Nelson. M. Mendes
Em 2005,
escrevi um texto intitulado “Dendrofobia”; mas ele ficou guardado numa gaveta
digital. Em 2017, eu o editei,
adaptei, e publiquei no blog Satyagraha.
Depois de
lamentar que o texto de 2005 estivesse, em 2017, “mais atual do que nunca”, eu
explicava que dendrofobia significa “horror às árvores”, na definição de
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Para mim
e muitas pessoas que conheço, é inconcebível que alguém possa ter horror às
árvores. Mas a fobia é real e muito comum. No texto de 2017 eu cito Tom Jobim:
“Brasileiro tem pavor de árvore.” Lembro ainda que o primeiro ciclo econômico
brasileiro havia sido o do pau-brasil. Ou seja: o país nasceu sob o signo do
ataque à floresta.
Quando o
colonizador europeu aportou nestas plagas tropicais, ele queria riquezas. Não
encontrou imediatamente ouro, prata, pedras preciosas; mas descobriu uma árvore
que, quando cortada, produzia um corante “vermelho como brasa”, e que daria
nome ao país: o pau-brasil. Iniciava-se o ciclo da exploração predatória da
árvore – que esteve perto da extinção e hoje é protegida por lei.
Ousando
aqui ensaiar algo como uma psicanálise antropológica, diria que o ser
humano, de modo geral, à medida que se afastava da vida primitiva e
relativamente se libertava do jugo da natureza, passou a privilegiar as
conquistas civilizacionais e rejeitar os aspectos naturais.
Então as
aldeias, e depois as cidades, passaram a representar refúgios em relação às
inclemências da selvagem natureza. A casa de madeira ou de pedra significava
avanço, modernidade, segurança. O chão de terra batida das ruelas era
mais confortador do que os espinheiros da floresta ou da campina. Lá fora, tudo
era mato.
Ainda
hoje, muitas pessoas parecem exibir esse comportamento do homem primitivo que
conseguiu libertar-se da opressão exercida pela natureza. Olham as árvores com
desconfiança e até ressentimento. Execram o verde. Entusiasmam-se com o
asfalto, o concreto, o tijolo, o azulejo. Na primeira oportunidade, substituem
um jardim ou gramado por cimento ou cerâmica. E não perdem a chance de
exterminar uma árvore.
O
processo de anelamento
Uma das
primeiras formas de ataque às árvores é o processo de anelamento.
O Google esclarece: “O anelamento de árvores é a
remoção de um anel de casca (floema) ao redor do tronco ou ramos, interrompendo
o transporte de seiva elaborada para as raízes. Usado na agricultura para
induzir produção e melhorar frutos, pode causar a morte da planta se feito no
tronco, sendo considerado crime ambiental em áreas públicas ou privadas.”
Então é isso: anelamento é crime. Um crime praticado corriqueiramente, como
veremos a partir de registros fotográficos feitos desde os primeiros anos do
século XXI.
As fotos 01
a 04 mostram árvores que sofreram o processo de anelamento para que morressem
e, assim, pudessem ser retiradas. Na foto 01, algo semelhante a óleo queimado
foi colocado na ferida aberta no tronco, para envenenar a árvore e apressar sua
morte.
O
assassinato de uma árvore
Nas fotos
05 a 10, o escriba registrou o assassinato no Jardim Paris, Estrada Fróes, de uma exuberante e umbrosa pata-de-vaca,
que não causava qualquer problema: não quebrava a calçada, não ameçava qualquer
fio, não dificultava a entrada na garagem. A árvore já tinha sofrido um
anelamento extenso, mas insistia em sobreviver. Então foi feito novo
anelamento, junto às raízes, e logo os madeireiros do asfalto começaram
a destruir a árvore, até que restasse apenas um impreciso quadrilátero de terra
nua e seca. Na foto 10, uma seta amarela indica o objetivo do dendrocídio
(palavra ainda não dicionarizada e que significa ‘assassinato de árvore’):
plantar uma risível palmeira decorativa, que jamais produziria uma sombra sob a
qual o morador pudesse estacionar seu carro. (Ele passaria a estacionar sob a
árvore do vizinho.)
Árvores
mutiladas
Na sequência,
são apresentadas fotos de árvores mutiladas basicamente pela prefeitura e pela
companhia de energia elétrica – que muda de nome, de dono, mas não abandona o furor
dendrocida. As instituições têm licença para mutilar; e matar, como veremos
adiante.
Nas fotos
11 a 14, feitas em 2004, árvores mutiladas parecem se contorcer, angustiadas,
na rua Gen. Pereira da Silva, em Icaraí.
Nas fotos
15 a 17, praticamente só restaram troncos de árvores na rua Mariz e Barros.
Nas fotos
18 e 19, a mutilação de amendoeiras na Praia de Icaraí.
Fotos 20
e 21: a exuberante amendoeira, que projetava charmosa galharia na direção do
mar, foi incompreensivelmente mutilada.
Fotos 22
e 23: o que justifica que árvores sejam transformadas em tais esqueletos
mutilados? Na foto 23, a moça do painel publicitário parece contemplar,
perplexa, a galharia congelada em angustiada contorsão.
Fotos 24
a 26: árvores mutiladas no bairro de São Domingos.
Fotos 27
e 28: árvores transformadas em tridentes no bairro de Santa Rosa.
Fotos 29
a 31: No bairro de São Francisco, árvores transformadas em tridentes ou postes.
Chama a atenção que em frente à Niterói Empresa de Lazer e Turismo (NELTUR),
a árvore teve sua copa inteira e injustificadamente decepada.
Árvores
eliminadas
Na foto 32,
o verde preponderava, em 2007; na foto 33, a visão semiárida de hoje,
2026. Na foto 34, a seta azul mostra a razão da mudança: a árvore, que já vinha
sendo maltratada e mutilada há anos, foi, finalmente, para gáudio da vizinhança
dendrofóbica, exterminada. A foto 35 mostra um close da destruição.
As fotos 36
a 39 registram o extermínio de árvores na rua Ator Paulo Gustavo, desde quando
(foto 36) a rua se chamava Cel. Moreira César.
As fotos 40
a 43 mostram túmulos possivelmente de acácias rosas, uma das quais, numa
bela manhã de 2017, inspirou ao escriba o poema Chuva de flores:
Numa
rua qualquer
na
concreta calçada
a
árvore
saudava
os passantes
com
uma chuva de flores
Na foto 44,
num pitoresco recanto do bairro de Santa Rosa, a “hedionda cicatriz” deixada no
lugar da árvore arrancada. Na foto 45, a seta mostra o cimento liso no lugar de
uma árvore que o escriba chegou a conhecer.
Fotos 46
e 47: o ficus mutilado, registrado em 2005, em frente ao restaurante Torninha,
na rua Nóbrega, finalmente foi exterminado em 2026.
Fotos 48
a 50: outro exuberante e saudável ficus, desta vez na rua Domingues de
Sá, foi eliminado, já em 2005, deixando mais uma “hedionda cicatriz”.
As fotos 51
a 54 mostram o que restou de algumas árvores no bairro de São Francisco.
Curiosidades
A foto 55
mostra a lápide da árvore que havia na esquina das ruas Otávio Kelly e
Domingues de Sá, no Jardim Icaraí (área de transição entre os bairros de Santa
Rosa e Icaraí). A árvore, nesse caso, morreu de causas naturais: caiu
numa tempestade. Mas a ninguém ocorreu plantar outra, de uma espécie mais
robusta, menor, e menos suscetível às intempéries. As autoridades preferiram
selar o ponto em que houve um dia uma bela árvore. A EMUSA (atual ION)
registrou no cimento a data do funeral: 2 - 23 - 001 (23 de fevereiro de 2001).
As ruas de Niterói, aliás, estão cheias de sepulturas semelhantes. Mas
nenhuma outra com inscrição funerária: em geral, a calçada sofre uma
criteriosa cirurgia plástica (que pode incluir a reconstituição do
calçamento com pedras portuguesas), de modo a apagar completamente a lembrança
da árvore abatida. Na foto 56, a plantação de fradinhos, num local da
Alameda Carolina em que nada impediria a presença de várias árvores, foi
substituída pela plantação de tubos de metal.
Belas-árvores
O
subtítulo é uma brincadeira alusiva à tradicional expressão belas-artes.
O pintor paranaense Albano de Carvalho, que viveu décadas em Niterói, abriu na
cidade, com seu filho Adolfo, um curso de desenho e pintura. O escriba, por um
breve período nos anos 1960, fez algumas aulas. Muitos anos depois reencontrou
casualmente o professor Albano, já bem idoso, que o convidou a visitá-lo em sua
casa. Então, em seus arquivos, no meio de desenhos e aquarelas, mostrou uma
bela e delicada folha de árvore. Ele disse ao escriba que aquela linda folha
era um lembrete de que nenhum artista podia competir com a perfeição da
natureza.
Ao longo
dos anos, o escriba fotografou árvores que haviam escapado à sanha dendrocida
das instituições (privadas ou públicas) e da população de modo geral. E
capturou, na Internet, imagens que mostram o quão exuberantes e belas podem ser
as árvore quando, como queria Tom Jobim, são deixadas em paz. Abaixo, algumas
dessas fotografias.
As fotos
57 e 58 mostram, no bairro de São Francisco, árvores que, protegidas em
terrenos particulares, não puderam ser atacadas nem pela ENEL (antiga AMPLA,
antiga CERJ), nem pela Prefeitura, nem por moradores dendrófobos. A foto 59
mostra lindo pau-ferro que resiste na rua Mariz e Barros.
Nas fotos
60 e 61, sapucaias exuberantes e ainda mais engalanadas que as pintadas por
Batista da Costa (“Sapucaieiras Engalanadas”). Foram fotografadas num
condomínio na rua Dr. Paulo César, no bairro de Santa Rosa.
Na foto
62, a gigantesca ficus elastica (também conhecida como figueira
italiana) no bairro do Gragoatá. Segundo o Google, ela “é a única árvore
tombada como patrimônio cultural, ecológico e paisagístico do município”. (Infelizmente,
todas as demais árvores da cidade estão sob permanente risco de tombamento
no pior sentido do termo.) A foto 63, no campus da UFF, também no
Gragoatá, registra o quanto de lirismo e beleza podem as árvores trazer aos
ambientes urbanos em geral.
Na foto
64, el árbol del Tule, no Estado de Oaxaca, México. Na foto 65, a
samaúma, a “rainha da Amazônia”.
Foto 66:
baobá, na Tanzânia, com idade estimada em 6 mil anos. Foto 67: um venerável
carvalho na Inglaterra. Foto 68: a criatividade da natureza manifestada no pictórico
eucalipto arco-íris.
Foto 69:
milenar exemplar de jequitibá rosa, no Parque Estadual dos Três Picos, RJ. Foto
70: um jequitibá branco pleno e elegante.
Foto 71:
árvore desconhecida, porém exuberante e generosa, registrada pelo escriba em
viagem de Quissamã a Santa Maria Madalena, ambas as cidades no Estado do Rio de
Janeiro. Foto 72: o escriba captou uma pincelada de Deus, com araucárias
em primeiro plano.
Foto 73:
a imagem, capturada na Internet, mostra o quão mais lindas as árvores podem
tornar nossas vidas.
A foto 74
chegou ao escriba num post nas redes sociais. Mostra um rebanho de
cabras abrigado sob a sombra de uma árvore. Vinha acompanhada exatamente dessa
legenda – “A importância de uma árvore” –, e pedia ao usuário: “Compartilhe,
por favor.”
O escriba
está compartilhando. Mas não pode se esquecer de que, certa ocasião,
conversando com uma transeunte sobre a destruição das árvores e o concomitante
desaparecimento das sombras nas calçadas, ouviu-a disparar o comentário surreal,
mas que explica muita coisa: “Sombra? Pra que sombra?”




























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