quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O cons[c]erto planetário


Nelson M. Mendes
Em 2002 eu fiz uma pós-graduação na UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), na área de Educação Ambiental. Quando se aproximava o fim das aulas, os alunos foram convidados a fazer um texto falando de sua experiência acadêmica. O meu texto – “Um rio que passa” – foi o escolhido para ser incluído na última página do folheto que tratava dos assuntos do curso, que fazia parte do PDBG (Programa de Despoluição da Baía de Guanabara).
Depois de citar Paulinho da Viola e Heráclito, eu escrevi:
Como diria Nelson Rodrigues, um marciano que aqui chegasse e fosse visitar a UERJ, haveria de anotar em seu caderninho: “Os terráqueos estão conscientes de seu papel no concerto planetário. Eles sabem que é necessário rever práticas de vida e hábitos de consumo, mudar o paradigma do desenvolvimento a todo custo, do crescimento infinito num planeta finito, substituir a competição pela cooperação. Eles sabem também que nada disso pode ser obtido do dia para a noite, e atribuem grande importância à educação nesse processo de preservação ambiental. É como se parafraseassem o grande Pitágoras: ‘Educai as crianças e não será preciso recuperar o planeta’.”
O meu texto tinha sido escolhido. Mas algum revisor implicou com a expressão “conCerto planetário”. Era óbvio que eu havia cometido um deslize ortográfico. Então o revisor resolveu fazer um “conSerto ortográfico”, e no informativo consta que “os terráqueos estão conscientes de seu papel no conserto planetário”.
O conserto cabia, dado o contexto. Eu falava de mudar hábitos, paradigmas, propostas econômicas; ou seja: de consertar o planeta. Mas eu tinha em mente muito mais do que isso.
O homem não está aqui para tornar o planeta “bonitinho”. Devemos preservá-lo, é claro, como palco de um drama de que o homem é, sim, o protagonista. A aventura humana vai muito além do que supõem os pensadores acadêmicos.
“Do pó vieste e ao pó retornarás.” (Gênesis 3.19) Essa mensagem foi apropriada de modo oblíquo por muitos que consideram o homem um mero acidente da natureza, um “animal que deu certo”. Compreensível. Depois de séculos de dogmatismo, de superstições, a ciência pareceu oferecer ao homem a possibilidade de encontrar todas as explicações e respostas. No final do século XIX, essa postura – essa crença – cristalizou-se na forma de uma escola filosófica, com nome e tudo: o Positivismo.
As “superstições materialistas”, como disse alguém, já foram questionadas pela própria ciência. Depois de Einstein, tudo ficou realmente muito relativo. Mas o cachimbo materialista deixou tortas muitas bocas.
A pós-graduação na UERJ foi uma experiência interessantíssima. Havia excelentes professores, alguns com projeção internacional. Mas a atmosfera era a acadêmica. Para a quase totalidade de alunos e professores, o homem é mesmo um acidente no planeta – talvez até uma espécie de doença. Havia até uma forma academicamente chique de falar da interferência humana no planeta: “influência antrópica”.
Quando o revisor deu com a expressão concerto planetário, ele, ancorado nesse “neopositivismo”, entendeu que eu quisera falar de conserto: reparar os erros humanos, neutralizar a “influência antrópica”.
Entretanto, eu olhava para as estrelas. Eu tinha em mente a seguinte acepção do termo, segundo o dicionário Aurélio: “harmonia, acordo”.  Que a “música das esferas” se refletisse  no “concerto planetário”.
O Concerto de Brandemburgo nº 3, de Bach, exprime o que sinto. O segundo movimento, particularmente – alegro –, é a representação da espiral evolutiva do “fenômeno humano” (T. de Chardin) no retorno à Fonte.
O homem não é um acidente. E tem conserto. O conserto é o concerto.



quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

#Euavisei


Nelson M. Mendes

Eu avisei. Poucos teriam tanto direito de usar essa hashtag quanto eu.
Porque eu avisei. Eu alertei. Eu expliquei, com base em registros históricos, que o brasileiro tinha sido doutrinado a odiar qualquer sistema, qualquer país, qualquer pessoa que pudesse, mesmo que remotamente, ter algo a ver com as ideias de “igualdade”, “distribuição”, “compartilhamento”. Ou seja: no índex brasileiro (não nos ocupemos de outros países onde ocorre o mesmo fenômeno) estão o Socialismo, o Comunismo, muitos países onde esses sistemas jamais vigoraram, de fato, e nomes como Marx, Fidel, Mao – e até Chávez, até Lula...
Eu expliquei, em vários textos publicados no blog Satyagraha, que o grande Sistema Capitalista já há muito entrou em fase terminal, e que tem sobrevivido à custa de aparelhos: aparelhos diplomáticos, publicitários, políticos, econômicos, militares. Expliquei  também que todo organismo ou sistema luta pela sobrevivência – isso é natural; e que, no entanto, também é natural que todo organismo, sistema ou império tenha  seu fim. E o fim do Capitalismo, com os trajes neoliberais ou não, as máscaras do Neoliberalismo ou não, está próximo.
Como o nosso assunto é o Brasil, e como é preciso repetir e repetir certas coisas até que elas sejam ouvidas e compreendidas, vamos rememorar – sem ir para trás das fronteiras do século XX, até porque só iríamos encontrar os mesmos fatos com vetusta feição.
Quando Getúlio Vargas (perfil ditatorial e demais idiossincrasias à parte) foi perseguido, acusado de navegar num “mar de lama”, era o Capital que agia; quando Jango foi deposto (golpe de 1964), foi o Capital que agiu; quando, na primeira eleição presidencial depois da ditadura, o fantoche Collor foi eleito, foi o Capital que agiu. Há quem garanta que o próprio surgimento do PT foi obra maquiavélica do Capial: o “bruxo” Golbery operou para que um novo partido de esquerda dividisse a oposição com o partido de Brizola – esse, sim, o espectro temido pela direita.
Eu também expliquei que essa história de “Fim da História” era o fim da picada; porque a ideia é a de que a humanidade teria, com o Neoliberalismo, chegado a um sistema perfeito: não haveria mais luta de classes, esse negócio de direita X esquerda era coisa do passado.
Eu insisti (embora reconhecendo que clamava no deserto): dizer que não existe mais a antinomia direita/esquerda seria como dizer que foi revogada a lei física de ação/reação. Disse exaustivamente que o próprio Capitalismo já foi esquerda um dia.
Mas eu falava para as paredes. Discursava no deserto.
Depois dos governos em que o “esquerdista” Lula fez exatamente o que dele esperava o Capital, ainda que com respeitáveis concessões às demandas sociais, vieram os governos de Dilma, que também caprichou no cumprimento da cartilha neoliberal.
Mas Dilma não é Lula, a conjuntura econômica mundial era menos favorável, os problemas econômicos começaram a resultar em insatisfação popular. E o que aconteceu? O Capital, montado na sua gigantesca máquina publicitária, tratou logo de capitalizar aquela insatisfação popular: como tinha feito com Getúlio e Jango, inventou logo uma história de “corrupção”e, manipulando mídia, Congresso e Judiciário, conseguiu que a “ladra comunista”(!) sofresse o impeachment. Hoje está provado que o impeachment foi uma fraude, um golpe; o objetivo era colocar no Planalto o boneco amestrado Temer, muito mais obediente do que Dilma.
Todo mundo achou ótimo. Mas eu avisei.
Haveria eleições em 2018. Lula poderia mais uma vez se candidatar. E as pesquisas mostravam que, apesar de permanentemente alvejado por todas as armas do Capital (sobretudo a mídia), Lula era o favorito disparado. Ganharia fácil.
O Capital não podia esmorecer; aí inventou Moro. Inventou processos estapafúrdios, que envergonham para sempre a Justiça brasileira – que, de resto, já tinha mesmo uma péssima fama.
O público já tinha sido empanturrado de fakenews adrede engendradas para desqualificar Lula: seu filho seria dono de uma fazenda suntuosa, de uma Ferrari de ouro, de um avião de ouro, da Friboi... O próprio Lula apareceu numa capa fake da revista Forbes como um dos homens mais ricos do mundo. O objetivo da campanha era claro: mostrar ao povo que, enquanto ele sofria (agruras provocadas exatamente pelo Capitalismo...), Lula e família se locupletavam e enriqueciam, fingindo que eram “socialistas”.
Mas convencer o público não bastava: era preciso criar um fato jurídico, encarcerar Lula.
E aí entraram em cena algumas das figuras mais risíveis da história brasileira: Sérgio Moro, Dallagnol... e os indefectivelmente ignóbeis ministros do STF.
Eu também avisei: Lula está sendo vítima de perseguição jurídica. Isso tem até nome: lawfare.
122 notáveis juristas escreveram um livro – “Comentários a uma sentença anunciada – o processo Lula” – para provar que o processo contra Lula era uma fraude. Um professor de lógica escreveu um livro mostrando as incongruências, os absurdos, do ponto de vista lógico, da sentença contra Lula; e recebeu o apoio público de quase trinta doutores em Filosofia, Lógica, Matemática.
Mas nada disso adiantou. Como escrevi num dos meus últimos posts no Facebook, “contra a burrice e o egoísmo, a lógica, os fatos e os números são inúteis”. (Foi por isso que abandonei aquela rede social. Não aguentava mais faceboorrice.)
Mais uma vez é preciso explicar: a campanha do Capital em prol de seus interesses só funciona porque o povo tem medo do “Comunismo”; por trás do medo do “Comunismo” estão a burrice (alhos são confundidos com bugalhos) e o egoísmo (repulsa à ideia de compartilhar).
Com Lula encarcerado, uma vez perpetrada uma das maiores fraudes jurídicas de que se tem notícia, cabia agora ao povo fazer o que dele esperava o Capital: eleger Bolsonaro.
E quem era Bolsonaro? Bolsonaro tinha sido pintado pela mídia como o paladino da anticorrupção. E a corrupção, segundo a narrativa trombeteada pela mídia (mentindo sempre a serviço do Capital), tinha nome: PT – Partido dos Trabalhadores. Se Collor fora o “Caçador de Marajás” (os servidores públicos cujos altos salários seriam uma das principais causas dos problemas brasileiros), Bolsonaro era o “Caçador de Petistas”.
O Petismo tinha sido fraudulentamente associado a todas as mazelas brasileiras – que, segundo essa narrativa falaciosa, eram produto da corrupção. (O que é a grande mentira brasileira. No texto O lawfare que fere Lula, eu escrevi: “O Delegado José Castilho, que foi boicotado na investigação do Escândalo Banestado ao chegar perto da cúpula do governo FHC e do poder econômico, declarou: 'Me é difícil conciliar o sono à noite, só de pensar nas crianças abandonadas. Por trás de tudo isso está a corrupção.' Inocência do delegado. A corrupção não é o grande problema. O principal problema brasileiro é a desigualdade. Para mantê-la, os poderosos iludem as massas, inclusive com a quimera da corrupção. Prestidigitação é isso. Enquanto o mágico chama a atenção do público para detalhes sem importância, um elefante se materializa no fundo do palco.")
Então o povo, que já tinha sido doutrinado a odiar o “Comunismo” e o PT, resolveu (vergonha histórica!) apostar no burro nazista: elegeu o capitão deformado (quer dizer: reformado) Jair Bolsonaro.
Neste fim de 2018 estamos ainda sob o governo do títere Temer; mas a eleição e as declarações do burro nazista já tiveram efeitos devastadores: a conferência sobre o clima que a ONU organiza anualmente, e que em 2019 seria no Brasil (COP-25), foi transferida para Santiago depois das declarações de Bolsonaro e de seu futuro chanceler, que é contra o “alarmismo climático” e acha que as mudanças climáticas são um “dogma marxista”(!); os médicos cubanos, que prestavam inestimável serviço nos cantões perdidos do Brasil, fizeram as malas e foram embora.
Isso sem falar na escalação dos ministros do futuro governo: para cuidar da economia, um incompetente que nem percebeu ainda que o Neoliberalismo é um Titanic 95% naufragado; para o Itamarati, um especialistas em gafes e asneiras diplomáticas; para a agricultura, mulher conhecida como “musa do veneno”, em razão de seu apoio ao uso maciço dos eufemisticamente chamados “defensivos agrícolas”; para a pasta de Direitos Humanos, uma fundamentalista e delirante (a tal que viu Jesus no pé de goiaba) que faria um talibã parecer um moderado filósofo; para a Justiça, o adepto da fraude, da mentira, o inimigo da lógica e do Direito.
Para ser ministro bolsonazista, é preciso: ser burro e/ou mal- intencionado; ser burro e/ou desonesto; ser burro e/ou preconceituoso. Convém muitíssimo (conta muitos pontos na escala bolsonazista) ter uma ficha de arbitrariedades cometidas contra o “Comunismo”, contra negros, índios, gays, minorias.
Assim, o capitão deformado (quer dizer: reformado) vai se preparando para cumprir o seu papel de sabotador do Brasil, um país que, como dizia Brizola, poderia ter um “destino próprio”.
Eu avisei.

sábado, 22 de dezembro de 2018

Burrice espiritual


Nelson M. Mendes

Somos informados de que a ciência descobriu a inteligência espiritual. O texto começa informando que, “no início do século XX, o QI era a medida definitiva da inteligência humana”, e que só nos anos 90 se descobriu a inteligência emocional. O segundo parágrafo é aberto com pompa e circunstância: “A ciência começa o novo milênio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela [...] pode ser a chave para uma nova era no mundo do negócios.”

Em primeiro lugar, faz-se uma reverência à ciência, essa vaca sagrada que é venerada com particular devoção pelo menos desde a Revolução Industrial; e uma significativa referência ao “novo milênio”, porque, afinal, é preciso lembrar que nós estamos no ápice de um processo civilizatório que começou lá nas cavernas...  Em seguida,  anuncia-se que a inteligência espiritual poderá ser útil no mundo dos negócios... Pronto, está explicado: se, no Brasil, tudo acaba em samba, nos países hegemônicos tudo acaba em negócios, tudo gira em torno do Capital.

Segue o texto informando que a Drª Dana Zohar, que lançou o livro QS – Inteligência Espiritual, baseia seu estudo na descoberta, pelo cientistas, de um “Ponto de Deus” no cérebro. O articulista, entusiasmado e reverente, abre um parágrafo só para acrescentar:

“O assunto é tão atual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Newsweek e Fortune.”

Claro: a referência, o ponto de partida, o Umbigo do Universo é sempre a realidade, o momento presente. A realidade é Wall Street, é a Universidade de Oxford (onde leciona a Drª Zohar), é o “mundo dos negócios”. O resto é periferia. Ah, os cientistas descobriram agora uma tal de inteligência espiritual. Rápido! temos de descobrir um jeito de ganhar dinheiro com isso!

E aí estamos sob o reinado da burrice espiritual.

O Ocidente contemporâneo já havia, na virada do século XIX para o XX, levado um “banho de espiritualidade”, tido contato com a exótica “filosofia oriental”. Claro que tudo aquilo era bobagem. Era só uma questão de tempo até que a ciência encontrasse todas as respostas e colocasse no seu devido lugar todas aquelas “superstições” e mitos.

Aí apareceu, logo no começo do século XX, um cara que disse não haver nenhum caminho racional para as verdades essenciais; que o único caminho é o da intuição. Esse cara era um tal de Albert Einstein.

Enquanto isso, as “superstições” orientais continuavam vazando através das barreiras do orgulhoso racionalismo ocidental. Milenares conhecimentos indianos, chineses, árabes entraram na ordem do dia.  Todo mundo começou a falar de karma, de reencarnação, de plano astral, de Astrologia, de I Ching, de Tarô. Até o psicanalista Jung andou estudando essas coisas.

Nos anos 60, cresceu o interesse pela “filosofia oriental”. Até os Beatles foram à Índia arrumar um guru.

É claro que o Umbigo do Universo reagiu: era preciso transformar aquele interesse em money. Surgiram revistas especializadas; academias e centros de estudo proliferaram; gurus de ocasião apareceram em resposta à demanda.

Mas o interesse, fosse dos profissionais ou do público-alvo, partia sempre daquele centro a que se refere Krishnamurti (um dos mestres orientais – de verdade – que o Ocidente conheceu já na primeira metade do século XX): o ego, a personalidade limitada, egoísta – e burra.

A partir desse centro é que toda a sabedoria, que não é do Oriente nem do Ocidente, foi avaliada.

E é a partir desse centro que a descoberta da inteligência espiritual, ancorada neurologicamente no “Ponto de Deus”, é saudada com fanfarras, a ponto de merecer matérias nas emblemáticas revistas Newsweek e Fortune.

Tudo bem, o Universo não é um acidente. Tudo tem um propósito. Inclusive Wall Street; inclusive a Universidade de Oxford; inclusive os diligentes cientistas que descobriram no cérebro o “Ponto de Deus”; inclusive o deslumbrado jornalista que vem anunciar ao mundo a boa nova.

Mas eu também não sou um acidente. E também eu tenho um propósito.

No caso, o propósito é o de alertar sobre a possibilidade de que, como tantas vezes aconteceu, uma dimensão superior, de luz e saber, venha a ser instrumentalizada a serviço dos interesses do ego, que essencialmente padece de (curável) burrice espiritual.
__________

Maiores informações no texto Contrabando espiritual.


terça-feira, 18 de dezembro de 2018

O 25 de dezembro


Nelson M. Mendes

Todos sabemos o que acontece no dia 25 de dezembro: é comemorado o Natal. E o que é o Natal? É a data de nascimento de Jesus Cristo. E quem foi Jesus Cristo?
Em primeiro lugar: Ele não foi; Ele é, e sempre será.
Em segundo lugar: quase tudo o que se diz de Cristo é bobagem; invencionice humana; conversa fiada de papas, bispos, clérigos, pastores.
A começar pela data de Seu nascimento. Sim, o 25 de dezembro é apenas uma convenção.
Annie Besant, que tinha olhos para ver o invisível, leu tudo e conviveu com muitos mestres espirituais, explica, no livro “O Cristianismo esotérico”, que 136 datas diferentes já foram adotadas, até que o Papa Júlio I, em 337, resolveu adotar a mesma data em que os pagãos comemoravam as Brumélias, em honra a Baco, de modo que tanto pagãos quanto cristãos pudessem em paralelo e em paz fazer seus respectivos rituais.
Então já sabemos: um papa decretou que Jesus nasceu em 25 de dezembro. E que outras verdades foram estabelecidas por decreto? Muitas. A Bíblia é uma colcha de retalhos. Alguns brilham de Beleza e Verdade; outros desfazem-se facilmente ao toque da razão; há ainda os sujos e até fedorentos.  Porque o costureiro era humano. Melhor dizendo: os costureiros eram humanos.
Muita coisa mudou desde que Jesus pregou na Palestina, até que fosse finalmente pregado na cruz. Depois de morto, por mais de 50 anos continuou instruindo seus discípulos – é o que registra a literatura espiritualista. Mas, na versão do Catolicismo, Ele foi direto sentar-se “à direita de Deus-Pai”. Era o fim da história.
O Catolicismo decretou ou inventou muitas coisas, de acordo com conveniências políticas e interesses econômicos.
Conta Leonardo Boff (que deve conhecer um pouquinho da história da igreja) que o Cristianismo primitivo (“Cristianiamo-raiz”) era uma espécie de Comunismo: amar e compartilhar eram a norma naquela sociedade. O Cristianismo posterior (“Cristianismo-nutella”) seguiu o caminho da acumulação de riqueza e poder.
Havia que baixar novos decretos. Por exemplo: um outro papa, Virgílio, por pressão de Teodora, mulher do imperador Justiniano, resolveu acabar com a ideia de reencarnação. Então, em 553, no Segundo Concílio de Constantinopla, foi decretado que não havia reencarnação. Ponto. Ora, muita gente esclarecida diz que a Bíblia está cheia de referências à reencarnação. O próprio Paramahansa Yogananda (que deve entender um pouquinho do mundo espiritual) afirma isso.
Mas as besteiras não pararam aí.
Passemos rapidamente para uma besteira contemporânea. Não da igreja, não de papas, bispos e pastores: uma besteira bem brasileira, muitíssimo comum.
Todos nós, em algum momento, já sentimos a famosa “vergonha alheia”. Eu sinto vergonha é por quem usa a expressão. Por quê? Porque eis a primeira acepção, no dicionário do Aurélio, de alheio: “Que não é nosso; que pertence a outrem.” Ora, se a vergonha é alheia, eu não a posso sentir. O que eu sinto, quando vejo as pessoas abastardando assim o vernáculo, é vergonha vicária. Vicário é que significa “no lugar do outro”, “pelo outro”.
E aí chegamos a outra besteira da igreja: a doutrina da expiação vicária dos pecados: Jesus teria morrido para pagar pelos pecados humanos. Muito cômodo, não é mesmo? Ora, isso é jogar fora todo o Plano Divino, contrariar sábios e mestres ao longo das idades, desconsiderar o sentido do Karma.
Outra bobagem é a ideia do pecado original. Huberto Rohden, que foi padre jesuíta e abandonou a batina porque não cabia entre as paredes do dogmatismo católico, chega a fazer divertidas ironias sobre o ritual com que o sacerdote expulsa o Demônio do corpo do bebê a salpicos de água-benta...
Então quer dizer que, a poucos dias do Natal, estou eu cá investindo contra todos os valores cristãos?
Claro que não: eu estou atacando as besteiras cristãs.
Mesmo Paramahansa Yogananda, hindu, e que aponta o equívoco do Cristianismo em negar a reencarnação, que fazia parte da doutrina cristã original e à qual o próprio Jesus fez referência em alguns momentos, reconhece em Cristo um emissário de Deus; assim como Krishna, assim como Buda...
Alguns céticos, prontos para negar a validade de qualquer religião e a classificar todos os sábios e santos como demagogos ou fanáticos delirantes, lembram que muitos mitos religiosos são semelhantes, o que significaria que alguém, um dia, inventou uma bela história da carochinha e todo mundo a copiou.
Mais uma vez Annie Besant, inicialmente ela própria descrente e materialista (até bater de frente com Helena Blavatsky), explica: as histórias são parecidas porque são de fato a mesma história, vivida pelo mesmo ator incorporando o mesmo personagem, embora com novo nome e nova aparência.
Paramahansa Yogananda relata uma visão ou sonho em que Krishna e Cristo caminhavam de mãos dadas. Não há, na verdade, diferença entre Eles: são ambos manifestações da mesma – vá lá o termo – entidade.
Portanto: não se trata de negar Cristo, condenar o Cristianismo, desqualificar o Natal. Trata-se de condenar este Cristianismo, tal como o conhecemos, que é um “festival de besteiras” – como diria Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta.
Não é preciso falar da ignomínia que foi a Santa inquisição, que mandou para a fogueira hereges e bruxas; ou das Cruzadas, realizadas sob pretextos parecidos aos invocados pelos norte-americanos contemporâneos para justificar suas guerras; ou da participação da igreja no genocídio que foi a colonização; nem é preciso falar de sacerdotes indignos, de papas ambiciosos ou nazistas, de pastores picaretas.
Não é porque existem charlatães, que devemos descartar a Medicina; não é porque há juízes dedicados a praticar a injustiça e defender a mentira, a serviço de interesses econômicos, que devemos descartar o Direito; não é porque há homens que fazem o estilo “Don Juan” e existem mulheres infiéis, que toda a humanidade seja composta de conquistadores e adúlteras.
Charles Leadbeater (colega de Besant na Sociedade Teosófica) explica que as forças superiores conseguem usar todos os canais religiosos (mesmo os mais sujos e obstruídos) para fazer chegar alguma luz ao coração humano. Isso significa que o Cristianismo, apesar de toda a história de sangue e sujeira, reflete de fato a luz de Cristo. Isso significa que o Natal, arbitrariamente datado ou não, merece, sim, ser comemorado.
Mas que não sejam execrados aqueles que não o comemoram. Todo dia é dia de Cristo. E Aquilo que Cristo representa está em toda parte. Foi o que captei nas minhas caminhadas meditativas e registrei num poema:


O Templo

O meu templo
são as areias
da praia
A abóbada
que me cobre
não é de mármore
ou cal
é a celeste,
mesmo,
com seu azul
infinito
e as estrelas
ocultas.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Na borra de café


Nelson M. Mendes

A famosa mística Helena Blavatsky foi uma vez inquirida por um entrevistador sobre aquela ideia, divulgada em seus livros,  de que Deus está presente em todas as coisas. Queria o entrevistador saber se não era uma blasfêmia supor que Deus estivesse, por exemplo, nas cinzas do charuto sobre a mesa.

A resposta de Blavatsky perdeu-se nas cinzas da memória. Mas é óbvio que não se pode imaginar uma única infinitesimal partícula do Universo (que grafamos em maiúscula, contrariando a tradição gramatical, por considerar que trata-se de topônimo superior a todos os outros) em que não esteja presente a única coisa que verdadeiramente existe.  

Deus – é claro – também está na borra de café.

Mensagens superiores são vertidas por meios diversos: a Atrologia, o Tarô, o I Ching... e a borra de café. Enquanto o homem não pode Ver diretamente, ele se vale desses interessantíssimos espelhos, que refletem verdades, previsões e advertências.

Mas as mensagem se revestem de símbolos. As metáforas, ao contrário do que supõem certos intelectuais com pretensões de “isenção” e “rigor científico”, não existem para ornamentar o texto: são recursos valiosíssimos quando se trata de expressar coisas sutis e muitas vezes indizíveis de outra forma. Metáforas foram  usadas por grandes pensadores: de Platão a Jung,   do mais antigo sábio hindu ao  contemporâneo astrofísico. (O que são expressões como “buraco negro” ou “horizonte de eventos” senão metáforas?) Mesmo os grandes instrutores da humanidade recorriam aos símbolos. Disse um conhecido místico a seu grupo de seletos discípulos: “A vós é dado conhecer os mistérios do reino de Deus; mas, para os que estão de fora, todas essas coisas se dizem por parábolas.”

As parábolas, no caso de Jesus, eram uma forma de dizer sem revelar. Há uma tradição milenar, presente em todas as religiões, cara a todos os respeitáveis instrutores, de que certos saberes só podem ser explícita e integralmente apresentados a quem estiver moral e intelectualmente preparado.

As parábolas e metáforas, no caso desses instrumentos em que buscamos no visível o reflexo do invisível, são a própria linguagem possível através da qual eles nos falam. Diz Annie Besant (aliás, discípula de Blavatsky): “O mito é infinitamente mais verdadeiro do que a história.” Depois de fazer uma metáfora relativa a corpos e suas sombras, Besant cita o antigo aforismo: “O que está em cima é análogo ao que está embaixo.”

O que está nas estrelas está na borra de café. Porque o Todo está em tudo.

E a borra fala – claro – na linguagem de todos os mestres e oráculos.

Coube-me viver a experiência. Eu achei que iria apenas tomar um turkish coffee; mas a leitura da borra era o brinde especialíssimo. A intérprete disse a princípio algumas coisas triviais; mas, em seguida, parecendo vagamente surpresa e intrigada, falou: “Você tem um segredo – um segredo bom. Mas não quer revelar porque acha que as pessoas não estão preparadas.”

Não entendi a que ela exatamente se referia; meu intelecto não foi alimentado. Mas meu coração soube imediatamente que ela dizia uma verdade.

Depois, ainda parecendo intrigada, ela disse: “Você tem uma chave. Mas não sabe que porta abrir com essa chave.”

Mais uma vez, meu intelecto não absorveu uma informação; meu coração, sim. E senti que a referência ao “segredo” estava de alguma forma relacionada à da “chave”. Há um segredo a ser revelado. Uma porta a ser aberta.

Meu intelecto se cala. Mas meu coração acredita que este simples relato já me aproxima da porta.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O elo entre Liberalismo e Nazifascismo


LIBERALISMO E NAZIFASCISMO POSSUEM MAIS AFINIDADES DO QUE VOCÊ IMAGINA

Seria mesmo o Liberalismo o maior inimigo do Fascismo?

 Em 2 de jan de 2017  Última Atualização 10 de jun de 2018
Texto original:

Texto editado / NMM:

Em tempos nos quais o cinismo impera, vem sendo bastante difundida a máxima de que “o maior inimigo do Fascismo é o Liberalismo”. No entanto, há fatos para desmistificar tal falácia.

Um liberal na gênese do Fascismo

Vilfredo Pareto, economista liberal e sociólogo, inimigo mortal de qualquer protótipo de socialismo, contrário a qualquer intervencionismo no mercado e defensor da dominação das elites, foi um dos teóricos que produziram a ideologia precursora do Fascismo.
Pareto argumentou que a democracia era uma ilusão e que uma classe dominante sempre irá subsistir; acreditava que as desigualdades sociais faziam parte de uma ordem natural. Ele reivindicou uma redução drástica do Estado e conceituou o regime de Benito Mussolini como uma transição para esse Estado mínimo. “Nos primeiros anos de seu governo, Mussolini literalmente executou a política prescrita por Pareto, destruindo a liberdade política.” (BORKENAU, Franz. Pareto. Nova Iorque: John Wiley & Sons, 1936. p. 18.)
Pareto considerou o triunfo de Mussolini uma confirmação de suas ideias, especialmente a importância da força e seu desprezo por um sistema igualitário. A importância dele para o Fascismo foi equivalente à de Karl Marx para o Socialismo científico.

O Liberalismo como agenda das políticas econômicas de Mussolini

De 1922 a 1925, Mussolini e seu governo totalitário deram continuidade à política econômica do laissez-faire.
Depois da nomeação de Mussolini como primeiro-ministro, os industriais sentiram-se ainda mais recompensados com a designação de Alberto De Stefani, um intransigente liberal, como ministro das Finanças. De Stefani reduziu impostos, aboliu isenções fiscais que beneficiavam contribuintes de baixa renda, facilitou as transações com ações e a evasão fiscal reintroduzindo o anonimato (abolido por Giolitti), eliminou a regulamentação dos aluguéis, privatizou os seguros de vida (introduzidos por Giolitti) e transferiu a gestão do sistema de telefonia para o setor privado.” (SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Rio de Janeiro: Agir, 2009. p. 120)
Ademais, a ascensão do Fascismo (tal como a do Nazismo de Adolf Hitler na Alemanha) só foi possível com a colaboração e o suporte financeiro de grandes corporações ainda hoje poderosas: BMW, Fiat, IG Farben (Bayer), Volkswagen, Siemens, IBM, Chase Bank, Allianz, entre outros grupos de mídia, que financiaram esses regimes com o objetivo de frear o avanço do socialismo soviético na Europa.
“Os industriais não confiavam em Mussolini, que deu-se conta disto, tratando, em 1921, de adaptar sua linguagem para o liberalismo econômico e abandonar os princípios de intervencionismo estatal até então apregoados por ele. Em 1922, para todos os efeitos, aderira plenamente ao liberalismo econômico.”
(…)
“Os industriais, ao longo de 1922, mantiveram-se calados, como se não conseguissem reunir coragem para apoiar abertamente o Fascismo. À medida que os fascistas se fortaleciam, os industriais passaram a simpatizar com eles, como tantos outros que até recentemente defendiam a importância da Democracia.No momento em que Mussolini foi designado primeiro-ministro, a maioria dos capitalistas passou a apoiá-lo praticamente sem reservas.”
(…)
“Se dependesse de sua preferência, o novo governo seria chefiado por um liberal; apenas estavam convencidos de que os fascistas haviam se tornado a principal força antissocialista do país.” (SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Rio de Janeiro: Agir, 2009. pp. 115, 116, 118 e 119)
No dia 20 de setembro de 1922, em discurso pronunciado na cidade de UdineMussolini declarou:
Queremos retirar do Estado todos os seus poderes econômicos. Basta de ferroviários estatais, carteiros estatais, seguradores estatais. Basta deste Estado mantido à custa dos contribuintes e pondo em risco as exauridas finanças do Estado italiano.
No filme Fascismo Inc., o cineasta Chatzistefanou esmiúça a também estreita colaboração de industriais e banqueiros com os nazistas para perseguir e destruir o sindicalismo e os socialistas, a quem chamavam de “terroristas”. Detalhe: Hitler extinguiu o Partido Comunista alemão um dia depois de tomar posse.

Teóricos neoliberais justificaram e legitimaram o Nazifascismo

Os liberais do início do século XX e os liberais neoclássicos, que deram origem ao Neoliberalismo, defendiam o Fascismo e sua variante nazista como necessários para manter a ordem capitalista.
Declaração de Friedrich Hayek:
Hitler não precisou destruir a Democracia; limitou-se a tirar proveito da sua decadência e conseguiu o apoio de muitos que consideravam-no o único homem bastante forte para pôr as coisas em marcha.” (HAYEK, Friedrich. O caminho da servidão. 5. ed. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1990. p. 90)

Ludwig von Mises atuou como conselheiro econômico do governo fascista de Engelbert Dollfuss na Áustria. Em seu livro “Liberalismo — Segundo a tradição clássica”, ele reitera que o Fascismo foi um movimento político que teve como um de seus principais objetivos o combate ao Bolchevismo.
Nesta obra, Mises também não hesitou em legitimar, elogiar e, até mesmo, enaltecer o Fascismo:
“Não se pode negar que o Fascismo e movimentos semelhantes, visando ao estabelecimento de ditaduras, estejam cheios das melhores intenções e que sua intervenção, até o momento, salvou a civilização europeia. O mérito que, por isso, o Fascismo obteve para si estará inscrito na História. Porém, embora sua política tenha propiciado salvação momentânea, não é do tipo que possa prometer sucesso continuado. O Fascismo constitui um expediente de emergência.” (VON MISES, Ludwig. Liberalismo – Segundo a Tradição Clássica / Ludwig von Mises. — São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010. pp. 75 e 76)

A origem totalitária do Neoliberalismo

Antes de Augusto Pinochet liderar o golpe militar chileno que destituiu, Salvador Allende — com aprovação da burguesia e apoio financeiro dos Estados Unidos —, surgiu em alguns setores ligados à política externa dos EUA e da Grã-Bretanha um movimento cuja intenção era encaixar os governos desenvolvimentistas do Terceiro Mundo na lógica binária da Guerra Fria. Para os falcões, o nacionalismo seria o primeiro passo rumo ao totalitarismo comunista. Portanto, erradicar o desenvolvimentismo no Cone Sul tornara-se uma meta. Agências estavam engajadas em combater o desenvolvimentismo e o Marxismo no plano intelectual, bem como suas influências sobre a economia latino-americana. No que tange ao Chile, o plano consistia em financiar estudantes chilenos para aprender economia na mais reconhecidamente anticomunista escola do mundo — a Universidade de Chicago — de forma a combater economistas “vermelhos” como Raúl Prebisch. Naquela universidade, predominava Milton Friedman, um dos expoentes da Escola Monetarista e ferrenho defensor da liberdade irrestrita de mercado e do laissez-faire. Os Chicago Boys se tornaram verdadeiros embaixadores de ideias econômicas que na América Latina ficaram conhecidas como “Neoliberalismo”. Muitos deles aderiram ao movimento fascista chileno Pátria e Liberdade. Às vésperas do golpe, elaboraram um programa econômico que nortearia as ações da junta militar, um calhamaço conhecido como “O Tijolo”. O teor desse documento era muito similar ao livro de Friedman “Capitalismo e Liberdade” e propunha, dentre outras coisas, privatizações, desregulamentação e cortes nos gastos sociais, a clássica tríade do livre mercado.
Em princípio, as ideias dos Chicago Boys não encontraram campo fértil no Chile. Só depois do golpe de Estado foi possível pôr em prática suas ideias.
No 11 de setembro de 1973, a caserna deu as mãos à austeridade econômica para dar origem a uma das mais violentas ditaduras da História, que também contou com a assessoria e apoio aberto de Friedrich Hayek.
Assim, a primeira experiência neoliberal não se deu na Inglaterra de Thatcher ou nos Estados Unidos de Reagan. Nasceu, isso sim, gêmea de um sangrento regime militar. Em 1977, de quebra, Pinochet ainda entregou o Ministério das Finanças ao Chicago Boy Sérgio de Castro.

Considerações finais

A essa altura do texto já fica fácil compreender por quê:
  • o primeiro bloco de privatizações aconteceu na primeira nação fascista que o mundo conheceu, a Itália, nos anos 1920 (a publicação inglesa The Economist cunhou o termo “privatização” para denominar a política econômica fascista);
  • o segundo bloco de privatizações em massa (que inclusive superou a italiana fascista) ocorreu na segunda, a Alemanha nazista, nos anos 1930; e
  • após nascerem em berço fascista durante os anos que antecederam a 2ª Guerra Mundial, as privatizações voltaram a aparecer nos anos 1970, no governo fascista do ditador chileno Augusto Pinochet.
Não pretendemos colocar um sinal de igualdade entre Liberalismo e Fascismo. Porém, o Liberalismo não se constituiu em um entrave ao Fascismo, ele inclusive forneceu as justificativas ideológicas para sua expansão europeia — e mais tarde sul-americana.
A História comprova-nos que Fascismo e Liberalismo podem atuar em consonância, fundamentalmente no propósito do combate a seus maiores inimigos comuns: social-democratas, socialistas, comunistas, bolcheviques, marxistas… Isto é, todos aqueles que tinham uma visão crítica do capitalismo, propondo sua superação ou mesmo propondo políticas reformistas.
Fontes:
• UFCG – Bio de Vilfredo Pareto
• PARESCHI, Lorenzo; TOSCANI, Giuseppe  – Interacting Multiagent Systems: Kinetic Equations and Monte Carlo Methods
• EATWELL, Roger; WRIGHT, Antony – Contemporary Political Ideologies. London: Continuum. (páginas 38–39).
• AMOROSO, Luigi (janeiro de 1938). “Vilfredo Pareto”. Econometrica.

• UFSC – AUTORITARISMO E CHOQUE
• Jacobin – Capitalism and Nazism
• USP – A formulação do pensamento neoliberal na América Latina em perspectiva comparada: o pensamento econômico de Eugênio Gudin (Brasil), Martinez de Hoz (Argentina) e Sergio de Castro (Chile) (PDF)
• Cambridge Journal of Economics – 
The first privatisation: selling SOEs and privatising public monopolies in Fascist Italy (1922–1925)
• BARBIERI, Giovanni. Pareto e il fascismo.
• BORKENAU, Franz. Pareto. Nova Iorque: John Wiley & Sons, 1936.
• SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do Fascismo. Rio de Janeiro: Agir, 2009.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Elite, classe média e mentiras


19 de Novembro de 2018, 0h03
Texto original:

Texto editado / NMM:

Entrevista com o sociólogo Jessé Souza

O sociólogo Jessé Souza escreveu livros como A Ralé Brasileira (2009), A Tolice da Inteligência Brasileira (2015), A Radiografia do Golpe (2016) e A Elite do Atraso(2017). Está lançando A Classe Média no Espelho (novembro de 2018). A entrevista capta suas reflexões sobre o momento brasileiro.

Em tempos de pós-verdade, fake news e “disputa de narrativas”, qual foi o peso da confusão entre verdade e mentira na ascensão de Bolsonaro?
A elite econômica expropria a maior parte da população a partir de uma mentira, uma visão distorcida da sociedade. É como dizer: o mundo é assim, ponto. E uma das mentiras é “querer é poder”: se você fracassa, a culpa é só sua – e não de um sistema injusto e explorador. Se você não compreende as causas de sua miséria econômica no capitalismo, você está condenado a atribuir seu fracasso pessoal a você mesmo ou, como foi feito, a políticos corruptos.
A única forma de combater a mentira social é com a prática da verdade, a arma dos frágeis. E as pessoas são historicamente acostumadas a ouvir a mentira, pois a verdade muitas vezes pode ser bastante incômoda.
Como a ideia de que o presidente eleito é antissistema e anticorrupção acabou vingando?
Desde que o Brasil é Brasil, e principalmente a partir de 2013, a elite econômica conseguiu consolidar a ideia de que o empobrecimento da população teria sido causado apenas pela corrupção política, o que é uma mentira.
A imprensa e a Lava Jato criminalizaram a Petrobras, deixando-a pronta para vendê-la a preço de banana. A Lava a Jato prendeu meia dúzia e deixou invisível o saque real trilionário de uma elite proprietária e uma alta classe média. O foco na corrupção política invisibilizou os juros extorsivos embutidos nos preços, a estarrecedora exploração do rentismo e a corrupção legalizada dos donos do mercado. A boca de fumo da corrupção está no Banco Central, que assalta legalizadamente a população. Mas as classes exploradas economicamente acreditaram na balela: ficamos mais pobres por conta do roubo de políticos. É óbvio que a corrupção política é recriminável, mas não foi ela que deixou a população mais pobre. Esta é a grande questão que ficou fora do quadro. E era o que importava nas eleições.
A esquerda foi singularmente incapaz e burra nessas eleições. Tanto Haddad quanto Ciro Gomes elogiaram a Lava Jato, o bode expiatório da corrupção política. Dentro da própria esquerda, ninguém problematizou o rentismo, ninguém questionou: nós todos pagamos juros que vão para o bolso de quem? Esse assalto econômico não é visto como corrupção. O principal dispositivo do poder é se tornar invisível. E o poder econômico é ainda mais invisível.
Qual é a sua definição de classe média?
Classe social não é definida pela renda. Renda é um resultado, considerando a vida adulta. O privilégio da elite econômica é econômico, a propriedade. O privilégio da classe média, que corresponde a 20% da população brasileira, é principalmente o acesso a capital cultural. Isso explica, por exemplo, a raiva de parte da classe média ao ver pobre entrando na universidade, que era seu “bunker” que garantiria salários melhores, mas também reconhecimento e prestígio.

Você diferencia “alta” (equivalente aos segmentos superiores da classe A) e “massa” da classe média (as chamadas classes A e B). Seguindo esse paralelo, onde estaria a dita classe C?
[A classe C] foi uma bobagem da propaganda do PT. No Brasil, temos quatro grandes classes: uma ínfima elite econômica proprietária, uma classe média de 20%, uma classe trabalhadora majoritariamente precária e uma classe marginalizada que está fora do mercado competitivo. O PT ajudou os marginalizados subirem à classe dos trabalhadores, o que é histórico e extremamente importante. Por miopia política, isso foi interpretado por marketing malfeito como “chegar à classe média”, o que também é uma mentira. E é preciso saber a verdade: seria preciso montar um projeto político de longo prazo e dizer “um dia” vamos chegar a uma sociedade de classe média real. Dizer que renda média é classe média é uma idiotice. Renda média de um país pobre equivale à renda da classe trabalhadora, que é precária.
Se há uma vocação vira-lata da alta classe média, “que considera melhor tudo o que vem de fora”, segundo sua expressão no livro, os alertas de diversos veículos da imprensa internacional, como The Economist, The New York Times e Le Monde, não deveriam ter pesado nas eleições?
Classe não é definida por critérios econômicos. A classe média nasce com o capitalismo e começa a ficar realmente importante com o capitalismo industrial. E se cria uma alta classe média, que representa interesses da elite: o CEO de um banco, por exemplo, não é um banqueiro. O primeiro é alta classe média, o segundo é elite.
Mas o CEO tem a ilusão de se considerar parte da elite e, portanto, defende interesses de seus patrões. E assim molda uma distinção diante das outras classes, a partir do alto consumo de bens importados, por exemplo. Ele quer se sentir um pouco europeu, um pouco americano, dentro de seu próprio país. Só que a alta classe média é muito conservadora e faz qualquer negócio para manter seus privilégios. Ela não tem sensibilidade em relação ao restante da sociedade, portando-se como uma elite estranha ao próprio país.
Há ainda divisões dentro da alta classe média: uma fração que se importa com um mercado interno pujante; e uma fração predominante do agronegócio e mercado financeiro, voltada para o mercado externo, que fica rica independentemente se o país vai bem ou vai mal. Temos, afinal, uma elite de herança escravocrata que pensa a curto prazo: quero o meu agora, não me importa projeto de futuro. Isso amesquinha o país como um todo.
Antes era o escravo; agora a maior parte da população brasileira faz trabalho semiqualificado ou desqualificado. E é excluída das benesses do mundo moderno. O que antes era ódio ao escravo, agora é ódio ao pobre. E parte da classe média tem muito medo de descer à condição de pobre. Afinal, classe não é só um cálculo econômico, mas um cálculo moral de distinção social.
No livro, você projetou que muitos se voltariam “ao voto de protesto desesperado e irracional” de apoio a Bolsonaro. Passadas as eleições, pensa a vitória como “voto de protesto”? Ou de uma busca genuína por mudança?
O que está acontecendo hoje faz parte de um processo de luta de classes desde 1930. A elite montou o domínio simbólico, moldando a visão de mundo da classe média. Para a alta classe média, esse discurso é racional e pautado pelo interesse econômico: estou ganhando mais. Mas, para a massa da classe média, é irracional: para pensar que está ganhando algo, uma recompensa moral, a massa da classe média protestou e se portou como “ah, sou moralmente superior do que as classes populares, estou escandalizada porque combato a corrupção política”. Foi explorada.
Mas a ideia de que o empobrecimento ou o risco de empobrecimento estaria ligado organicamente à corrupção…
Corrupção política. Desculpe interromper, mas veja que, sem querer, você equalizou corrupção e corrupção política.
Sim, corrupção política. Você diria que a construção desse discurso escapou ao controle de quem o construiu – parte da imprensa, como indica no livro? Se a população brasileira fosse tão “manipulável”, como compreender críticas tresloucadas e o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”, capturado por militantes de direita a partir de 2013?
Nossa imprensa é venal, desde o início comprada pelo mercado. Nunca tivemos uma imprensa confrontando o poder de forma plural.
A imprensa atacou o governo, pois a presidenta, um pouco estabanadamente, atacou o juro, o lucro dessa elite, a partir de 2012. Isso foi usado contra o governo eleito e que era tudo menos corrupto – a presidenta não roubou um lápis que seja. Mas o ataque midiático se voltou a todos os consensos morais de uma democracia: não se pode expurgar a presunção de inocência, banalizar vazamentos ilegais, banalizar desrespeito de direitos fundamentais. Isso é a base de uma democracia.
A imprensa ajudou a fazer terra arrasada disso e, depois, veio a eleição de Bolsonaro como uma espécie de vingança das classes médias e parte das classes populares contra esse estado retratado como corrupto. Se você ataca a democracia como um todo, obviamente você ataca a liberdade de expressão. Tecnicamente, a imprensa toda foi muito burra. Entenda-se: burrice é pensar a curto prazo, seja para o bem seja para o mal; inteligência é pensar a longo prazo, seja para o bem seja para o mal. Ela pisoteou a democracia, e agora vai ter uma vida muito difícil. Parte da imprensa e setores da alta classe média deram um tiro no pé. Se isso terminará num banho de sangue, numa tribalização da sociedade ou numa tomada de consciência, ninguém sabe dizer. Mas que será problemático, será.
Nos últimos tempos, o caráter fascista ou não das ideias representadas por Bolsonaro foi muito discutido. Você teme que a expressão “fascismo” se desgaste tal qual “populismo”?
Não. O principal mecanismo do fascismo é a desumanização, o não reconhecimento do outro. Obviamente há elementos fascistas nas ideias do presidente eleito: apologia da tortura, assassinato de adversário político etc. Historicamente foi assim: o fascismo pega a raiva e o ressentimento da classe média e do povo e joga num bode expiatório socialmente aceitável. Logo, estamos num contexto de neofascismo, junto a uma dominação do capitalismo financeiro: na economia, invisibiliza, deixa opacos elementos econômicos; na política, provoca desmobilização popular.
Nos Estados Unidos de Donald Trump e no Brasil de Bolsonaro, o capitalismo financeiro quebra e destrói relações sociais e vida associativa, provocando desorientação e isolamento do indivíduo. E, novamente, é dito a ele que o fracasso é culpa dele – e não de um sistema injusto. É uma estrutura fascista, e que vive do mesmo tipo de desrespeito e desumanização que fazia o fascismo anterior. Que quer dizer que o outro, por pensar diferente, merece morrer. E a classe média, que sempre odiou o pobre, agora está se sentindo mais à vontade para expressar, explicitar esse ódio. No fim, o ódio é exatamente o que o fascismo produz.
Você usou muito a palavra “golpe” para tratar do impeachment de Dilma Rousseff. Pensa que a palavra foi desgastada?
Não. Foi um golpe de novo tipo, articulado por uma situação econômica. A causa de tudo foi a tentativa de se apropriar do orçamento público e do mercado interno via juros. Foi um golpe parlamentar, mas qual é a independência que esse parlamento tem? Um parlamento de baixíssimo nível, eleito com dinheiro de bancos e grandes corporações. A presidenta tinha feito um enorme esforço para diminuir os juros e usado os bancos públicos para isso. De uma hora para outra, empresas deixaram de investir, e a imprensa inteira passou a atacá-la.
Mas, veja, a elite se apropria do que é público mediante parcerias público-privadas. Entretanto, foi ensinada a imbecilidade de que o Brasil é corrupto por causa da herança de Portugal, uma mentira legitimada com prestígio científico nas universidades.
Dias antes do segundo turno, universidades se tornaram alvo de diversas ações de fiscalização. Dias depois do segundo turno, investidas do Escola Sem Partido avançaram com denúncias contra docentes “doutrinadores”. Ainda há pensamento crítico e resistência nesses espaços?
Como você mantém uma população inteira precarizada? Você pega a escola. O privilégio positivo específico da classe média é este: estímulo para estudo. Você é aparelhado psicológica e moralmente: espera bons salários e prestígio. O pobre já é tratado como um perdedor, num abandono secular e cumulativo. Depois, você vê a classe média culpando a classe pobre, dizendo que ela é preguiçosa e indolente – e que o mérito do seu sucesso é só seu. Assim, a sociedade brasileira sacramentou dois caminhos: um, da felicidade; outro, do fracasso.
Quais são os dois pilares do desenvolvimento de um país? Indústria e educação. Só que a educação está toda montada dentro de um contexto elitista. É Paulo Freire, pensamento crítico e educação libertadora para a classe média; e trevas para a classe trabalhadora: duas educações, duas classes, dois tipos de indivíduo.
Você declarou, certa vez, que o “que provoca efetiva dor de cotovelo nos meus detratores é o fato de ter conseguido expor questões complexas de modo simples”. Para quem você escreve?
Não quero falar para seis pessoas. Nenhum povo pode ser senhor do seu próprio destino sem conhecimento. E conhecimento deve ser compreensível.
Não é por falta de conhecimento prévio e formação acadêmica que a pessoa não vai entender o livro. É por falta de coragem: aprender é um ato de coragem. A ciência pode ser libertadora; o conhecimento, empoderador. Imagina se o povo brasileiro compreende que está sendo enganado?
No campo da linguagem, destacaram-se autores de direita como Olavo de Carvalho, tido inclusive como intelectual vencedor dessa eleição. Como ele conseguiu arregimentar tantos adeptos?
A sociedade brasileira está em uma esquina. Algumas pessoas estão começando a compreender o tamanho da fera que está a um metro de nós. E, agora, ou a gente reformula esse comportamento, ou nós todos, como país, vamos perder. Esta questão está muito presente agora. Principalmente entre a esquerda colonizada por uma linguagem que só beneficiou a direita.
Você chegou a ser chamado de ‘Olavo de Carvalho da esquerda’. O que pensa da comparação?
Elite do atraso teve muita repercussão. Retornos de pessoas simples me comoveram muito. Efetivamente, penso que pude fazer, pela primeira vez, uma interpretação crítica da sociedade brasileira de fio a pavio. [O que propus no livro] compromete toda uma tradição de pensamento, de direita e de esquerda. O núcleo dessa tradição, esse liberalismo chique, aceita a ideia de corrupção política. O novo livro, A classe média no espelho, é uma continuidade. Trago uma visão mais sofisticada e crítica do que a tradição intelectual brasileira. Estudei todas as classes anos a fio, dediquei uma vida inteira a isso. Logo, interpreto esse tipo de interpelação como inveja.
Por fim, professor, como você se vê diante do espelho?
No fundo, minha atividade é intelectual. E o intelectual, para criticar e inclusive para se autocriticar, precisa conhecer. Eu também achava que meu público se limitava a uma dezena de pessoas que poderia compreender o que eu estava dizendo. É isso, afinal, que as classes procuram: se distinguir uns dos outros. Isso move o ser humano tanto quanto dinheiro.
E me questionei: numa sociedade perversa como a nossa, que peso a massa da classe média tem sobre a pobreza dos pobres?
Foi uma epifania quando compreendi que alguns, pensando que estavam à esquerda, estavam montando de uma forma ideológica o poder de meia dúzia de proprietários. A partir da crítica da minha própria posição, tentei a começar uma autocrítica e uma crítica da própria sociedade que tinha me marcado essa visão de mundo.