistemas e regimes buscam amparar-se de todas as formas. É o direito divino dos reis, é o Absolutismo, é a segregação, é o genocídio, é o Fascismo, é o Stalinismo: para tudo isso se criam cínicas justificativas econômicas, políticas, sociais, filosóficas, religiosas. Toda pessoa minimamente culta se espanta com a credulidade,  a complacência e a burrice dos povos antigos diante de seus exploradores. É fácil ver a burrice antiga. Mas muitas pessoas minimamente cultas não enxergam a própria burrice diante dos exploradores, dos carrascos de hoje. Ninguém percebe as falácias putrefatas com que o Capitalismo busca justificar-se.
Vamos dar como exemplo a situação de um certo “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”.

Esse país nasceu como colônia.  Europeus brigaram pelas riquezas tropicais. Ninguém pensava em “construir uma nação”: o objetivo era pilhar, enricar. Mesmo os nascidos em solo brasileiro, porém filhos de portugueses, renegavam o chão em favor da genealogia: sentiam-se portugueses. Esses “híbridos” eram chamados de mazombos, como lembra Darcy Ribeiro – aliás, um dos últimos grandes pensadores que se insurgiram contra a burrice do brasileiro.

Todos nós conhecemos os “neomazombos” – aqueles brasileiros que vivem de costas para o país e de olho em Miami, New York, Amsterdam, Paris, Tóquio. O Colonialismo passou, mas permanece nos “corações e mentes”.

Há até pouco tempo, o Brasil era explorado num sistema neoimperialista. Mas, tanto fez a Casa-Grande local, com apoio da senzala midiotizada, que nós avançamos para trás: somos hoje explorados num sistema neocolonial. Só as aparências e os falaciosos rótulos institucionais são diferentes.

Sintomático. Quando um organismo entra em falência, ele começa a devorar-se a partir da periferia, para preservar os órgãos essenciais. Na ordem mundial capitalista, a periferia somos nós, o terceiro mundo.

Nos mais recentes “arrancos de cachorro atropelado”, é sobretudo a periferia que tem sofrido com a autofagia terminal do sistema: são golpes de estado para levar ao poder dóceis títeres das potências hegemônicas, sobretudo dos EUA; são pressões ou sabotagens econômicas; são invasões militares, sob ridículos pretextos, como “buscar armas de destruição em massa” ou “restaurar a Democracia”; são permanentes e devastadores bombardeios publicitários, com o fim de manter vivos os inconsistentes mitos do “livre-mercado”, da “meritocracia”, do “Neoliberalismo” – enfim, todos os fictícios pilares sobre os quais se sustenta o Capitalismo.

Ah, e quando a crise é realmente aguda – como em 1929 e 2008 –, as periferias do centro também sofrem: milhões de pessoas enfrentam a miséria e muitas até optam pelo suicídio nos países centrais. Na crise de 1929 houve um estadista – Roosevelt – que colocou a mão visível do Estado para trabalhar em favor da restauração da velha e carcomida ordem. (Por isso, é até hoje visto como “comunista” por muitos norte-americanos.) Quando da crise de 2008, o “Poder Econômico Transnacional” (o “Elefante Oculto” mencionado no ensaio “É a lama, é a lama”) já havia desenvolvido vertiginosa agilidade financeira, e pôde fazer transfusões de trilhões, das periferias para os centros, dos pobres para os ricos, a fim de salvar os “órgãos essenciais” do sistema. Quantias astronômicas de dinheiro público foram desviadas para salvar os principais responsáveis pela crise.

A periferia é dócil. Décadas de doutrinação nos transformaram em escravos ávidos por fazer a vontade do senhor. Claro que os “feitores” e “capitães do mato” trabalham para reprimir os escravos rebeldes, e são devidamente recompensados pelo senhor, que nem se abala de suas luxuosas instalações na Metrópole.

Recapitulando: a Ordem Mundial Capitalista está morrendo. Como todo organismo moribundo, também esse sacrifica o periférico ao central, o acessório ao essencial. Aqui em Pindorama (periferia), legiões de bolsonazistas, analfascistas e anencéfalos cívicos em geral (os “pobres de direita”, a periferia da periferia) prazerosamente oferecem seus pescoços no altar da preservação do sistema, talvez achando que irão com isso conquistar a felicidade no outro mundo.

É a burrice do fim do mundo.

quinta-feira, 7 de março de 2019

O capitão e a barbárie social


O real projeto do governo do capitão

é a barbárie social


Marcio Sotelo
Texto original:

Texto editado / NMM:

A face hedionda do governo Bolsonaro mostrou-se claramente: a reforma da previdência e o código Moro se complementam.
A reforma da previdência vai aprofundar a miséria da massa trabalhadora. Uma tal estrutura iníqua de dominação não é mantida apenas com mecanismos ideológicos.
É preciso também a violência do Estado para controle dos excluídos.
Essa é uma das funções estruturais do direito penal e a realidade por trás da aparência do Projeto Moro.
A extensão da excludente de ilicitude para incluir “medo”, “surpresa” e “emoção”, na prática, significa a legalização do homicídio para a polícia. Não atingirá quem mora no Leblon ou nos Jardins.
O Estado neoliberal é grande para punir, mas encolhe para ser utilizado como instrumento de acumulação.
A reforma da previdência, a longo prazo, retira do Estado a função de gerir a previdência.
Assim, abre-se o espaço para fundos privados, dominado por grandes grupos financeiros que passam a controlar de acordo com a lógica do mercado uma massa formidável de recursos. O resultado disso no Chile estamos vendo: suicídio de idosos.
O déficit da previdência é a grande mentira do século 21, pelo menos até este ano da graça de 2019. Ele simplesmente não existe.
É uma manobra grosseira martelada incessantemente, dia e noite, pelos grandes órgãos de comunicação.
Previdência, saúde e assistência social compõem a seguridade social. Isto está no artigo 194 da Constituição Federal.
As fontes de financiamento dessas três áreas são Contribuições dos empregados e empregadores, COFINS, PIS-PASEP, importações e até loterias.
Considerando essa massa de recursos, a seguridade social tem superávit.
O que na verdade sangra o orçamento da União é a dívida pública. É ela que suga a riqueza produzida pelos trabalhadores para pagar juros e o serviço da dívida. Em 2018 foram dispendidos 380 bilhões de reais, algo entre 40 e 50% do orçamento da União.
Parte dos recursos para a dívida vem exatamente das fontes de financiamento da seguridade social que estão lá no Art. 195 da Constituição e que deveriam apenas financiar a seguridade social. Pelo mecanismo da DRU (Desvinculação de Receitas da União) esses recursos são utilizados também para a dívida pública.
Então, é preciso diminuir as despesas com a Previdência para que o superávit das fontes de receita da seguridade social esteja disponível para o pagamento dos juros e serviço da dívida.
O ajuste fiscal de que precisamos é outro. Lucros e dividendos, por exemplo, estão isentos de Imposto de Renda.
A monstruosidade aparece quando, em vez de tributar lucros, corta-se o Benefício de Prestação Continuada, pago a idosos pobres com mais de 60 anos.
O ajuste fiscal precisa ser feito para que o Estado possa oferecer saúde, educação, bens sociais, investir, gerar empregos. Mas esses gastos estão congelados porque o parasitismo financeiro precisa de recursos.
Mais e mais as classes dominantes refestelam-se no capitalismo financeiro parasitário provocando a desindustrialização.
Segundo dados do IBGE, a indústria responde hoje por apenas 11 por cento do PIB, a menor desde os anos 50.
A desindustrialização gera um efeito tremendo na base da sociedade. Circulação de ativos financeiros não produz riqueza real.
Pauperiza-se a base da sociedade, que não tem como consumir, e constitui-se o círculo vicioso da desindustrialização.
Nesse cenário, que não abre qualquer perspectiva para os despossuídos, é preciso um xerife Moro para manter essa pirâmide social lotando presídios.
Transcrevo parte de uma entrevista de John Ehrlichman, assessor de Nixon:.
“A campanha de Nixon em 1968 e a Casa Branca, depois, tinham dois inimigos: a esquerda contrária à guerra (do Vietnam) e os negros (…) Sabíamos que não podíamos tornar ilegal ser contra a guerra ou ser negro, mas ao fazer com que as pessoas associassem aos hippies a maconha e aos negros a heroína, e penalizar severamente ambas as substâncias, podíamos deter seus líderes, realizar incursões em suas casas, interromper suas reuniões e difamá-los noite após noite nos noticiários. Sabíamos que estávamos mentindo sobre as drogas? Claro que sim”.
É uma confirmação empírica do conceito de direito penal como meio de dominação pelo controle da massa de excluídos.
O endurecimento das leis penais é tanto maior quanto maior a desigualdade e a irracionalidade da estrutura social. É para isto que serve o Código Moro.
No governo do capitão, as duas pontas do laço que vai apertar mais o pescoço da massa excluída estão nas mãos de Guedes e Moro.
Pouco importa para os setores beneficiados quem seja o presidente. Pouco importa que seja notoriamente despreparado, com um comportamento fora da do padrão de normalidade psicológica.
O caos e as trapalhadas desse governo somente incomodam essa elite se põem em risco a reforma da previdência, vale dizer, o capitalismo parasitário.
Aí então editoriais e colunistas irados passam uma carraspana no tresloucado presidente e deixam nas entrelinhas a ameaça de apeá-lo do poder. E eles o farão se realmente o trapalhão se revelar incapaz de conduzir a reforma que eles querem.
Bolsonaro é uma sombra. O real é esse projeto de acumulação e consequente pauperização da massa e seus condutores são de verdade o poder hoje. O real é esse projeto de barbárie social.
MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

sábado, 23 de fevereiro de 2019

A encarnação das fake news


Enquanto começo a elaborar esta introdução, não sei ainda que título darei à matéria do El País, que apresento editada no blog.
Satyagraha, o nome do blog, significa, como explicado no perfil, “apreço pela verdade”. Isso é tudo o que não existe na mídia. Em textos anteriores falo disso à exaustão. Mas eis que surge um caso em que a mentira é provada, desmascarada! Se houvesse um prêmio Nobel de Jornalismo, Juan Moreno, o que revelou a verdade, ganharia fácil.
E quanto ao nome do artigo? “O apóstolo da mentira”? “A encarnação das fake news”?
Outros títulos me sobrevoam a mente; mas acredito que o último diz bastante do que se trata.
Nelson M. Mendes




O escândalo da 'Der Spiegel’:

parem as máquinas, é tudo mentira



Claas Relotius, jornalista-estrela do semanário alemão, era um vigarista.

Texto original, acessado em 23/02/2019:



Texto editado / NMM:

Ninguém acreditou nele. Mas hoje todos na Alemanha acreditam em Juan Moreno. Para desmascarar um profissional da mentira massificada, Moreno teve que viver um calvário.
Brigou para convencer seus chefes de que Claas Relotius, de 33 anos, estrela do jornalismo alemão, inventava as histórias que publicava.
Sua vitória é a desgraça da Der Spiegel. É difícil compreender como a prestigiosa revista foi capaz de levar ao topo um repórter que inventava pautas e dizia ter entrevistado gente que nunca viu e visitado lugares onde nunca pisou; como ninguém percebeu que mais de meia centena de reportagens eram perfeitas demais, eram uma fraude.
“Não sou nenhum herói, nem o grande defensor da verdade. Não tinha alternativa.. Eu sabia que algo não estava bem, mas não acreditavam em mim.” O cotidiano da família de Moreno foi pelos ares no começo de novembro passado, por causa da elaboração de uma reportagem intitulada A Fronteira de Jaeger. O repórter estava no México, quando recebeu um telefonema da revista avisando que ele escreveria uma reportagem com Relotius.
Moreno não conhecia Relotius, mas uma vez tinha lido um texto dele sobre um assessor fiscal cubano que o deixara com a pulga atrás da orelha. O trabalho foi feito. Moreno recebeu o texto preliminar e detectou detalhes que não batiam. Escreveu ao departamento de checagem e documentação,  onde trabalham 60 pessoas. Não lhe deram atenção.
Depois, Relotius lhe enviou um novo rascunho no qual aparecia uma cena na qual um miliciano disparava contra algo que se movia. Essa passagem não aparecia na primeira versão. “É impossível que um bom jornalista presencie uma cena semelhante e não a inclua desde o primeiro momento”, pensou.
A partir daí, Moreno começou uma desesperada luta pela verdade.
As incoerências cresciam, e Moreno escreveu ao editor de Sociedade da revista, que encomendara a reportagem. “Não me deram bola.” Depois, Moreno recebeu um telefonema de Relotius. Estava a par de suas indagações. “Juan, você tem coisas para me dizer”, disparou. Moreno lhe fez algumas perguntas, sem revelar suas descobertas, e decidiu deixá-lo falar. “Percebi que estava mentindo e que havia um problema muito grave.”
A reportagem A fronteira de Jaeger acabou se revelando a ponta de um iceberg. Ao todo, Relotius escreveu 60 reportagens para a Der Spiegel, além de outras publicações alemãs, que agora mergulham em seus arquivos em busca da verdade. Anunciou o diretor de redação Steffen Klusmann pouco depois da revelação do escândalo: “Como editores da Der Spiegel, temos que reconhecer que falhamos de forma considerável. Relotius conseguiu burlar e anular todos os mecanismos de garantia da qualidade da empresa (…).” No fim de janeiro, a revista publicou um primeiro avanço das comprovações, cujo resultado é horripilante.
Mas, naquelas desesperadas semanas de novembro, a Der Spiegel começou a suspeitar que era Moreno que estava escondendo algo. Afinal de contas, Relotius era da casa e havia recebido quatro vezes o grande prêmio alemão de jornalismo, a última vez em 2018, além de ser eleito jornalista do ano pela CNN. Além disso, “todo mundo na Der Spiegel gostava dele.” Estava a ponto de ser promovido.
Relotius trazia pautas. Dizia ter acesso a fontes que não falavam com ninguém mais. Suas reportagens eram bem escritas.
Moreno, por sua vez, é um  repórter freelancer, filho de um espanhol que emigrou para a Alemanha.
Em parte por isso, quando Moreno questionou o trabalho de Relotius, “deram a entender que eu tinha me atrevido a me meter com Deus. Eu estava convencido de que perderia meu emprego e que ninguém iria querer me contratar com antecedentes assim.” Aí começou a verdadeira batalha.
Moreno passou cinco semanas dedicado a desmontar as histórias de Relotius. Aproveitou uma viagem de trabalho aos Estados Unidos para realizar uma missão secreta. Procurou Foley. Mostrou-lhe uma foto de Relotius. Nunca o vira na vida. Fez o mesmo com Chris Maloof, outro suposto entrevistado. Tampouco.
Continuavam sem acreditar nele.
Moreno ampliou a investigação e recorreu aos arquivos.
Quanto mais investigava, pior tudo cheirava.
Em 3 de dezembro, um e-mail à revista da assessora de imprensa do grupo de vigilantes que Relotius supostamente acompanhara no Arizona questionava como era possível que ele tivesse escrito um artigo sobre eles sem nem sequer passar por lá.
Mas 10 dias mais tarde chegou a prova definitiva.
Os principais chefes da publicação se reuniram acompanhados de um técnico de informática. Comprovaram que Relotius havia manipulado o e-mail e que nunca tinha estado com a milícia do Arizona. Na madrugada anterior, uma das chefas do impostor o confrontou após descobrir outra invenção, desta vez no Facebook. Relotius desmoronou e confessou. Pegou suas coisas e foi embora.
Em 22 de dezembro, a Der Spiegel publicou um número especial com uma capa vermelha e grandes letras brancas nas quais se lê: “Diga o que é”. São palavras do fundador da revista, Rudolf Augstein, as mesmas que ocupam um lugar destacado na redação de Hamburgo e que Relotius traiu até seu amargo final. Aquela edição dedicava 23 páginas ao assunto. A revista admitia que os alarmes deveriam ter soado em numerosas ocasiões anteriores.
A publicação criou uma comissão de inquérito. Profissionais analisarão “como Claas Relotius pôde falsificar histórias, inventar protagonistas, enganar os colegas e burlar os sistemas de controle de qualidade, e que mudanças devem ser adotadas na organização”, segundo o e-mail de uma porta-voz da publicação.
A organização Reporter Fórum informou que Relotius pediu desculpas e devolveu seus quatro grandes prêmios Reporter.
Enquanto isso, soube-se que Relotius havia pedido dinheiro aos leitores que se interessaram pelas vítimas descritas em suas reportagens. Através de seus advogados, ele reconheceu ter arrecadado dinheiro dos leitores, mas assegurou que o doou a causas humanitárias. Seus advogados relataram que seu cliente admitiu “ter apresentado fatos falsos e que em hipótese alguma quis “dar munição aos que agora, com turvas intenções políticas, apontam sua reportagem como uma prova da existência das chamadas fake news”. O escritório desses advogados em Hamburgo disse ao EL PAÍS que Relotius e sua equipe de defesa não pretendem dar mais explicações por enquanto.
A esta altura, as verdades se confundem com as mentiras. Mas a extrema direita alemã esfrega as mãos diante de um caso que considera ser a prova definitiva de que a mídia tradicional é praticamente uma fábrica de fake news. O embaixador dos EUA em Berlim, Richard Grenell, o homem forte de Donald Trump na Europa, aproveitou para lançar uma campanha contra a Der Spiegel. Acusa a revista de “antiamericana”, conturbando ainda mais a já desgastada relação entre Washington e Berlim.
A acusação de Grenell se baseia numa das invenções mais alucinantes de Relotius. Em um texto intitulado “Numa pequena cidade”, ele descreve uma localidade de Minnesota que seria exemplo de um reduto eleitoral de Trump. Michelle Anderson e Jake Krohn, dois moradores de Fergus Falls, enumeram em um artigo as invenções de Relotius. O vexame foi tamanho que a Der Spiegel decidiu enviar seu correspondente em Washington à cidade para reescrever a reportagem e pedir perdão.
Spiegelgate desatou um debate global sobre as fake news e a compulsão por tornar as histórias atraentes, mesmo que sob o risco de sacrificar a verdade. Alguns gurus do jornalismo alertam ultimamente sobre o risco de forçar as histórias para torná-las cada vez mais atraentes, como se a realidade não bastasse.
Juan Moreno se diz impactado por descobrir o poder que a persuasão pode chegar a ter, mesmo entre jornalistas veteranos. Moreno admite que chegou a acreditar que ninguém seria capaz de cometer tamanha fraude, “no fundo eu considerava que há certas normas que todos cumprimos.”
A Der Spiegel confronta agora uma profunda remodelação. Relotius guarda silêncio. E Moreno voltou à vida de repórter freelancer.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

A falácia da Reforma da Previdência




O “festival de mentiras que atola o Brasil” começou com Cabral I; mas talvez há algumas décadas esteja vivendo sua apoteose – que, não por acaso, coincide com os estertores finais do Capitalismo sob sua mais recente máscara, o Neoliberalismo. No futuro, os estudantes, ao serem apresentados a certos fatos históricos pelos professores, dirão: “Como era possível que nossos bisavós fossem tão estúpidos? Como se deixavam levar pelas falácias propagadas pelos que desejavam apenas a perpetuação da hedionda desigualdade socioeconômica brasileira?”

Adriano Benayon foi um dos professores, junto com o colega Pedro Rezende, que descobriu qual tinha sido a fraude, na Constituição de 1988, perpetrada por Nelson Jobim – que se vangloriava do crime, mas não dava detalhes sobre ele: Jobim havia introduzido sorrateiramente no texto constitucional um inciso para favorecer o sistema financeiro.

Benayon também explicou que em duas décadas, atravessando os governos FHC e Lula, o Brasil jogou fora, com juros e amortizações da “dívida”, 6 trilhões de reais. (Desde então, imagino que já tenha jogado pelo ralo mais uns três trilhões.)

Por essas e outras, Adriano Benayon jamais é entrevistado pela grande mídia, que é a voz do Elefante Oculto a que me refiro no texto anterior – “É a lama, é a lama”.

O alvoroço falacioso e cínico da mídia em torno da “Reforma da Previdência” proposta pelo ogro nazista me provocou ânsias por escrever um texto falando todas aquelas coisas que serão do conhecimento das crianças do futuro. Mas senti também, concomitantemente, uma aguda vontade de ver o que o professor Benayon certamente deveria ter escrito a respeito. E encontrei o texto perfeito.

Tenho o costume de editar textos, mesmo dos melhores intelectuais, antes de replicá-los no blog. Mas seria um pecado fazer isso com o texto do professor Benayon, que segue na íntegra.
Nelson M. Mendes



Artigo recolhido em:
Previdência – confundir para destruir
Adriano Benayon

Não se pode negar que privilégios colossais corroem o Brasil. Não é, porém, na Previdência Social que eles estão. E como os beneficiários das absurdas disparidades controlam a política, a “reforma” da Previdência é perversamente usada para aumentá-las, em vez de corrigi-las. Grupos financeiros, não contentes com os mercados cativos de que desfrutam, querem as contribuições sociais dos servidores: daí o teto para a previdência pública. A privatização é a meta do estupro em andamento, a ser obtido a qualquer preço, sob a direção da dupla da rua K em Washington, EUA: o Banco Mundial e o FMI.

A lógica do processo é sempre a mesma. A política econômica cria os déficits, abaixa a renda, dizima o emprego e faz aumentar a insatisfação. Isso serve de desculpa para extrair mais dinheiro dos que nada têm a ver com esses déficits. Quem se apropria dos recursos do país e os transfere para o exterior? Exatamente os que capitalizam a insatisfação para obter novas e desmedidas vantagens. Assim foi: 1) com as “privatizações”, objeto de monumental corrupção; 2) para tirar do Estado a regulação das atividades econômicas, transferida para agências advogadas dos concentradores.

Então, chega de jatos de espessa fumaça sobre os nossos olhos. É verdade que temos graves problemas. Pior: a magnitude deles leva-nos à ruína. Mas a questão é não se deixar confundir a respeito da origem do mal. Em suma, desmontar a farsa. Eis um de seus scripts: 1) as tarifas dos serviços públicos privatizados, como os telefones, a energia elétrica, o fornecimento de gás etc., são elevadas seguidamente, conforme contratos ilegais que estipulam a indexação, terminantemente negada aos assalariados; 2) os oligopólios, quase todos nas mãos de transnacionais e de suas matrizes estrangeiras, arbitram à vontade os preços dos produtos cujos mercados controlam. Em vez de remover as causas da inflação, o que faz a política econômica governada pela dupla da rua K e por banqueiros de Boston, Nova Iorque e Londres? Sob o mentiroso pretexto de combate à inflação, mantém intoleráveis taxas de juros, as quais: a) já sugam 70% das receitas somadas da União, estados e municípios; b) servem de ponto de partida para que os bancos arranquem juros astronômicos de autônomos e assalariados, pequenas e médias empresas, inviabilizando-as.

Essas são as hemorragias que devem ser estancadas urgentemente. Não há déficit da Previdência. Ademais, são tão pífias e discutíveis as economias que a “reforma” produziria, que não se pode considerar senão como farsantes os que pretendem enfocar a questão sob esse prisma. Há, ademais, o fito de desferir o golpe de misericórdia no serviço público do Brasil.

Mais notável é a tentativa de sustentação moral que o sistema de poder concentrador pretende dar à “reforma”. Segundo a falaciosa campanha, ela reduziria injustiças, ao retirar privilégios de altos funcionários e de oficiais superiores das Forças Armadas. Ora, os servidores públicos com maiores salários têm pleno direito à aposentadoria integral e às pensões, nada mais devendo pagar por esses “benefícios”, pois estes têm sido pagos com sobras. Estabelecer limites de idade para a aposentadoria dos atuais servidores, mesmo que tenham contribuído por 35 anos, é discriminar contra os que começaram a trabalhar mais jovens, ou seja, os originários das camadas mais desfavorecidas. Acabar com a paridade entre ativos e inativos acelera a erosão dos proventos destes, já reduzidos, como os dos ativos, pela inflação acumulada e pela ausência de reajustes.

Para entender por que alguém crê na “reforma” emanada da rua K, há que atentar, ainda, para outra ação perversa dos concentradores. A política econômica aviltou tanto os rendimentos do trabalho, que muita gente pensa serem fantásticos os salários mensais acima de 4 mil ou 5 mil reais. Não cogitam de que 60% disso são consumidos por impostos, taxas e contribuições, sem que, em troca, haja acesso a serviços públicos gratuitos,  a educação decente, pois o dinheiro vai para os encargos da dívida. Em resumo, o sistema de poder gerou miséria generalizada, e os poucos que ela ainda não assola são vistos como privilegiados, apesar de terem a vida sacrificada por dificuldades, quando não ceifada pela violência, sempre em alta, como os preços.

Este é um dos efeitos mais terríveis da dominação globalizante: a ideia de que a miséria é o natural, e a justiça consiste em tornar todos miseráveis. Mais espetacular é que as pessoas não se deem conta da existência dos reais privilegiados. Esses residem no exterior, ou transitam entre fortalezas inexpugnáveis e ambientes inacessíveis. A mídia e os políticos amestrados encarregam-se de apresentá-los como benfeitores. Resultado: há ignorância sobre fatos como: 1) as 300 maiores empresas em atividade no Brasil têm receita líquida igual a 50% do PIB; 2) excetuada a Petrobras, ainda não de todo privatizada, esses 300 grupos quase não pagam imposto de renda de pessoa jurídica, mágica que obtêm transferindo ao exterior, como despesas, o grosso de suas receitas; 3) a arrecadação do imposto de renda das pessoas físicas é maior do que a das jurídicas; 4) na arrecadação destas, mais de 80% vêm das pequenas e médias empresas. A “reforma” tributária deixa tudo isso intocado.

Quando esses fatos são expostos a certas pessoas, elas denotam ainda mais seu temor aos concentradores e imaginam impossível limitar-lhes o poder. Muitas optam por dar de ombros à destruição do país, integrando, como cúmplices, a camada dos cooptados por vantagens equivalentes a milhões de dólares, migalhas comparadas aos trilhões dos potentados mundiais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

"É a lama, é a lama"

Nelson M. Mendes

Nota preliminar: o título é um verso da linda e conhecidíssima composição “Águas de março”, de Tom Jobim. Que o maestro me perdoe a apropriação espúria, porém pertinente.





O incêndio no CT do Flamengo deve ter deixado muita gente feliz. Afinal, nada como um incêndio para “apagar” da mídia a repercussão da tragédia que foi o criminoso tsunami de lama promovido pela privatizada Vale em Brumadinho, MG.

Nos anos 50/60 do século XX, o termo tsunami não era popular. Mas falava-se muito em “mar de lama”. Escreveu Rodrigo Vianna em 2014, a propósito da disputa eleitoral entre Dilma e Aécio:
Carlos Lacerda fazia oposição violenta contra Getúlio Vargas e o trabalhismo. Bancado pelos EUA, tinha apoio de uma classe média furiosa com os direitos trabalhistas, com a criação da Petrobrás e com a entrada em cena da “ralé” (que passava a definir eleições – votando em Vargas ou nos candidatos apoiados por ele).
Qual era o discurso de Lacerda? Vargas seria um “corrupto”, um “bandido comandando uma quadrilha”.
Isso lembra alguma coisa a vocês?
Em 1954, a imprensa passou a falar em “Mar de Lama” no governo.
No debate da Band, qual foi a grande “sacada” de Aécio? Dizer que o Brasil vive um “Mar de Lama”.
O “Mar de Lama” de Aécio foi parar na capa do Estadão. O combalido diário paulistano deve ter achado que voltaram os bons tempos: uma manchete com cheiro de anos 50.

A verdade é que o grande incêndio é o que arde nas consciências indignadas com o lamacento tsunami de mentiras midiáticas que há décadas soterra os sonhos do Brasil, um país que poderia ter “um destino próprio”, como dizia o bravo e idealista Brizola. Há um breve histórico desse processo no Manual de autoajuda do iludido político II.

Isso já foi explicado em vários textos: a lavagem cerebral midiática suscita na classe média (e emergentes) o medo do “Comunismo”(um sistema que, stricto sensu, jamais existiu no mundo), atrás do qual está o medo de partilhar, que por sua vez tem sua raiz no que chamei de “egoísmo basal”.

Uma das táticas midiáticas para manipular esse egoísmo basal é associar qualquer liderança vagamente progressista ao “Comunismo” e a um “mar de lama”. Um pouco de Lógica e Psicologia: o egoísta não quer nem partilhar, nem que governantes alcancem ilicitamente a riqueza que ele próprio no fundo buscaria inclusive por meios ilícitos, se tivesse a chance.

No ensaio O lawfare que fere Lula,  escrevi:
O Delegado José Castilho, que foi boicotado na investigação do Escândalo Banestado ao chegar perto da cúpula do governo FHC e do poder econômico, declarou: “Me é difícil conciliar o sono à noite, só de pensar nas crianças abandonadas. Por trás de tudo isso está a corrupção.” Inocência do delegado. A corrupção não é o grande problema. O principal problema brasileiro é a desigualdade. Para mantê-la, os poderosos iludem as massas, inclusive com a quimera da corrupção. Prestidigitação é isso. Enquanto o mágico chama a atenção do público para detalhes sem importância, um elefante se materializa no fundo do palco.

O elefante escondido nos bastidores é o Poder Econômico Transnacional. Você não o vê porque ele é mantido oculto pela mídia, cuja função, segundo o saudoso Millôr Fernandes, é “ocultar a notícia”. Pensadores como Humberto Eco e Noam Chomsky estudaram o fenômeno: a mídia, um dos braços mais ativos desse poder transnacional, entretém e confunde o público com frivolidades, falsos problemas e falsos vilões. Tudo para que os verdadeiros crimes e criminosos continuem ocultos.

E o procedimento funciona, por alguns motivos: primeiro, porque a mídia acena com aqueles fantasmas que, como explicado, se nutrem do nosso “egoísmo basal”; segundo, porque no Brasil, em razão de um descaso pela Educação que, segundo Darcy Ribeiro, é uma estratégia das elites, há milhões e milhões de “analfabetos funcionais” – pessoas incapazes de verdadeiramente entenderem o que leem; ou seja: mentes prontas para serem docilmente envenenadas pelo “mar de lama” midiático – este, sim, de lama altamente tóxica.

Vejamos o caso do rompimento das barragens (no plural!) da Vale. Escreveu Alceu Castilho sobre o caso Mariana, de 2015:
Por trás da lama da Samarco [controlada pela Vale] afirma-se o jornalismo subserviente, a serviço do mercado. A tragédia já começa a ser soterrada pelos jornais. Mas por que, então, a imprensa, acostumada a fustigar o governo federal, não fiscaliza com mais atenção a Vale, símbolo da privatização a preço de banana? Simplesmente porque não tem o saudável hábito de fiscalizar corporações.

A respeito do caso Brumadinho, em 2019, o sociólogo e agrônomo Raimundo Gomes da Cruz é curto e grosso:
É mais um ato de irresponsabilidade da empresa Vale. Este modelo capitalista não interessa à sociedade, apenas aos executivos e acionistas. Aqui na região de Carajás nós questionamos a exploração mineral desde a década de 1980. Este país precisa colocar suas riquezas em beneficio da sociedade. Porque a Vale representa interesses imperialistas, sendo ela privada ou estatal. Este é um governo a serviço dos imperialistas, principalmente a vertente norte-americana.

Ailton Krenak, em entrevista indignada sobre o evento de Mariana,  que matou o rio Doce (Watu, para a etnia Krenak) em 2015, se refere à motivação básica desse comportamento socialmente irresponsável e ambientalmente predatório:   
Essa mentalidade estúpida, desse capitalismo que só pensa na exaustão dos recursos da natureza, com a justificativa de que estão fazendo o desenvolvimento. Nós somos ajuntamentos nada relevantes para esses caras. Somos colônias avassaladas. Esses caras fazem o que querem com os nossos territórios, nosso litoral, nossa floresta.

Mas o Elefante Oculto acha pouco. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário (incluindo o “desdobramento” conhecido como MP) tratam de fazer a vontade do guloso paquiderme – muito mais por interesses pecuniários pessoais que por motivação cívica ou convicções ideológicas. (Sempre o “egoísmo basal”!)  E milhões de brasileiros foram doutrinados pela mídia (o “quarto poder”) a achar que é bom, sim, que o elefante destrua nossa horta e nosso jardim.

O caso das “doações-privatizações” (expressão de Helio Fernandes) é emblemático. E o caso da “doação” da antiga Vale do Rio Doce, mais emblemático ainda.

O sociólogo Ivo Lebauspin, em entrevista de 2007, declarou:
A Vale do Rio Doce, em 1997, era a maior mineradora mundial de minério de ferro. Tudo isso construído com dinheiro público. Pois bem, ela foi privatizada em 1997 por R$ 3,3 bilhões – que é menos do que ela obtinha por ano em 1995 e é menos do que ela lucra hoje em apenas três meses.
Um dos dois principais motivos alegados para a privatização das empresas estatais era o pagamento da dívida pública. As empresas foram vendidas, mas a dívida aumentou exponencialmente entre 1995 e 2002.
Aquela privatização foi uma fraude, um engodo.
Os neoliberais argumentam que o Estado cresceu demais, é preciso reduzir os gastos públicos, privatizar as empresas estatais. No entanto, em todos os países onde o Neoliberalismo foi implementado, a arrecadação tributária, ao invés de diminuir, aumentou.
O Estado extrai mais impostos dos cidadãos não para melhorar os serviços públicos, mas para pagar a dívida e seus juros.

Sim, o Elefante não consome apenas minério, madeira, água, gente; como símbolo da hipertrofia cancerosa do Capitalismo, o paquiderme é voraz consumidor de dinheiro. E frenético evacuador de mentiras.

No texto A tulipa podre, eu disse que a propaganda é a arma do negócio. Como publicitário, posso afirmar que a propaganda é uma forma institucionalizada de mentir.

A mentira básica defecada pelo nefasto elefante chama-se “livre mercado”. Estudiosos garantem que o “Liberalismo” jamais foi de fato aplicado na relação entre países. Ao longo da História, as potências da vez tratavam de exercer sobre as demais nações um domínio cultural, econômico, militar. Um dos instrumentos de dominação era exatamente a propaganda, para convencer os dominados de que eles deveriam ser liberais, aceitar a dominação; enquanto isso, as potências hegemônicas, quando apresentavam alguma fragilidade em qualquer setor, cercavam-se de barreiras protecionistas.

Um outro segmento da mesma merda é a valorização mítica dos chamados “investimentos privados”. Os estudiosos garantem que não há exemplo na História de país que tenha se desenvolvido sem a ajuda, sem o investimento do Estado. Aqui mesmo no Brasil – a “Casa da Mãe Joana” do Capitalismo Transnacional: a depender do investimento privado, não teria havido a Petrobras, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce. Tragicamente, só a Petrobras não foi ainda integralmente “doada-privatizada”.

O exemplo mais completo da atuação da “mão visível do Estado” (em contraposição à fictícia “mão invisível do Mercado”) foi o New Deal, programa com que o presidente Franklin Roosevelt salvou o Capitalismo de sua irresponsabilidade autofágica. Isso não é opinião, é história. A “crise financeira internacional” de 2008, mais um surto da incurável doença autoimune do Capitalismo, também não é opinião; e mais uma vez foi o Estado a salvação – desviando dinheiro público (trilhões de dólares e euros) para socorrer banqueiros e especuladores.

Na abertura deste ensaio, apresentei a “pizza” do Orçamento Federal superposta à imagem da lama de Brumadinho – que provavelmente matou cerca de 300 pessoas. A “pizza” é relativa ao ano de 2016; o acesso a gráficos mais recentes nos foi negado por mensagens como “você não tem permissão (...)”. Mas a divisão de fatias é basicamente a mesma há décadas: quase metade é destinada a pagar juros e amortizações da “dívida”.

Dirão os honestos de plantão que dívida tem de ser paga. Sim, quando a dívida é real, e foi contraída por iniciativa do devedor. A dívida brasileira foi praticamente imposta por credores que, no momento áureo dos petrodólares, não tinham onde enfiar dinheiro; e enfiaram na goela de países do 3º Mundo, exatamente como a comida é enfiada na goela do ganso em que se deseja provocar a hipertrofia do fígado, para produzir o patê de foie gras. Esse procedimento, de resto, era e é um dos meios pelos quais países fortes submetem os países pobres, como explicado por Celso Furtado, Adriano Benayon e até por John Perkins, autor do inacreditável livro Confissões de um Assassino Econômico.  

A dívida brasileira (“interna” e “externa” reunidas num “baião de dois”), conforme Helio Fernandes e outro veteranos jornalistas cansaram de dizer, jamais foi de fato auditada. Aquilo é um poço sem fundo de fraudes e mentiras.

Parafraseando o arquetípico personagem Sheldon, da série The Big Bang Theory, eu perguntaria: Em que universo é “legal”, “natural”, reservar metade do orçamento de um país para engordar banqueiros?

Mas, para todos os efeitos, a “dívida” é legal. E muitos governantes estrangeiros “sugeriram” que ela fosse paga com nossas riquezas – matas, águas, minérios. Ou seja: trocar coisas de valor incalculável por “papel pintado”, como diz Helio Fernandes.

Com a devida licença de Sérgio Porto, o “festival de mentiras que atola o país” é imensurável. A produção coprológica do Elefante equivale aos tsunamis de lama produzidos pela Vale em 2015 e 2019. (Especialistas dizem que muitos poderão ainda acontecer.) E a capacidade coprofágica do público – uma legião de zumbis gerados pela lavagem cerebral midiática que ocorre há décadas – é também gigantesca.

É por causa dessa lavagem cerebral – que “casa” perfeitamente com o “egoísmo basal”, particularmente da classe média – que muitos fingem que acreditam em certos absurdos defecados pelo Elefante e embrulhados por congressistas, juízes, jornalistas.

Por exemplo: “acreditam” que, no país da construção de Brasília, das obras faraônicas do Regime Militar e do caso Banestado (quando 124 bilhões de dólares voaram para o exterior), o Mensalão foi “o maior escândalo da história da República”. Ou que o filho de Lula era dono de uma fazenda suntuosa, de uma Ferrari de ouro, da Friboi. Ou ainda que as ridículas pirotecnias de Moro, Dallagnol e companhia (figuras às quais a História reserva o mais indigno dos lugares, o dos desonestos e traidores) fazem algum sentido.

No já citado ensaio O lawfare que fere Lula (escrito a partir da leitura de mais de 70 artigos de juristas, historiadores, sociólogos, jornalistas, e com base também em autores como Darcy Ribeiro e Barbosa Lima Sobrinho), eu registro que até Reinaldo Azevedo, criador do termo “petralha” e desafeto de Lula, teve de reconhecer que Lula era vítima de lawfare – que significa exatamente perseguição política por meios jurídicos.

De fato, 122 juristas escreveram um livro – Comentários a uma Sentença Anunciada  - o Processo Lula – denunciando que a lei foi destroçada no afã de condenar o ex-presidente.

Euclides Mance, filósofo, professor de Lógica e Filosofia do Método Científico, escreveu o livro Falácias de Moro: Análise Lógica da Sentença Condenatória de Luiz Inácio Lula da Silva. E recebeu o apoio público de 30 doutores em Filosofia, Lógica, Matemática.

E por que essa perseguição?

O sociólogo Ivo Lebauspin, na mesma entrevista de 2007 cujo link foi acima apresentado, esclarece que Lula não pretendia molestar o Elefante Oculto:
Desde a primeira carta de intenções do Governo Lula ao FMI, em fevereiro de 2003, o governo se compromete a privatizar os quatro bancos estaduais que ainda eram públicos e a realizar a Reforma da Previdência do setor público, que nada mais é do que a privatização de parte da previdência, através dos fundos de pensão. O Governo Lula manteve os leilões anuais das áreas de exploração do petróleo – introduzidos pelo Governo FHC -, que transfere parte destas áreas nacionais para empresas multinacionais.

Sustentam alguns analistas bem-informados que o próprio Lula teria sido criação do “bruxo” Golbery para dividir as esquerdas, então representadas pela figura mítica de Leonel Brizola – este, sim, odiado pelas elites brasileiras e potências estrangeiras.

Ainda assim, Lula passou a ser perseguido desde que despontou como líder sindical, particularmente pela Globo (a principal sucursal da Fábrica de Zumbis) e pela revista Veja, que chegou a publicar, quando Lula passou a ser cogitado como canditato à presidência, que haveria, caso ele viesse a ser eleito, invasões de propriedades, êxodo de empresários e todo tipo de distúrbio. Lula foi pintado como um potencial Gengis Khan “vermelho”.

Essa perseguição midiática a Lula se tornou um case histórico, que já rendeu trabalhos acadêmicos.

A verdade é que o Elefante Oculto, particularmente quando servido pelo Estado norte-americano, quer que tudo saia exatamente segundo seus objetivos. Como relata John Perkins nas suas Confissões (link mais acima), o primeiro passo é a oferta de propina aos líderes dos países subdesenvolvidos; o segundo passo é o envio dos “assassinos econômicos”, a fim de sabotar economias no sentido dos interesses estrangeiros; o terceiro é a eliminação, explícita ou em suspeitíssimos acidentes, dos líderes recalcitrantes; finalmente, se tudo falhar, providencia-se uma invasão militar.

É óbvio que, no Brasil, o Elefante geralmente não precisa ir além da primeira fase.


Mas Getúlio Vargas foi levado ao suicídio; Jango foi deposto por um golpe plutomilitar; Lula foi mantido longe da presidência através de implacável cerco midiático, até que escreveu a famosa “Carta ao Povo Brasileiro”, prometendo não chatear o Elefante, e finalmente foi eleito; Dilma seria derrubada através de instrumento mais sofisticado, o golpe jurídico-parlamentar-midiático.

Finalmente, para glória do Elefante, o zumbi descerebrado elegeu “a mais perfeita tradução” (perdão, Caetano!) da estupidez, do preconceito, da insensibilidade, do reacionarismo. Tudo por causa do medo do “Comunismo” – medo que, como vimos, enraíza-se no “egoísmo basal”.

O tsunami de lama midiática produz tsunamis de lama real e soterra o futuro.



“É a lama, é a lama.”