terça-feira, 19 de maio de 2026

Niterói vai virar deserto?



Nelson. M. Mendes

Em 2005, escrevi um texto intitulado “Dendrofobia”; mas ele ficou guardado numa gaveta digital.  Em 2017, eu o editei, adaptei, e publiquei no blog Satyagraha.

Depois de lamentar que o texto de 2005 estivesse, em 2017, “mais atual do que nunca”, eu explicava que dendrofobia significa “horror às árvores”, na definição de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

Para mim e muitas pessoas que conheço, é inconcebível que alguém possa ter horror às árvores. Mas a fobia é real e muito comum. No texto de 2017 eu cito Tom Jobim: “Brasileiro tem pavor de árvore.” Lembro ainda que o primeiro ciclo econômico brasileiro havia sido o do pau-brasil. Ou seja: o país nasceu sob o signo do ataque à floresta.

Quando o colonizador europeu aportou nestas plagas tropicais, ele queria riquezas. Não encontrou imediatamente ouro, prata, pedras preciosas; mas descobriu uma árvore que, quando cortada, produzia um corante “vermelho como brasa”, e que daria nome ao país: o pau-brasil. Iniciava-se o ciclo da exploração predatória da árvore – que esteve perto da extinção e hoje é protegida por lei.

Ousando aqui ensaiar algo como uma psicanálise antropológica, diria que o ser humano, de modo geral, à medida que se afastava da vida primitiva e relativamente se libertava do jugo da natureza, passou a privilegiar as conquistas civilizacionais e rejeitar os aspectos naturais.

Então as aldeias, e depois as cidades, passaram a representar refúgios em relação às inclemências da selvagem natureza. A casa de madeira ou de pedra significava avanço, modernidade, segurança. O chão de terra batida das ruelas era mais confortador do que os espinheiros da floresta ou da campina. Lá fora, tudo era mato.

Ainda hoje, muitas pessoas parecem exibir esse comportamento do homem primitivo que conseguiu libertar-se da opressão exercida pela natureza. Olham as árvores com desconfiança e até ressentimento. Execram o verde. Entusiasmam-se com o asfalto, o concreto, o tijolo, o azulejo. Na primeira oportunidade, substituem um jardim ou gramado por cimento ou cerâmica. E não perdem a chance de exterminar uma árvore.

 

O processo de anelamento

Uma das primeiras formas de ataque às árvores é o processo de anelamento. O Google esclarece: “O anelamento de árvores é a remoção de um anel de casca (floema) ao redor do tronco ou ramos, interrompendo o transporte de seiva elaborada para as raízes. Usado na agricultura para induzir produção e melhorar frutos, pode causar a morte da planta se feito no tronco, sendo considerado crime ambiental em áreas públicas ou privadas.” Então é isso: anelamento é crime. Um crime praticado corriqueiramente, como veremos a partir de registros fotográficos feitos desde os primeiros anos do século XXI.

As fotos 01 a 04 mostram árvores que sofreram o processo de anelamento para que morressem e, assim, pudessem ser retiradas. Na foto 01, algo semelhante a óleo queimado foi colocado na ferida aberta no tronco, para envenenar a árvore e apressar sua morte.



 

O assassinato de uma árvore

Nas fotos 05 a 10, o escriba registrou o assassinato no Jardim Paris, Estrada Fróes, de uma exuberante e umbrosa pata-de-vaca, que não causava qualquer problema: não quebrava a calçada, não ameçava qualquer fio, não dificultava a entrada na garagem. A árvore já tinha sofrido um anelamento extenso, mas insistia em sobreviver. Então foi feito novo anelamento, junto às raízes, e logo os madeireiros do asfalto começaram a destruir a árvore, até que restasse apenas um impreciso quadrilátero de terra nua e seca. Na foto 10, uma seta amarela indica o objetivo do dendrocídio (palavra ainda não dicionarizada e que significa ‘assassinato de árvore’): plantar uma risível palmeira decorativa, que jamais produziria uma sombra sob a qual o morador pudesse estacionar seu carro. (Ele passaria a estacionar sob a árvore do vizinho.)



 

Árvores mutiladas

Na sequência, são apresentadas fotos de árvores mutiladas basicamente pela prefeitura e pela companhia de energia elétrica – que muda de nome, de dono, mas não abandona o furor dendrocida. As instituições têm licença para mutilar; e matar, como veremos adiante.

Nas fotos 11 a 14, feitas em 2004, árvores mutiladas parecem se contorcer, angustiadas, na rua Gen. Pereira da Silva, em Icaraí.



Nas fotos 15 a 17, praticamente só restaram troncos de árvores na rua Mariz e Barros.



Nas fotos 18 e 19, a mutilação de amendoeiras na Praia de Icaraí.



Fotos 20 e 21: a exuberante amendoeira, que projetava charmosa galharia na direção do mar, foi incompreensivelmente mutilada.



Fotos 22 e 23: o que justifica que árvores sejam transformadas em tais esqueletos mutilados? Na foto 23, a moça do painel publicitário parece contemplar, perplexa, a galharia congelada em angustiada contorsão.



Fotos 24 a 26: árvores mutiladas no bairro de São Domingos.



Fotos 27 e 28: árvores transformadas em tridentes no bairro de Santa Rosa.



Fotos 29 a 31: No bairro de São Francisco, árvores transformadas em tridentes ou postes. Chama a atenção que em frente à Niterói Empresa de Lazer e Turismo (NELTUR), a árvore teve sua copa inteira e injustificadamente decepada.



 

Árvores eliminadas

Na foto 32, o verde preponderava, em 2007; na foto 33, a visão semiárida de hoje, 2026. Na foto 34, a seta azul mostra a razão da mudança: a árvore, que já vinha sendo maltratada e mutilada há anos, foi, finalmente, para gáudio da vizinhança dendrofóbica, exterminada. A foto 35 mostra um close da destruição.



As fotos 36 a 39 registram o extermínio de árvores na rua Ator Paulo Gustavo, desde quando (foto 36) a rua se chamava Cel. Moreira César.



As fotos 40 a 43 mostram túmulos possivelmente de acácias rosas, uma das quais, numa bela manhã de 2017, inspirou ao escriba o poema Chuva de flores:

Numa rua qualquer

na concreta calçada

a árvore

saudava os passantes

com uma chuva de flores



Na foto 44, num pitoresco recanto do bairro de Santa Rosa, a “hedionda cicatriz” deixada no lugar da árvore arrancada. Na foto 45, a seta mostra o cimento liso no lugar de uma árvore que o escriba chegou a conhecer.



Fotos 46 e 47: o ficus mutilado, registrado em 2005, em frente ao restaurante Torninha, na rua Nóbrega, finalmente foi exterminado em 2026.



Fotos 48 a 50: outro exuberante e saudável ficus, desta vez na rua Domingues de Sá, foi eliminado, já em 2005, deixando mais uma “hedionda cicatriz”.



As fotos 51 a 54 mostram o que restou de algumas árvores no bairro de São Francisco.



 

Curiosidades

A foto 55 mostra a lápide da árvore que havia na esquina das ruas Otávio Kelly e Domingues de Sá, no Jardim Icaraí (área de transição entre os bairros de Santa Rosa e Icaraí). A árvore, nesse caso, morreu de causas naturais: caiu numa tempestade. Mas a ninguém ocorreu plantar outra, de uma espécie mais robusta, menor, e menos suscetível às intempéries. As autoridades preferiram selar o ponto em que houve um dia uma bela árvore. A EMUSA (atual ION) registrou no cimento a data do funeral: 2 - 23 - 001 (23 de fevereiro de 2001). As ruas de Niterói, aliás, estão cheias de sepulturas semelhantes. Mas nenhuma outra com inscrição funerária: em geral, a calçada sofre uma criteriosa cirurgia plástica (que pode incluir a reconstituição do calçamento com pedras portuguesas), de modo a apagar completamente a lembrança da árvore abatida. Na foto 56, a plantação de fradinhos, num local da Alameda Carolina em que nada impediria a presença de várias árvores, foi substituída pela plantação de tubos de metal.



 

Belas-árvores

O subtítulo é uma brincadeira alusiva à tradicional expressão belas-artes. O pintor paranaense Albano de Carvalho, que viveu décadas em Niterói, abriu na cidade, com seu filho Adolfo, um curso de desenho e pintura. O escriba, por um breve período nos anos 1960, fez algumas aulas. Muitos anos depois reencontrou casualmente o professor Albano, já bem idoso, que o convidou a visitá-lo em sua casa. Então, em seus arquivos, no meio de desenhos e aquarelas, mostrou uma bela e delicada folha de árvore. Ele disse ao escriba que aquela linda folha era um lembrete de que nenhum artista podia competir com a perfeição da natureza.

Ao longo dos anos, o escriba fotografou árvores que haviam escapado à sanha dendrocida das instituições (privadas ou públicas) e da população de modo geral. E capturou, na Internet, imagens que mostram o quão exuberantes e belas podem ser as árvore quando, como queria Tom Jobim, são deixadas em paz. Abaixo, algumas dessas fotografias.

As fotos 57 e 58 mostram, no bairro de São Francisco, árvores que, protegidas em terrenos particulares, não puderam ser atacadas nem pela ENEL (antiga AMPLA, antiga CERJ), nem pela Prefeitura, nem por moradores dendrófobos. A foto 59 mostra lindo pau-ferro que resiste na rua Mariz e Barros.



Nas fotos 60 e 61, sapucaias exuberantes e ainda mais engalanadas que as pintadas por Batista da Costa (“Sapucaieiras Engalanadas”). Foram fotografadas num condomínio na rua Dr. Paulo César, no bairro de Santa Rosa.



Na foto 62, a gigantesca ficus elastica (também conhecida como figueira italiana) no bairro do Gragoatá. Segundo o Google, ela “é a única árvore tombada como patrimônio cultural, ecológico e paisagístico do município”. (Infelizmente, todas as demais árvores da cidade estão sob permanente risco de tombamento no pior sentido do termo.) A foto 63, no campus da UFF, também no Gragoatá, registra o quanto de lirismo e beleza podem as árvores trazer aos ambientes urbanos em geral.



Na foto 64, el árbol del Tule, no Estado de Oaxaca, México. Na foto 65, a samaúma, a “rainha da Amazônia”.



Foto 66: baobá, na Tanzânia, com idade estimada em 6 mil anos. Foto 67: um venerável carvalho na Inglaterra. Foto 68: a criatividade da natureza manifestada no pictórico eucalipto arco-íris.



Foto 69: milenar exemplar de jequitibá rosa, no Parque Estadual dos Três Picos, RJ. Foto 70: um jequitibá branco pleno e elegante.



Foto 71: árvore desconhecida, porém exuberante e generosa, registrada pelo escriba em viagem de Quissamã a Santa Maria Madalena, ambas as cidades no Estado do Rio de Janeiro. Foto 72: o escriba captou uma pincelada de Deus, com araucárias em primeiro plano.



Foto 73: a imagem, capturada na Internet, mostra o quão mais lindas as árvores podem tornar nossas vidas.



A foto 74 chegou ao escriba num post nas redes sociais. Mostra um rebanho de cabras abrigado sob a sombra de uma árvore. Vinha acompanhada exatamente dessa legenda – “A importância de uma árvore” –, e pedia ao usuário: “Compartilhe, por favor.”



O escriba está compartilhando. Mas não pode se esquecer de que, certa ocasião, conversando com uma transeunte sobre a destruição das árvores e o concomitante desaparecimento das sombras nas calçadas, ouviu-a disparar o comentário surreal, mas que explica muita coisa: “Sombra? Pra que sombra?”

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