domingo, 11 de janeiro de 2026

Três fatos sequestrados pela mídia brasileira

 


 

Texto integral de Ângela Carrato no Viomundo

 

Texto editado / NMM:

 SEQUESTRO 1

A mídia corporativa ignorou sumariamente tanto a solenidade do governo como as manifestações populares que foram realizadas para marcar os três anos da derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil, em 8/1/2023.

Isso foi o contrário do que aconteceu entre 2013 e 2016, quando a mídia deu amplo espaço para os manipulados protestos contra a então presidente Dilma Rousseff.

Esse silêncio da mídia é muito grave: no momento em que o ditador que governa os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra seu presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da Europa, como a Dinamarca, a vitória brasileira contra o golpe  é exemplo para o mundo da resiliência de nossas instituições.

As edições dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma manchete sobre a data, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.

Depois das cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.

O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula chamada no canto esquerdo da capa: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo no 8/1 ainda não foi ressarcido”.

Folha de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não publicou nada.

Os “vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como tentam fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro plano “Punhal Verde e Amarelo”.

O boicote às comemoração do 8/1 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal Nacional .

No telejornal, a cerimônia do 8/1 no Palácio do Planalto foi mostrada en passant, com o objetivo de esconder que o evento estava superlotado.

Como dizia o empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o que exibo é o que deixo de exibir. Podemos acrescentar que igualmente importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápida, menos chance de ser assimilada pelos telespectadores.

As manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas a referência de que foram convocadas “por centrais sindicais e sindicatos”. O JN fez de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando foi exatamente o contrário que se deu.

O sequestro da notícia pelo JN não terminou aí.

JN mencionou que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria. Foi dada voz somente a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante, Paulinho da Força, e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.

Marinho chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”, esquecendo-se de que a condenação se deu pela Justiça, respeitando-se o devido processo legal.

O sequestro da notícia persistiu na sexta-feira (9).

O Globo, numa chamada de capa sem destaque, noticiou que “Lula barra redução de penas do 8/1, e Congresso prepara derrubada do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.

A derrubada do veto não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas de opinião, indicam que a população brasileira não aceita anistia para golpistas. Não por acaso, o JN e todos os demais veículos da mídia corporativa omitiram as manifestações populares no 8/1, marcadas exatamente pelo “Sem Anistia”.

Enquanto isso, essa mesma mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair Bolsonaro e de sua família.

Todas estas ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, presente entre nós desde 2013.

A guerra híbrida precede  e integra as ações visando mudança de regime ou mesmo guerras. Ela  se constitui na utilização da mídia para construir, junto a grupos e populações, cenários que interessam às potências e países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, Israel) aí incluindo destruir a reputação de líderes políticos que não compactuam com seus interesses.



 SEQUESTRO 2

O que está acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo desse tipo de atuação.

A invasão de um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.

Foi o oposto disso o que ocorreu.

A mídia corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Essa postura é gravíssima, quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem nesta mídia sua principal fonte de informação.

Guerras híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado.  Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela começaram em 1998, logo após a vitória eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 sanções econômicas e financeiras.

 Durante a pandemia de covid-19, foi proibida pelos Estados Unidos de comprar até vacinas e insulina para o tratamento de diabetes.

Em 2019, a Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas, bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.

No ano anterior, o Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscara a reserva de 31 toneladas de ouro da Venezuela, por não reconhecer o governo Maduro como legítimo.

Se a população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que continuariam chamando Maduro de ditador, por defender o petróleo e os interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo ianque e europeu?

Se a guerra híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura” teria sido aplaudida?

Como a farsa envolvendo as razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lençóis é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canalha do que a similar estadunidense.

Enquanto edições do The New York Times e The Washington Post estampavam manchetes mostrando que Trump recuou da principal denúncia contra Maduro, a de que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara de paisagem; porque ela, valendo-se de reportagens estrangeiras mentirosas, atestou a existência desse “perigoso cartel”.

Como agora os jornalões e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público que era tudo mentira criada pela Casa Branca e pelo governo inglês?

Como iriam expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?

Desde que o mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. No caso da Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro era alta: US$ 50 milhões.

Mesmo assim, esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade: que líderes chavistas entregaram a cabeça de Maduro; que Maduro fez acordo com Trump visando a própria captura; que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”; que “o povo venezuelano comemorou esta captura”; e que a vice-presidente Delcy Rodrigues já se curvou a Trump.

Uma mentira acaba puxando outra, e é isso que esta mídia tem feito. Mas talvez a mais grave de todas as mentiras seja a de que Delcy e a cúpula chavista tenham se acertado com Trump.

Delcy e a liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação demanda, diante do poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começam a aparecer. A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter num tremendo desgaste para o governo Trump.  

Para piorar a já péssima situação desta mídia, vale destacar que não se viu um único editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, ao México, a Cuba e à América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como “quintal dos Estados Unidos”.

Antes de mudar de assunto, gostaria de assinalar que  também senti falta das “valorosas feministas brasileiras”, que ficaram indignadas quando o presidente Lula se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela efetivamente é. Essas mesmas feministas não abriram o bico para comentar os ferimentos sofridos pela primeira-dama da Venezuela durante o sequestro realizado pelo governo estadunidense.

Haja feminismo seletivo!

 

SEQUESTRO 3

Outro exemplo emblemático de guerra híbrida é o caso da liquidação do banco Master, de propriedade do picareta e trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de questionamentos pela mídia corporativa brasileira.

A mídia tentou, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões que Vorcaro deu em seus correntistas; e concentou-se em destacar uma suposta ilegalidade envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.

A jogada, como agora se sabe, era a seguinte: uma das colunistas amestradas do Grupo Globo denunciava, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Master. A única evidência apresentada era um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.

A denúncia de O Globo, como sempre, foi seguida pelos demais veículos da mídia corporativa. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria sua autoridade contestada inclusive no que se refere ao julgamento e condenação dos golpistas do 8/1.

Obviamente, os golpistas de sempre, dentro e fora do Congresso Nacional, estavam interessados em desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula.

Os ataques só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o óbvio: não cabe interferência pública em contrato entre particulares. Dito de outra forma: que a mídia tratasse de comprovar que Moraes usou de sua influência para evitar a liquidação do banco Master.

Foi aí que esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar a tal influência, se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando revertê-la são exatamente os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.

Ao contrário de apurar como um picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o banco.  Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o assunto.

Ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Master.

No entanto, foi a cantilena contra a liquidação do Master que a mídia corporativa transformou em manchete em 8/1.  No dia seguinte, a Folha de S. Paulo, seguindo  à risca orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Cofres públicos terão que cobrir rombo de fundos de previdência com Master”.

No caso, a manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e municípios terão que cobrir prejuízos do banco Master em seus fundos de pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por políticos de extrema-direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia golpista.

Para aumentar a vergonha (se esta mídia tivesse vergonha), a autoridade monetária dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Master e bloqueou os seus ativos lá.

O desafio para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI


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