quarta-feira, 21 de março de 2018

Morte - a Sombra que Ilumina a Vida



Nelson M. Mendes

               
O título pode parecer paradoxal: uma sombra que ilumina? Esperemos que, ao final deste ensaio, a luz se tenha feito sobre a sombra. Ao leitor que não tenha ficado muito confortável diante deste cipoal de paradoxos e jogos de palavras, direi apenas: confiai e tende esperança!
- - -
A ilusão

Um amigo venezuelano, professor universitário e refinado poeta, invejava a inocência animal. Gostaria de poder “morir como un perro”, sem esperar nem temer a morte.

                Em página da Internet dedicada à chamada “terceira idade”, registram-se opiniões de algumas celebridades sobre o envelhecimento: “uma merda”, para Débora Bloch; “uma loucura”, para Rita Lee; “uma porcaria”, para Marília Gabriela. Mas a autora da matéria diz que as “pessoas sempre lembram que a alternativa ao envelhecimento é morrer mais cedo. Isso também ninguém quer”.

                De fato, o medo da morte sempre acompanhou o homem. O animal também teme instintivamente a morte – mas só quando há perigo imediato. O animal não pensa na morte, não fica a cismar sobre se há ou não algo depois que a vida se esvai do corpo físico. O sábio Krishnamurti explica: “Desejamos saber se sobreviveremos porque temos medo da morte. Queremos a garantia de uma continuidade.”

                As múmias são exemplos da patética aspiração humana por uma imortalidade corporal. Ao que tudo indica, povos antigos realmente pretendiam, ao fazer embalsamamentos e encher as tumbas de objetos úteis e joias, prover uma frankensteineana maneira de permitir à pessoa o trânsito para o outro mundo. A ingenuidade estava evidente na crença de que o morto pudesse vir a precisar dos pertences que usava em seu corpo físico. Não se sabe se isso não era apenas uma medida simbólica, cerimonial; nesse caso, os orgulhosos homens do século XXI nada poderiam falar, uma vez que suas cerimônias estão carregadas de prosaicas simbologias.

                O homem contemporâneo não mais pratica a mumificação. Acha uma bobagem que antigos povos egípcios, andinos, etc., preparassem os corpos para a viagem ao Além. Mas conceberam a criogenia (sonho ainda irrealizável), na esperança de que pessoas padecendo hoje de doenças incuráveis possam ser descongeladas no futuro, quando houver tratamento para essas doenças. Aqui, mais até do que no caso das antigas mumificações, manifesta-se de fato o desejo da imortalidade física.

                A ciência trata de encontrar novos tratamentos para doenças – incluindo procedimentos cirúrgicos radicais. A engenharia genética e outros ramos da ciência médica buscam maneiras de contrariar o natural envelhecimento das células. Se nada disso der certo, sempre se podem providenciar órgãos artificiais e próteses biônicas. Os documentários de TV falam, esperançosos e orgulhosos, da futura construção de corpos meio-homem, meio-máquina. A palavra de ordem é retardar ao máximo o envelhecimento; se possível, matar a morte.

A verdade

                Em sua maravilhosa autobiografia (um livro indispensável), Paramahansa Yogananda registra uma explicação dada por seu ressurrecto mestre Sri Yuktéswar sobre a morte: “Amigos de vidas passadas facilmente se reconhecem uns aos outros no mundo astral. Rejubilando-se com  caráter imortal da amizade, eles experimentam a indestrutibilidade do amor, de que tantas vezes se duvidou na hora das tristes e ilusórias separações na Terra.”

                O encantador Ramana Maharshi (uma espécie de São Francisco indiano) lembra que o problema é a identificação com o corpo físico: “Você não é o corpo. Você é pura consciência. O Ser não se move. Assim, mesmo depois do que pareça ser sua despedida daqui, você está aqui como ali e em toda parte. Apenas cenários mudam.”

                Ramana Maharshi propõe uma solução aparentemente drástica (mas na verdade o destino inevitável de todos) para afastar o medo da morte: “Mate o ego! Não há medo da morte para quem já está morto. O Ser permanece depois da morte do ego.”

                Krihnamurti faz sugestão parecida: “Morrer significa morrer para todas as experiências, todos os laços; é deixar de ser eu, ego. Quando a mente se liberta do conhecido, não há mais medo à morte. A mente já não busca a imortalidade pessoal.”

                Passo a palavra novamente a Paramahansa Yogananda. Ele cita a Bíblia: “Se um homem guardar a minha palavra (permanecer ininterruptamente em Consciência Crística), ele jamais conhecerá a morte. (João, 8:51).” E explica:

Nesta afirmação, Jesus não se referia à vida imortal no corpo físico - um confinamento monótono com que dificilmente se castigaria um pecador, e muito menos um santo! 0 homem iluminado de quem Jesus falava é aquele que despertou do transe mortal da ignorância para a Vida Eterna. A natureza essencial do homem é Espírito onipresente e sem forma. 0 invólucro carnal, compulsório ou cármico, é o resultado de avídya, ignorância. As Escrituras hindus ensinam que o nascimento e a morte são manifestações de máya, ilusão cósmica.

Nascimento e morte só têm sentido no mundo da relatividade.


Nenhum comentário: