sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Mentiras, burrice e retrocesso

Neoliberalismo, distopias e Bolsonaro presidente
09 Novembro 2018

Texto original:

“A função do Direito é procurar a Verdade.” “Escrever é procurar a Verdade.”
O autor dessas frases é o criador deste blog – não por acaso chamado Satyagraha, termo sânscrito que significa “apreço pela verdade”. Mesmo naqueles remotos tempos da juventude, entretanto, ele tinha consciência de que tratava-se de pensamentos mais idealistas do que realistas. Certamente, num mundo ideaI, um mundo platônico, a Justiça e a escrita estarão a serviço da Verdade; mas os fatos, no mundo e no Brasil, mostram que ambas têm trabalhado contra a Verdade, contra o povo, a serviço do poder econômico.
Mas o blogueiro bissexto é apenas um “escriba eternamente aprendiz e filósofo amador” – como se definiu quando lhe pediram um perfil sintético. Portanto, é interessante quando constata que o discurso que vem há anos fazendo no deserto das redes sociais, na contramão da doutrinação midiática, é resumido no texto de professora calçada em títulos acadêmicos e amparada por pensadores de diversas disciplinas.
A seguir, o artigo editado de Leda Paulani.
Nelson M. Mendes


Leda Paulani é formada em Economia pela FEA-USP e em Comunicação Social pela ECA-USP. Possui Doutorado em Teoria Econômica pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo - IPE/USP (1992). É livre-docente junto ao Departamento de Economia da FEA-USP (2004). É professora do Departamento de Economia e da Pós-graduação em Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo - FEA/USP desde 1988 e professora titular na mesma unidade desde 2007.
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A eleição de Jair Bolsonaro para a presidência da república do Brasil deixa o mundo estarrecido. Mesmo para um nome da extrema-direita, como a francesa Marie Le Pen, ele causa repulsa: “suas declarações são inaceitáveis”, ela diz. Só Trump parece relevar tudo isso e louva, pelo Twitter, a conversa alvissareira que teve, em 30 de outubro, com o presidente eleito.

Cabe uma reflexão profunda para que se possa identificar as causas desse terremoto anticivilizatório, que será discutido e estudado por décadas a fio.

Um fenômeno dessa magnitude não pode ser explicado mobilizando-se apenas variáveis relativas às questões sociais e políticas internas ao país. Além disso, o mundo é hoje cada vez mais integrado, seja por conta da forma que foi tomando o processo de acumulação de capital desde o início dos anos 1980, seja pelo desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação. Nosso primeiro olhar vai, portanto, para o cenário externo.

Depois de mais de três décadas de ascensão das políticas neoliberais mundo afora, o neoliberalismo parece ter chegado num ponto de saturação e sem ter entregue aquilo que prometera. No início dos anos 1980, alegavam que a estrutura institucional do pós-segunda guerra mundial – com controles, regras – era deletéria para o desenvolvimento, e que a liberalização financeira traria melhores tempos para todos os países, potenciando o crescimento. O mesmo se dizia da generalização da abertura comercial.

Mas o resultado foi o aumento da desigualdade, o crescimento muito lento e o desemprego. Tudo piorou com a crise financeira internacional de 2008-09. O voto antissistema é uma consequência imediata dessa situação. É por aí que devem ser explicados Trump, o Brexit britânico e a ascensão de partidos e políticos de extrema direita em todo o planeta, e agora também no Brasil – que já estava nesse caminho desde o injustificável impeachment da presidenta Dilma em 2016 e o início do governo Temer).

Por que o sentimento antissistema parece antes contribuir para o aprofundamento do modelo que é o responsável pela situação ruim? Por quê?

A resposta a essa pergunta passa por filósofos, pesquisadores de costumes, antropólogos urbanos, sociólogos. Na quadra histórica que se inicia ao final dos anos 1970, não foram apenas as máximas e as políticas neoliberais que ganharam proeminência: a vitória ideológica foi também retumbante.

A insistente pregação neoliberalthere is no alternative, foi instituindo, no ideário sobretudo daqueles mais negativamente afetados pela ascensão das políticas neoliberais, os valores da concorrência, do cada um por si, do self made man, do mérito próprio. A cooperação, a solidariedade, a importância do coletivo foram atirados nos desvãos da história junto com o muro de Berlim. Como lembra Nancy Fraser, mesmo as chamadas pautas identitárias (mulheres, LGBTQs, minorias raciais) foram inteiramente capturadas pelo espírito the winner takes all. Não é de espantar que a reação às mazelas do mundo neoliberal, aprofundadas pela crise de 2008-2009, se virem “contra” o sistema na direção errada e acabem por fortalecê-lo, arrastando para os mesmos desvãos da história a própria democracia.

No caso da vitória de Bolsonaro somaram-se alguns elementos domésticos. Entre 2003 e meados de 2016 o Brasil foi governado pelo PT. A economia brasileira, apesar de continuar submetida a uma política econômica neoliberal, conseguiu resultados positivos impulsionados pela boa fase da economia mundial pré-crise e pelo efeito multiplicador dos massivos programas de renda compensatória, associados à elevação do valor real do salário mínimo. Esses governos também brecaram as privatizações e, a partir de 2006, deram forte impulso aos investimentos públicos. No mesmo sentido, a política externa “ativa e altiva” do país ao longo desse período recusou a ALCA, fortaleceu os BRICS e o Mercosul e retirou o país do costumeiro alinhamento direto com os interesses dos países centrais, EUA em destaque.

Apesar do sucesso, sem que os interesses dos muito ricos tivessem sido afetados, as elites do país nunca aceitaram o PT e sua maior liderança, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O sentimento de “perda” de poder foi magnificado por conta das políticas públicas dos governos do PT, que colocaram os mais pobres em espaços antes exclusivos das elites: os aeroportos, as universidades, os shoppings mais chiques.

Assim, desde pelo menos 2005, iniciou-se, com a inestimável colaboração da grande mídia, uma implacável campanha de difamação e demonização do Partido dos Trabalhadores e de suas principais lideranças. O sistema judiciário do país foi empreendendo uma “operação de limpeza” seletiva, que passou a “julgar” e punir apenas os políticos e partidos de esquerda, sobretudo do PT, enquanto os demais políticos e partidos continuavam a ser tratados com a habitual camaradagem. É nesse sentido que se devem entender o “Mensalão”, o infundado impeachment da presidenta Dilma, a operação Lava-Jato, a juridicamente insustentável prisão de Lula, e seu impedimento de concorrer às eleições – sendo o candidato com quase o dobro das intenções de voto de Bolsonaro no início do processo eleitoral (e isto mesmo com a determinação, duas vezes enviada ao governo brasileiro pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU, de que se garantisse a Lula o exercício de todos os seus direitos políticos).

Nas últimas semanas do segundo turno, um dos argumentos que mais se ouvia era que o PT era o partido mais corrupto do país. Mesmo argumentando que o PT, por qualquer critério que se escolha (políticos cassados, processados etc.) está sempre em 9º ou 10º lugar, aparecendo na frente dele a maior parte dos partidos de direita e aqueles que estão hoje no comando do país, sob o governo Temer, os eleitores continuavam desconfiados, preferindo continuar a crer na imagem do partido em que foram sendo doutrinados a acreditar por mais de uma década.

A crise econômica internacional, que atinge o Brasil a partir de 2011, ajudou a engrossar as críticas ao PT e a seus governos. Os movimentos de maio de 2013 foram rapidamente capturados pela direita, com o auxílio sempre determinante da grande mídia. A quarta vitória consecutiva do PT nas eleições presidenciais de 2014, que ainda assim acontece, detonou a operação conjugada do judiciário, grande mídia, empresariado e partidos de direita para usurpar o poder delegado a Dilma Rousseff pelo voto de mais de 54 milhões de brasileiros e pôr em marcha uma agenda fortemente neoliberal, que havia sido rechaçada nas urnas (privatizações, entrega do patrimônio natural do país, cortes nos direitos dos trabalhadores).

Os interesses do grande capital internacional também tiveram papel determinante. É hoje de conhecimento público o fato de magistrados brasileiros, como Sérgio Moro, terem sido treinados nos Estados Unidos  com os instrumentos do chamado lawfare. Uma das primeiras medidas de Temer foi a alteração de algumas regras do regime de exploração do pré-sal, buscando dar maior espaço para as grandes petroleiras mundiais.

Finalmente não se pode deixar de mencionar a relação despolitizada da população beneficiada pelas políticas implantadas pelos governos do PT com essas mesmas políticas e programas, por culpa do próprio partido. Combinada com a irrefreável ascensão das igrejas pentecostais e sua teologia da prosperidade, essa despolitização foi decisiva para a aceitação totalmente acrítica do tsunami de fake news advindo da campanha de Bolsonaro contra o candidato do PT no segundo turno,  propagadas por milhares de robôs, cujos links apresentavam como local de origem os EUA.

A dez dias da realização do segundo turno, a divulgação pela imprensa do financiamento desse ataque digital por dinheiro de caixa 2 proveniente de empresas, o que é crime eleitoral, deu alguma esperança de que o fascismo seria derrotado, mas esse desfecho feliz não aconteceu. O juiz Sergio Moro, que disse que a corrupção destinada a caixa 2 de campanha eleitoral é ainda mais perniciosa do que a corrupção destinada ao enriquecimento pessoal porque constitui um ataque direto à democracia, acaba de aceitar o convite de Bolsonaro para ser o seu ministro da justiça. Não é preciso dizer mais.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Lulismo X Bolsonarismo


Do falso bem-estar social lulista ao individualismo predatório bolsonarista.

Entrevista especial com Ricardo Cavalcanti-Schiel

Por: Patricia Facchin | 06 Novembro 2018




No texto anterior do blog – “A luz, a sombra e o Brasil” – eu faço uma reflexão filosófica sobre a conjuntura brasileira, a respeito da qual tinha feito, no texto “As origens do nazismo tropical”, reflexões sociopolíticas mais rascantes. Minha ideia, no último ensaio, era a de que nada é exatamente o “fim do mundo”, e de que nada é exatamente o começo de uma “nova era”. Pois eis que encontro entrevista de Ricardo Cavalcanti-Schiel, cientista social, mestre e doutor em Antropologia, em que ele defende que há mais semelhanças entre a governança petista e o bolsonarismo do que supõe nosso vão reducionismo. Vale muito a pena ler a entrevista, que eu apresento editada, para facilitar a sua digestão.

NMM




Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual sua avaliação do resultado das eleições presidenciais deste ano?

Ricardo Cavalcanti-Schiel -  No geral, o presidencialismo de coalizão  deve continuar, a troca conspícua e venal de favores continua garantida, e a monarquia judicial conservadora ainda está longe de estar sob ameaça. Muda-se apenas um certo tom do estilo de governança. Estou falando de um regime de persistente acanhamento da cidadania. Para a grande maioria da população brasileira, em termos de direitos, já de antes de 1988 para hoje as mudanças foram notavelmente circunscritas.

Gestão petista

A narrativa de que os governos federais do PT possam ter representado um interlúdio nesse cenário de acanhamento persistente da cidadania é fantasiosa. A experiência petista de governança apenas deu uma tintura superficial aos fenômenos conformados pela velha e sempiterna lógica do privilégio.

Todo o período dos governos petistas foi marcado pelo desinvestimento simbólico do espaço público e pelo ideal de saída dele pelos cidadãos: fazer um plano de saúde privado, colocar os filhos numa escola particular, conseguir um financiamento para o diploma universitário, ganhar uma quota universitária, comprar um carro para poluir mais o mundo, inflar a bolha imobiliária em um espaço urbano vandalizado, ao invés de irem a parques, bibliotecas, espaços de convivência coletiva, lúdica e cultural... etc etc.

 

Bolsonarismo

Os valores do bolsonarismo são apenas o paroxismo disso tudo. A vitória de Bolsonaro é tanto filha imediata das redes digitais quanto filha mediata da maximização do individualismo liberal, que o lulismo promoveu obsessivamente.

O que muda agora com o bolsonarismo é a intenção deliberada de promover o Estado do mal-estar social, em nome do individualismo predatório.

bolsonarismo  já existia antes, com José Serra e outros cardeais do PSDB. Ele é a conjunção do velho autoritarismo senhorial com o moralismo tacanho do patriarcado, com os delírios selvagens dos libertarians do MBL, com a teologia da prosperidade das seitas pentecostais, e com a subserviência geopolítica aos velhos patrões do norte. A eleição de Bolsonaro insinua uma mudança de grau, mas não de natureza, no quadro geral das relações sociais no Brasil.

IHU On-Line - Bolsonaro disse que “vai buscar, seguindo o exemplo do patrono do Exército brasileiro, Duque de Caxias, pacificar o nosso Brasil (...)”. Como avalia esse tipo de declaração e a referência a Duque de Caxias?

Ricardo Cavalcanti-Schiel -  Bolsonaro não funciona sem muletas semióticas que operam como ícones sumariamente mi(s)tificados. Bolsonaro  habita o mundo das farsas, que têm com os mitos uma relação parasitária.

O primarismo do Bolsonaro aqui é o de querer decalcar, para a sociedade civil, o clichê militar (e farsante) de Caxias como “o pacificador". Duque de Caxias  impôs a ordem imperial a ferro e fogo. Assim, “pacificação” no sentido de Bolsonaro significa negação do conflito, tutela.

As instituições militares brasileiras, ao se considerarem a salvaguarda da “soberania nacional”, se creem dotadas da prerrogativa, se necessário, da tutela dessa mesma sociedade. Só que essa tutela significa a pura e simples subserviência, única linguagem que, no fim das contas, um autoritário fala e entende. Essa é a linguagem de Bolsonaro.

Quando alguém do meio militar fizer uma evocação capital e sincera a Rondon, e não a Caxias, pode-se suspeitar que se trata de alguém interessado no povo brasileiro, e não na sua tutela.

IHU On-Line - Em artigo recente o senhor afirmou que o “projeto de Bolsonaro, no fim das contas, curiosamente, é mais universalista que o do PT”. Quais são as características que indicam esse caráter universalista do projeto ou do discurso de Bolsonaro?

Ricardo Cavalcanti-Schiel - O universalismo de Bolsonaro é o de uma nação abstrata regida por critério que Crawford Brough Macpherson chamou de “individualismo possessivo”, e que produz o que também Macpherson chamou de “sociedade possessiva de mercado”. É  um universalismo que volta lá para trás, para então regurgitar o neoliberalismo hardcore.

O poder de agregação dos discursos universalistas é sempre maior que a agenda particularista das políticas de identidades. A eleição de Trump deveria ser vista como uma boa lição. A potência do lema “Make America Great Again” não está tanto no “great, está no “America”, naquilo que abarca a todos como communitas. Sem ela, nada (nessa perspectiva) mereceria ser “great”.

O próprio PT só se mostrou viável politicamente, lá nos anos 80, quando abandonou seu antigo lema “trabalhador vota em trabalhador” (uma espécie de particularismo classista), para começar então a falar dos problemas do Brasil.

IHU On-Line - O que significa dizer que o projeto de Bolsonaro é universalista, mas não é cidadão; como o senhor o classifica?

Ricardo Cavalcanti-Schiel - Não é cidadão porque se fundamenta na velha e ibérica lógica do privilégio. Norberto Bobbio [propõe que,] numa situação em que todos são livres a priori, uns terão a liberdade de se sobrepor aos direitos de outros, e se torna impossível qualquer igualdade, qualquer equanimidade. Já se a igualdade é dada como antecedente, todos podem ser igualmente livres, como consequente. A cidadania e o direito se assentam, por princípio, sobre a ponderação do todo, e não sobre a primazia de alguns.

Como fórmula liberal distributivista (a do John Rawls), mas igualmente “possessivista”, as políticas de identidade também se assentam sobre a primazia de alguns. Não vai ser esse o caminho para equacionar a cidadania.

IHU On-Line - O que deve caracterizar o que o senhor chama de “projeto de regulação social ultraliberal” do governo Bolsonaro?

Ricardo Cavalcanti-Schiel - Vai se caracterizar por  individualismo possessivo, em conjunção com a lógica do privilégio. Em termos práticos, vai se assentar sobre uma considerável devastação dos bens públicos (meio ambiente, reservas naturais, bens da União ― Terras Indígenas, por exemplo ―, Sistema Único de Saúde, empresas estratégicas...) ou, em última instância, do próprio espaço público. O Brasil, com toda certeza, vai sair menor como país depois de Bolsonaro. Menor em termos de complexidade econômica, de capacidade científica, de condições de soberania, de presença como player geopolítico... Tende a virar uma fazendona, sob a chibata de coronéis selvagens... e capatazes ainda mais selvagens. Vai ser um teste de força para a nossa complexidade social. A barbárie bolsonarista é a simplificação reducionista. Dado o grau de autoritarismo das figuras centrais do próximo governo (de Bolsonaro a Moro, de Malafaia a Onyx Lorenzoni), ou a complexidade social acaba com eles ou eles acabam com a complexidade social. Sinceramente, ainda aposto na primeira alternativa. Mas os danos serão tremendos. O governo Bolsonaro não deve se caracterizar pela construção de nada. Assim como o governo Collor, é bem possível que ele entre para a história pela destruição que vai produzir. Para construir é preciso gerir a complexidade. Isso é o antípoda da agenda anunciada pelo bolsonarismo.

IHU On-Line - O que o senhor chama de “componente militar da lógica política do eleito Bolsonaro”?

Ricardo Cavalcanti-Schiel - Muitas pessoas tendem a assumir como “militar” algo que parece uma substância homogênea. É muito comum ouvir até que “os militares” estarão no poder com Bolsonaro.

Os altos comandos das Forças Armadas são constituídos por uma certa variedade de linhagens (éticas, ideológicas, doutrinárias). Bolsonaro pode gozar até de uma grande simpatia entre os militares de “linha-dura”, e essa é só uma das linhagens militares. A assim chamada Abertura Política só foi possível porque Geisel conseguiu afastar o general Sílvio Frota . Exigiu certo trabalho imobilizar a linha-dura. Quatro anos depois eles ainda estavam colocando bombas, as mesmas que inspiraram um aloprado Bolsonaro cinco anos depois do Riocentro.

Bolsonaro pode se sentir extremamente seduzido pelo controle do poder militar. Isso não quer dizer que ele vá ter controle sobre as Forças Armadas como instituição. Seria simplório. As Forças Armadas zelam por ser “uma coisa à parte”, e sabem que não é prudente cometer desatinos, exceto, claro, os da linha-dura, que se caracterizam pela indigência intelectual, pelo simplismo das apostilas ideológicas.

E tudo isso vai depender das relações que o futuro governo vai construir com outras instâncias institucionais, como o STF, por exemplo, que, a meu ver, vai ser o primeiro “inimigo a ser batido” por Bolsonaro,  que já avisou que quer mexer no STF. Um soldado, um cabo e um jipe podem até ser suficientes. Resta saber se os generais vão entregar um soldado, um cabo e um jipe.

IHU On-Line - Em artigo recente o senhor afirmou que o discurso petista nas eleições deste ano caiu no vazio. O que é possível esperar do discurso petista daqui para frente? O pronunciamento de Haddad após o resultado das eleições indica como possivelmente será o discurso petista?

Ricardo Cavalcanti-Schiel - O PT  não tem mais diversidade interna... é muito fácil fazer loas à “diversidade” meramente guetificadora ― que é o discurso neoliberal sobre a diversidade. O PT está ilhado e parece ter adotado como princípio de existência sequer pensar na possibilidade de uma autocrítica. Tenho a impressão de que a população percebe que o PT se enclausurou nas suas verdades e não quer mais falar com ninguém.

Sinceramente, creio que só há possibilidade de pensamento político crítico e criativo, pela esquerda, fora do PT. E digo isso como alguém que militou no PT por bastante tempo, que sofreu sindicância, punições e investigações nas Forças Armadas por ter feito essa opção. Mas nada compensa existencialmente mais que o esforço permanente por manter alguma lucidez.
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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

A luz, a sombra e o Brasil

Nelson M. Mendes

Há quem não se conforme até hoje com o “pecado original” cometido por Adão e Eva, e que resultou em que fossem ambos expulsos do Paraíso. Outros não aceitam o Calvário de Jesus, que Ele próprio encarou com amor e humildade, sabendo que era aquele o plano cósmico. Num dado momento, Ele chegou a dizer: “Ou imaginas tu que Eu, neste momento, não poderia orar ao meu Pai e Ele colocaria à minha disposição mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:53)

Na verdade, é óbvio que Cristo nem precisaria da ajuda de um único anjo para neutralizar todos aqueles soldados romanos; mas mesmo naquele momento de máximo sofrimento Ele quis deixar claro que tudo acontecia por operação de uma Força maior, de que Ele próprio, o humilde homem nascido na Palestina, era apenas um dos canais. E quis deixar claro também que reagir seria fugir à missão que Lhe havia sido assinalada.

Hoje, no Brasil, muitos parecem  acreditar que o “Mal” instalou-se. O presidente eleito, de perfil neonazista, seria a própria encarnação do Demônio. É o advento da Besta. Estamos perdidos, estamos condenados.

Mas será mesmo assim?

Em 1989 Lula foi derrotado por Collor, fantoche forjado pela mídia para obstaculizar quaisquer tendências progressistas. Houve júbilo entre os poderosos e entre aqueles que foram doutrinados a defender os interesses dos poderosos; a Senzala mais uma vez fazia o jogo e o discurso da Casa-Grande.  Mas houve também choro e ranger de dentes entre os que viram ruir ali os sonhos acalentados durante os anos de ditadura e durante o período híbrido representado pelo governo Sarney.

Parecia o fim do mundo. Mas não foi. O próprio Lula declararia, mais tarde, que não estava preparado para assumir o governo naquele momento.

Depois tivemos Itamar, com seu Plano Real (erroneamente atribuído a Fernando Henrique), e tivemos o próprio Fernando Henrique, que destroçaria conquistas brasileiras históricas ao comandar o que o jornalista (de centro direita) Elio Gaspari chamou de “privataria” – mistura de privatização com pirataria.

Também não foi o fim do mundo.

Finalmente, depois de mil promessas de moderação e bom comportamento capitalista, Lula foi eleito.

Havia, agora, um cheiro de “Nova Era” no ar.

E não houve nada disso. É verdade que nem os organismos internacionais negam que os indicadores sociais melhoraram com Lula: milhões de pessoas deixaram de passar fome; falou-se até no advento de uma “nova classe média”.  Houve especialistas norte-americanos, ancorados em seus insustentáveis dogmas neoliberais, entusiasmados com o governo Lula – a prova, segundo eles, de que era possível atender às demandas sociais sem mexer nos pilares do Sistema, sem incomodar essa quimera risível chamada “Mercado”. Até Barack Obama disse que Lula era “o cara”.

Mas a esperada Reforma não aconteceu. A “Nova Era” não se iniciou.

Lula ainda conseguiria promover a eleição e a reeleição de Dilma. Aí a impaciência das elites chegou a tal nível que destruiu a represa institucional: veio o golpe, ridiculamente fantasiado de impeachment, ostentando adereços legalistas bisonhamente falsificados, e o boneco Temer assumiu o poder.

Agora temos, para todos os efeitos, um retrocesso ainda mais hediondo: o eleitor brasileiro escolheu “livremente” o Neonazismo, o despreparo intelectual, a rusticidade emocional, o preconceito, a burrice; tudo, como explicado no texto “As origens do Nazismo tropical”, fruto do medo do “Comunismo” – medo que é, em última instância, filho do egoísmo. (O texto “Manual de autoajuda do Iludido político II” traz uma análise sobre as origens desse pânico “anticomunista”.) O brasileiro tem de assumir, diante dos filhos e netos, diante da História, a quase inacreditável escolha.

Será que agora é, realmente, o fim do mundo?

Krishnamurti lembra que alguém gravou num tijolo, há cinco mil anos, mensagem de que esperava que uma certa guerra fosse a última da história da humanidade; é claro que só podemos sorrir piedosamente da ingenuidade do antigo escriba...

A ideia do advento de uma “Nova Era”, um novo tempo de paz e concórdia, sempre ocorreu ao coração de sonhadores de todas as épocas. Assim como muitas vezes foi a humanidade assombrada pela convicção de que dera-se o advento da Besta, de que o Demônio havia instaurado no mundo o seu reinado.

Quando Paul Brunton conheceu o sábio Ramana Maharshi, fez alguns comentários sobre a aparente negligência de Deus com relação ao aparente primado do Mal no mundo. Ramana deu a entender que Aquele que criara o mundo sabia muito bem como cuidar dele, e que as aparentes dores e injustiças obedeciam a um plano cósmico acima da percepção humana.

Mas, como dissemos, há ainda quem não se conforme nem com o pecado original, nem com o Calvário de Cristo...

O brasileiro escolheu o candidato rude, despreparado, de índole belicosa e perfil neonazista. Que lições advirão dessa escolha, desse pecado nada original?

Neste nosso universo manifestado, tudo é relativo e ilusório. Assim dizem os mestres; assim o confirma nosso coração. O momento mais escuro da noite – reza o adágio – é o que antecede o despontar da aurora. E a própria noite não é necessariamente sinônimo de mal, desespero, angústia: significa também repouso, recolhimento, assimilação. Não há noite sem dia, ying sem yang, sombra sem luz, direita sem esquerda.

O pêndulo da História oscila tanto quanto o coração humano. E quem é de fato capaz de saber o que é sombra e o que é luz?

Luz e sombra, na verdade, conforme metáfora proposta por ninguém menos que Paramahansa Yogananda, partem do projetor com que o Criador apresenta o filme cósmico...

Se o brasileiro escolheu o candidato neonazista, é porque isso estava nos planos cósmicos. As “linhas tortas”, vistas da perspectiva do Absoluto, são certíssimas. E podemos imaginar que estejamos novamente num daqueles momentos de escuridão máxima que antecede a aurora. Ou podemos recorrer a outra metáfora: quanto mais o arco é retesado, quanto mais a flecha é puxada para trás, mais longe ela vai para a frente, na direção do futuro.


Esperemos. Trabalhemos. Meditemos.


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

As origens do nazismo tropical


Nelson M. Mendes
[Logo abaixo deste texto, a crônica sobre o Egito.]

Gritos ensandecidos e um foguetório ridículo anunciavam a vitória do representante da extrema direita.
Onde foi que tudo começou?
Foi com a prisão de Lula?
Foi com o golpe contra Dilma?
Foi com as manifestações populares de 2013?
Talvez tudo tenha começado lá atrás, quando a mídia, braço armado da Plutocracia (“A pena é mais poderosa que a espada.”), trabalhou para destruir Brizola, Lula, e forjar Collor.
Não: tudo começou quando, no fim do ciclo ditatorial inaugurado em 1964, as forças de sempre se articularam para adiar o retorno da “Democracia” e entronizar no Planalto o presidente anódino e inofensivo – Tancredo Neves – , cuja morte continuará levantando tantas suspeitas quanto a do Papa João Paulo I, já que abriu caminho para o vice dos sonhos da Plutocracia, o representante por excelência do continuísmo: José Sarney.
Não: tudo começou mesmo em 1964, quando a Plutocracia (inclusive com ajuda norte-americana) manipulou a mídia (que manipulou o povo) e mobilizou as Forças armadas para dar o golpe.
Não: tudo começou na década de 50, quando a Plutocracia (com ajuda norte-americana) manipulou a mídia, o povo, e acossou Getúlio Vargas, que ousara pensar num projeto nacionalista.
Não: tudo começou com a Guerra Fria, quando os EUA passaram a esmagar o mundo (particularmente a América Latina) com o peso de sua Propaganda.
Não: tudo começou com a revolução cubana.
Não: tudo começou com a revolução chinesa.
Não: tudo começou começou com o “New Deal”, programa com que Roosevelt salvou o Capitalismo de uma crise talvez terminal, mas que lhe custou a acusação de flertar com o “Comunismo”.
Não: tudo começou com a revolução russa.
Ou terá tudo começado com a revolução francesa, que inaugurou a ordem burguesa, que se recusa a admitir seu inevitável fim, como ocorre a todas as coisas?
Um notável professor de História que eu tive costumava analisar os fenômenos segundo suas causas  mediatas e imediatas. Causas mediatas são aquelas remotas, difíceis de distinguir, mas talvez até mais importantes. Causas imediatas são aquelas que podemos facilmente reconhecer, porque estão próximas.
Não é muito difícil encontrar as causas imediatas (aquelas compreendidas no período – digamos – de duas ou três gerações) de um fenômeno à primeira vista incompreensível, como foi a eleição do candidato que corporifica a negação dos interesses populares.
Haddad foi derrubado pelo antipetismo. O antipetismo foi uma construção da mídia. A mídia trabalha contra as causas populares, de modo geral; e é instrumento da propaganda “anticomunista”, difundida de forma avassaladora a partir dos EUA especialmente depois da Segunda Guerra Mundial.
As elites brasileiras, à bordo da mídia, navegaram garbosamente no tsunami “anticomunista” norte-americano. O povo, tradicionalmente desinformado (são milhões os analfabetos funcionais), alarmou-se com o “perigo vermelho” e apressou-se em passar a defender os interesses dos seus opressores.
Então a causa imediata do advento do retrocesso democrático foi esta: o medo; medo do “Comunismo”.
Mas o que significa, de fato, esse medo?
Medo do “Comunismo” significa medo de dividir, medo de perder. As aspas (finalmente explico...) sinalizam que, tecnicamente, historicamente, jamais houve no mundo Comunismo stricto sensu, aquele idealizado por Marx. Segundo Leonardo Boff, no Cristianismo primitivo funcionava algo que, independentemente de conceituações acadêmicas, passei a chamar de “comunismo informal”. Naquela sociedade, compartilhar era o verbo mais praticado.
O medo do “Comunismo”, seja informal, seja oficial, é, pois, o medo de dividir, de compartilhar, de perder.
Foi esse medo, no fundo, o que tornou possível o nazismo tropical.
O nome disso é egoísmo.

sábado, 27 de outubro de 2018

O Egito explícito




Nelson M. Mendes





A foto de abertura mostra um dos raríssimos lagos de água doce no deserto egípcio. Falso: a ilusão é perfeita, podem-se ver até mesmo elementos topográficos refletidos na água; mas trata-se apenas da famosa “miragem do deserto”. O Egito moderno é isso: uma miragem, um projeto por realizar, que se vê contra a solidez inelutável da areia, da rocha, dos templos e pirâmides.
O título é obviamente uma referência ao  livro  “O Egito secreto”, de Paul Brunton. A oposição tem também uma explicação óbvia: o Egito que conheci é o Egito contemporâneo, com seus problemas políticos, econômicos, sociais, com sua pobreza, sua sujeira.
O Egito é marrom, ou bege. Bege da areia, das rochas, mas também das construções que, mesmo feitas com materiais modernos, parecem não conseguir desvencilhar-se da tradição do adobe: casas e prédios são dados por terminados uma vez assentados os tijolos; o concreto e o tijolo permanecem expostos, como se os prédios estivessem ainda em construção. Emboço, reboco e pintura são considerados frivolidades cosméticas: raras construções têm alguma cor.
A areia está em toda parte. Não há, nas cidades (não apenas no Cairo), a tradição de calçadas, stricto-sensu, por onde possam circular os pedestres: o que há (quando há) é uma estreita faixa, de não mais de 70 cm, guarnecida por um meio-fio altíssimo e em geral pintado de preto e branco (para os brasileiros,  algo como um “gelo-baiano” zebrado); essa estreita faixa é mais propriamente um canteiro do que uma calçada: pedaços de papel, plástico e outros materias despontam da areia e cascalho. Não se sabe se a ausência de calçadas é causa ou efeito de um curiosíssimo hábito egípicio: as pessoas caminham calmamente entre os veículos em movimento, muitas vezes com crianças no colo. Há como que um pacto de não agressão entre pedestres e motoristas. Aliás, não há aquela agressividade que se vê no trânsito brasileiro: os motoristas avançam quando têm de avançar, cedem a vez quando têm de ceder, uma espécie de bom-senso prevalece sobre a rigidez das normas e todos se entendem.
A areia se acumula não apenas nessas áreas correspondentes às calçadas, mas ao longo dos meios-fios, já nas faixas de rolamento, como podemos observar em algumas cidades litorâneas brasileiras depois que um vento forte lança nas ruas a areia das praias; a diferença é que, no Egito, a areia é crônica.  Ela se acumula também em áreas mais amplas (por exemplo, algo como praças, ou espaços deixados pelo desenho das vias urbanas), onde podemos ver não apenas aquele quadro de materiais surgindo da areia, mas também rochas, entulho de obra, grandes pedaços de concreto. É como se o Egito estivesse se reconstruindo depois de um terremoto, como se as cidades estivessem sempre em obras. É como se o egípcio tivesse desistido da milenar luta contra o deserto.
Mas a onipresente areia e a ausência de calçadas não foram as coisas que incomodaram. Dentre os aspectos negativos registrados, posso destacar: 1) o assédio dos vendedores, e a obsessão pecuniária generalizada; 2) as complicações teoburocráticas para se tomar uma bebida alcoólica; 3) o clima militarizado, policializado, a obrigação de passar por raios-x e detectores de metal não apenas nos aeroportos, mas para entrar nos hotéis e visitar atrações históricas; 4) uma espécie de hipocrisia cultural, de que dou dois exemplos: a) no barco em que fizemos o cruzeiro pelo Nilo, o cardápio do restaurante trazia alguns drinques – mas no restaurante só uma aguadíssima cerveja local podia ser  servida, talvez por ter um teor alcoólico baixo o bastante pra não ofender Alá; bebidas mais fortes só podiam ser servidas no bar do piso superior – onde os garçons eram todos cristãos, infiéis. b) câmeras fotográficas eram proibidas em muitos lugares, mesmo a minha pequena e e já quase arqueológica câmera digital; mas fazer fotos com telefones celulares, dotados de câmeras muito superiores à minha, era permitido. (Outra coisa que me irritava era a necessidade, em muitos lugares, de comprar um ticket-foto, à parte do ingresso propriamente dito, para ter o direito de fazer fotos: seria muito mais lógico, simples e asséptico, se fose o caso, cobrar um pouco mais pelo ingresso, para que todos tivessem automaticamente o direio de fotografar. Num dos templos, em que apenas Maria Helena pagara pelo direito imagético, eu fui rudemente interpelado por um funcionário, cobrando-me o ticket especial, apenas porque sacara de minha câmera para registrar Maria Helena em pleno ato de fotografar... Eu fiquei com a impressão de que ele estivera à espreita, esperando que eu desse o clique fatal.)
Pode parecer, pela acidez dos meus comentários, que escarneço do Islã, que sou cristão ou até ateu. Mas nada disso é verdade. O que repudio é o fundamentalismo, o dogmatismo, o “bairrismo ideológico”, o reducionismo; esse repúdio aplica-se a muçulmanos, cristãos, budistas, hinduístas, judeus, ateus. (Sim, porque existem não apenas o fundamentalismo e o reducionismo religiosos, mas ateístas, econômicos, políticos, psicanalíticos... Nos anos 60/70, por exemplo, Freud explicava tudo, da acne à exploração espacial, vista como pretexto para a elaboração de foguetes de inspiração fálica.)

Entretanto, se eu não podia deixar de perceber certos dados culturais e peculiaridades comportamentais, o que me interessava era a beleza do Egito: não apenas a beleza dos monumentos em que ficou gravada uma história de que os exegetas contemporâneos conseguem captar apenas a superfície; mas a beleza natural: a partir do navio em que percorremos o Nilo, fiz dezenas de fotos mostrando aspectos das margens do rio, algumas vezes separado do deserto por uma fímbria vegetal de uns poucos metros. Aliás, as viagens de van pelo deserto, em alguns casos, me entusiasmavam mais até do que alguns sítios históricos...



Cabem alguns comentários mais extensos sobre a maneira como me aproximei das atrações turísticas do Egito. Porque eu não era tabula rasa, mas tampouco era um turista carregado de ideias pré-concebidas e possivelmente baseadas em versões hollywoodianas da história egípcia. A minha principal referência era o livro que citei na abertura – “O Egito secreto”, do jornalista, escritor e “filósofo não acadêmico” (como ele próprio se definiu) Paul Brunton. Foi depois de ler esse livro que fiquei convencido de que o buraco da pirâmide é muito mais embaixo do que supõe a nossa vã filosofia.

Havia uma jornalista, inglesa como Brunton, que trabalhava num jornal sob as ordens de um certo Bernard Shaw. Seu nome era Annie Besant. Cética, materialista, inteligente, ativista social, possivelmente até com tendências marxistas, Annie Besant era a pessoa perfeita para a missão que Bernard Shaw tinha em mente: desmascarar Helena Blavatsky, a misteriosa russa que apresentara ao mundo um saber reunido sob o nome de Teosofia.

O plano de Shaw não deu certo: subjugada pela solidez da sabedoria de Blavatsky, bem como por sua energia moral, Annie Besant converteu-se e viria a se tornar um dos pilares da Sociedade Teosófica.

Durante a viagem ao Egito, coincidentemente, eu lia mais um excelente livro de Annie Besant, “O Cristianismo esotérico”. Dele extraio a seguinte passagem: “Os Mistérios do Egito foram a glória dessa terra venerável, e os maiores filhos da Grécia, tal como Platão, se transportaram a Sais e a Tebas para aí serem iniciados por egípcios, Instrutores da Sabedoria.” Diz ainda Besant: “O mito é infinitamente mais verdadeiro que a história; a história apenas nos mostra uma sucessão de sombras e o mito nos fala dos corpos que as produzem. [...] A história é uma narração imperfeita, e quase sempre desfigurada, da dança caprichosa destas sombras, no mundo ilusório da matéria física.”

O Egito do meu imaginário era esse, o de verdades atemporais gravadas na pedra em linguagem cifrada. Enigmas manifestos no tradicional desafio da Esfinge: “Decifra-me ou te devoro.”

O famoso Mito da Caverna, de Platão (que iniciou-se no Egito, como vimos), é uma referência ao estado de ilusão em que vive o homem, tomando o que é sombra pelo Real. Como a Grécia representa o racionalismo, a democracia, o antropocentrismo, e até geograficamente funcionou como um filtro dos saberes do Oriente, os filósofos gregos (incluindo o platônico Platão) resultam mais palatáveis ao egoico e soberbo ocidental; mas é certo que esse homem ocidental não entende verdadeiramente o mito platônico.

Frequentemente os diligentes e cultos guias, que nos levaram aos magníficos monumentos egípcios, abriam um parêntesis antes de passar alguma informação: “Há algumas teorias...” A prudência justifica-se: como ter certeza sobre o que se passou há milênios – e, segundo algumas correntes, há muito mais tempo do que supõe a historiografia oficial? Além disso, se há uma certeza é a de que não somos capazes de alcançar o sentido mais profundo e verdadeiro de todos aqueles símbolos. Nem mesmo o professor Zahi Hawass, talvez o maior egiptólogo vivo (e de quem nosso guia-chefe foi aluno) é capaz de atinar com esse sentido profundo. Escreve Annie Besant a respeito da interpretação das Escrituras cristãs (que guardam muito mais similaridades com tradições religiosas orientais do que supõe o cristão dogmático e sectário): “No quarto livro do De Principiis, Orígenes explica longamente como compreende a interpretação das Escrituras. Elas têm um ‘corpo’, isto é, ‘o sentido ordinário e histórico’, uma ‘alma’ ou sentido figurado que pode ser percebido intelectualmente; finalmente, um ‘espírito’, sentido interior e divino que só conhece aquele que possui ‘a inteligência do Cristo’.”

Reitera Annie Besant: “O conhecimento do símbolos é, portanto, necessário para ler um mito, pois os primeiros autores dos grandes mitos foram sempre Iniciados habituados a empregar a língua simbólica, usando símbolos num sentido fixo e convencional.”

Assim como o Egito contemporâneo é apenas a sombra do Egito histórico, as interpretações atuais dos antigos mitos são apenas a sombra imprecisa de mensagens atemporais.
Este Egito contemporâneo é o Egito dos Mohammeds: nosso guia-chefe chama-se Mohammed Moses; o homem que nos recebeu no aeroporto do Cairo chama-se Mohammed; o guia que nos acompanhou a partir de Luxor é Mohammed; o garçon que nos servia no navio é Mohammed; o motorista da van é Mohammed.
Não são os hieróglifos, os templos magníficos, o Nilo ou a rude beleza do deserto o que levo como lembrança. A imagem que me fica do Egito é a do olhar do condutor de charrete, que nos levou a um dos templos antigos às margens do Nilo,  pedindo gorjeta: um olhar súplice, semelhante ao que ficou registrado na que provavelmente foi uma das primeiras fotografias feitas no Brasil: a de um escravo com olhar indigente, de desterro. O condutor de charrete egípcio não deixa de ser a reedição do antigo escravo que suou sob o sol para erguer as pirâmides: é um escravo contemporâneo, um segregado como tantos de todas as épocas. Seu olhar é o do terceiro mundo, que se vê abandonado no deserto, longe das conquistas e confortos do nosso tempo. À sombra de alguns dos mais magníficos monumentos do passado, o condutor de charrete suplica gorjeta.

Seu nome é Mohammed.