Texto integral de Ângela Carrato no Viomundo
Texto editado / NMM:
A mídia
corporativa ignorou sumariamente tanto a solenidade do governo como as
manifestações populares que foram realizadas para marcar os três anos da
derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil, em 8/1/2023.
Isso foi o
contrário do que aconteceu entre 2013 e 2016, quando a mídia deu amplo espaço
para os manipulados protestos contra a então presidente Dilma Rousseff.
Esse
silêncio da mídia é muito grave: no momento em que o ditador que governa
os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra seu
presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da
Europa, como a Dinamarca, a vitória brasileira contra o golpe é exemplo para o mundo da resiliência de
nossas instituições.
As edições
dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma
manchete sobre a data, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum
texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.
Depois das
cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com
direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta
mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.
O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula
chamada no canto esquerdo da capa: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo
no 8/1 ainda não foi ressarcido”.
A Folha
de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se
transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não
publicou nada.
Os
“vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como
tentam fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar
o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice,
Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro
plano “Punhal Verde e Amarelo”.
O boicote às
comemoração do 8/1 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal
Nacional .
No
telejornal, a cerimônia do 8/1 no Palácio do Planalto foi mostrada en
passant, com o objetivo de esconder que o evento estava superlotado.
Como dizia o
empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o
que exibo é o que deixo de exibir. Podemos acrescentar que igualmente
importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápida, menos
chance de ser assimilada pelos telespectadores.
As
manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas a
referência de que foram convocadas “por centrais sindicais e sindicatos”. O JN fez
de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando
foi exatamente o contrário que se deu.
O sequestro
da notícia pelo JN não terminou aí.
O JN mencionou
que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria. Foi dada voz
somente a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante,
Paulinho da Força, e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o
Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.
Marinho
chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”,
esquecendo-se de que a condenação se deu pela Justiça, respeitando-se o devido
processo legal.
O sequestro
da notícia persistiu na sexta-feira (9).
O Globo, numa chamada de capa sem destaque,
noticiou que “Lula barra redução de penas do 8/1, e Congresso prepara derrubada
do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com
a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de
teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.
A derrubada
do veto não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas
de opinião, indicam que a população brasileira não aceita anistia para
golpistas. Não por acaso, o JN e todos os demais veículos da
mídia corporativa omitiram as manifestações populares no 8/1, marcadas
exatamente pelo “Sem Anistia”.
Enquanto
isso, essa mesma mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair
Bolsonaro e de sua família.
Todas estas
ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, presente
entre nós desde 2013.
A guerra
híbrida precede e integra as ações visando mudança de regime ou mesmo guerras.
Ela se constitui na utilização da mídia para construir, junto a grupos e
populações, cenários que interessam às potências e países imperialistas
(Estados Unidos, Inglaterra, Israel) aí incluindo destruir a reputação de
líderes políticos que não compactuam com seus interesses.
SEQUESTRO 2
O que está
acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo desse tipo de atuação.
A invasão de
um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu
presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo
estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de
comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.
Foi o oposto
disso o que ocorreu.
A mídia
corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e
vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Essa postura é
gravíssima, quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem
nesta mídia sua principal fonte de informação.
Guerras
híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado.
Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela começaram em 1998, logo após a vitória
eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial
a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 sanções
econômicas e financeiras.
Durante
a pandemia de covid-19, foi proibida pelos Estados Unidos de comprar até
vacinas e insulina para o tratamento de diabetes.
Em 2019, a
Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas,
bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal
petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.
No ano
anterior, o Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscara a reserva
de 31 toneladas de ouro da Venezuela, por não reconhecer o governo Maduro como
legítimo.
Se a
população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria
aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que
continuariam chamando Maduro de ditador, por defender o petróleo e os
interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo
ianque e europeu?
Se a guerra
híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura”
teria sido aplaudida?
Como a farsa
envolvendo as razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lençóis
é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canalha
do que a similar estadunidense.
Enquanto
edições do The New York Times e The Washington Post estampavam
manchetes mostrando que Trump recuou da principal denúncia contra Maduro, a de
que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara
de paisagem; porque ela, valendo-se de reportagens estrangeiras mentirosas,
atestou a existência desse “perigoso cartel”.
Como agora
os jornalões e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público
que era tudo mentira criada pela Casa Branca e pelo governo inglês?
Como iriam
expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se
apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?
Desde que o
mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. No caso da
Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro
era alta: US$ 50 milhões.
Mesmo assim,
esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações
peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade: que líderes chavistas
entregaram a cabeça de Maduro; que Maduro fez acordo com Trump visando a
própria captura; que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”; que “o
povo venezuelano comemorou esta captura”; e que a vice-presidente Delcy
Rodrigues já se curvou a Trump.
Uma mentira
acaba puxando outra, e é isso que esta mídia tem feito. Mas talvez a mais grave
de todas as mentiras seja a de que Delcy e a cúpula chavista tenham se acertado
com Trump.
Delcy e a
liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação demanda, diante do
poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começam
a aparecer. A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter
num tremendo desgaste para o governo Trump.
Para piorar
a já péssima situação desta mídia, vale destacar que não se viu um único
editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, ao México, a Cuba e à
América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como
“quintal dos Estados Unidos”.
Antes de
mudar de assunto, gostaria de assinalar que também senti falta das
“valorosas feministas brasileiras”, que ficaram indignadas quando o presidente
Lula se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela
efetivamente é. Essas mesmas feministas não abriram o bico para comentar os
ferimentos sofridos pela primeira-dama da Venezuela durante o sequestro
realizado pelo governo estadunidense.
Haja
feminismo seletivo!
SEQUESTRO
3
Outro
exemplo emblemático de guerra híbrida é o caso da liquidação do banco Master,
de propriedade do picareta e trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi
oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de
questionamentos pela mídia corporativa brasileira.
A mídia
tentou, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões
que Vorcaro deu em seus correntistas; e concentou-se em destacar uma suposta
ilegalidade envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.
A jogada,
como agora se sabe, era a seguinte: uma das colunistas amestradas do Grupo
Globo denunciava, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre
de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Master. A única evidência
apresentada era um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de
Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.
A denúncia
de O Globo, como sempre, foi seguida pelos demais veículos da mídia
corporativa. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria sua autoridade
contestada inclusive no que se refere ao julgamento e condenação dos golpistas
do 8/1.
Obviamente, os
golpistas de sempre, dentro e fora do Congresso Nacional, estavam interessados
em desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula.
Os ataques
só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o
óbvio: não cabe interferência pública em contrato entre particulares. Dito de
outra forma: que a mídia tratasse de comprovar que Moraes usou de sua
influência para evitar a liquidação do banco Master.
Foi aí que
esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar a tal influência,
se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais
ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando revertê-la são exatamente
os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.
Ao contrário
de apurar como um picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por
tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro
Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o
banco. Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos
interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o
assunto.
Ligado ao
presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o
prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários
de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Master.
No entanto,
foi a cantilena contra a liquidação do Master que a mídia corporativa
transformou em manchete em 8/1. No dia seguinte, a Folha de S. Paulo,
seguindo à risca orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como
confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do
governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Cofres públicos terão que cobrir
rombo de fundos de previdência com Master”.
No caso, a
manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e
municípios terão que cobrir prejuízos do banco Master em seus fundos de
pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por
políticos de extrema-direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas
Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia
golpista.
Para
aumentar a vergonha (se esta mídia tivesse vergonha), a autoridade monetária
dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Master e bloqueou os seus ativos
lá.
O desafio
para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser
sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os
ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.
*Ângela
Carrato é
jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro
do Conselho Deliberativo da ABI



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