terça-feira, 19 de maio de 2026

Niterói vai virar deserto?



Nelson. M. Mendes

Em 2005, escrevi um texto intitulado “Dendrofobia”; mas ele ficou guardado numa gaveta digital.  Em 2017, eu o editei, adaptei, e publiquei no blog Satyagraha.

Depois de lamentar que o texto de 2005 estivesse, em 2017, “mais atual do que nunca”, eu explicava que dendrofobia significa “horror às árvores”, na definição de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.

Para mim e muitas pessoas que conheço, é inconcebível que alguém possa ter horror às árvores. Mas a fobia é real e muito comum. No texto de 2017 eu cito Tom Jobim: “Brasileiro tem pavor de árvore.” Lembro ainda que o primeiro ciclo econômico brasileiro havia sido o do pau-brasil. Ou seja: o país nasceu sob o signo do ataque à floresta.

Quando o colonizador europeu aportou nestas plagas tropicais, ele queria riquezas. Não encontrou imediatamente ouro, prata, pedras preciosas; mas descobriu uma árvore que, quando cortada, produzia um corante “vermelho como brasa”, e que daria nome ao país: o pau-brasil. Iniciava-se o ciclo da exploração predatória da árvore – que esteve perto da extinção e hoje é protegida por lei.

Ousando aqui ensaiar algo como uma psicanálise antropológica, diria que o ser humano, de modo geral, à medida que se afastava da vida primitiva e relativamente se libertava do jugo da natureza, passou a privilegiar as conquistas civilizacionais e rejeitar os aspectos naturais.

Então as aldeias, e depois as cidades, passaram a representar refúgios em relação às inclemências da selvagem natureza. A casa de madeira ou de pedra significava avanço, modernidade, segurança. O chão de terra batida das ruelas era mais confortador do que os espinheiros da floresta ou da campina. Lá fora, tudo era mato.

Ainda hoje, muitas pessoas parecem exibir esse comportamento do homem primitivo que conseguiu libertar-se da opressão exercida pela natureza. Olham as árvores com desconfiança e até ressentimento. Execram o verde. Entusiasmam-se com o asfalto, o concreto, o tijolo, o azulejo. Na primeira oportunidade, substituem um jardim ou gramado por cimento ou cerâmica. E não perdem a chance de exterminar uma árvore.

 

O processo de anelamento

Uma das primeiras formas de ataque às árvores é o processo de anelamento. O Google esclarece: “O anelamento de árvores é a remoção de um anel de casca (floema) ao redor do tronco ou ramos, interrompendo o transporte de seiva elaborada para as raízes. Usado na agricultura para induzir produção e melhorar frutos, pode causar a morte da planta se feito no tronco, sendo considerado crime ambiental em áreas públicas ou privadas.” Então é isso: anelamento é crime. Um crime praticado corriqueiramente, como veremos a partir de registros fotográficos feitos desde os primeiros anos do século XXI.

As fotos 01 a 04 mostram árvores que sofreram o processo de anelamento para que morressem e, assim, pudessem ser retiradas. Na foto 01, algo semelhante a óleo queimado foi colocado na ferida aberta no tronco, para envenenar a árvore e apressar sua morte.



 

O assassinato de uma árvore

Nas fotos 05 a 10, o escriba registrou o assassinato no Jardim Paris, Estrada Fróes, de uma exuberante e umbrosa pata-de-vaca, que não causava qualquer problema: não quebrava a calçada, não ameçava qualquer fio, não dificultava a entrada na garagem. A árvore já tinha sofrido um anelamento extenso, mas insistia em sobreviver. Então foi feito novo anelamento, junto às raízes, e logo os madeireiros do asfalto começaram a destruir a árvore, até que restasse apenas um impreciso quadrilátero de terra nua e seca. Na foto 10, uma seta amarela indica o objetivo do dendrocídio (palavra ainda não dicionarizada e que significa ‘assassinato de árvore’): plantar uma risível palmeira decorativa, que jamais produziria uma sombra sob a qual o morador pudesse estacionar seu carro. (Ele passaria a estacionar sob a árvore do vizinho.)



 

Árvores mutiladas

Na sequência, são apresentadas fotos de árvores mutiladas basicamente pela prefeitura e pela companhia de energia elétrica – que muda de nome, de dono, mas não abandona o furor dendrocida. As instituições têm licença para mutilar; e matar, como veremos adiante.

Nas fotos 11 a 14, feitas em 2004, árvores mutiladas parecem se contorcer, angustiadas, na rua Gen. Pereira da Silva, em Icaraí.



Nas fotos 15 a 17, praticamente só restaram troncos de árvores na rua Mariz e Barros.



Nas fotos 18 e 19, a mutilação de amendoeiras na Praia de Icaraí.



Fotos 20 e 21: a exuberante amendoeira, que projetava charmosa galharia na direção do mar, foi incompreensivelmente mutilada.



Fotos 22 e 23: o que justifica que árvores sejam transformadas em tais esqueletos mutilados? Na foto 23, a moça do painel publicitário parece contemplar, perplexa, a galharia congelada em angustiada contorsão.



Fotos 24 a 26: árvores mutiladas no bairro de São Domingos.



Fotos 27 e 28: árvores transformadas em tridentes no bairro de Santa Rosa.



Fotos 29 a 31: No bairro de São Francisco, árvores transformadas em tridentes ou postes. Chama a atenção que em frente à Niterói Empresa de Lazer e Turismo (NELTUR), a árvore teve sua copa inteira e injustificadamente decepada.



 

Árvores eliminadas

Na foto 32, o verde preponderava, em 2007; na foto 33, a visão semiárida de hoje, 2026. Na foto 34, a seta azul mostra a razão da mudança: a árvore, que já vinha sendo maltratada e mutilada há anos, foi, finalmente, para gáudio da vizinhança dendrofóbica, exterminada. A foto 35 mostra um close da destruição.



As fotos 36 a 39 registram o extermínio de árvores na rua Ator Paulo Gustavo, desde quando (foto 36) a rua se chamava Cel. Moreira César.



As fotos 40 a 43 mostram túmulos possivelmente de acácias rosas, uma das quais, numa bela manhã de 2017, inspirou ao escriba o poema Chuva de flores:

Numa rua qualquer

na concreta calçada

a árvore

saudava os passantes

com uma chuva de flores



Na foto 44, num pitoresco recanto do bairro de Santa Rosa, a “hedionda cicatriz” deixada no lugar da árvore arrancada. Na foto 45, a seta mostra o cimento liso no lugar de uma árvore que o escriba chegou a conhecer.



Fotos 46 e 47: o ficus mutilado, registrado em 2005, em frente ao restaurante Torninha, na rua Nóbrega, finalmente foi exterminado em 2026.



Fotos 48 a 50: outro exuberante e saudável ficus, desta vez na rua Domingues de Sá, foi eliminado, já em 2005, deixando mais uma “hedionda cicatriz”.



As fotos 51 a 54 mostram o que restou de algumas árvores no bairro de São Francisco.



 

Curiosidades

A foto 55 mostra a lápide da árvore que havia na esquina das ruas Otávio Kelly e Domingues de Sá, no Jardim Icaraí (área de transição entre os bairros de Santa Rosa e Icaraí). A árvore, nesse caso, morreu de causas naturais: caiu numa tempestade. Mas a ninguém ocorreu plantar outra, de uma espécie mais robusta, menor, e menos suscetível às intempéries. As autoridades preferiram selar o ponto em que houve um dia uma bela árvore. A EMUSA (atual ION) registrou no cimento a data do funeral: 2 - 23 - 001 (23 de fevereiro de 2001). As ruas de Niterói, aliás, estão cheias de sepulturas semelhantes. Mas nenhuma outra com inscrição funerária: em geral, a calçada sofre uma criteriosa cirurgia plástica (que pode incluir a reconstituição do calçamento com pedras portuguesas), de modo a apagar completamente a lembrança da árvore abatida. Na foto 56, a plantação de fradinhos, num local da Alameda Carolina em que nada impediria a presença de várias árvores, foi substituída pela plantação de tubos de metal.



 

Belas-árvores

O subtítulo é uma brincadeira alusiva à tradicional expressão belas-artes. O pintor paranaense Albano de Carvalho, que viveu décadas em Niterói, abriu na cidade, com seu filho Adolfo, um curso de desenho e pintura. O escriba, por um breve período nos anos 1960, fez algumas aulas. Muitos anos depois reencontrou casualmente o professor Albano, já bem idoso, que o convidou a visitá-lo em sua casa. Então, em seus arquivos, no meio de desenhos e aquarelas, mostrou uma bela e delicada folha de árvore. Ele disse ao escriba que aquela linda folha era um lembrete de que nenhum artista podia competir com a perfeição da natureza.

Ao longo dos anos, o escriba fotografou árvores que haviam escapado à sanha dendrocida das instituições (privadas ou públicas) e da população de modo geral. E capturou, na Internet, imagens que mostram o quão exuberantes e belas podem ser as árvore quando, como queria Tom Jobim, são deixadas em paz. Abaixo, algumas dessas fotografias.

As fotos 57 e 58 mostram, no bairro de São Francisco, árvores que, protegidas em terrenos particulares, não puderam ser atacadas nem pela ENEL (antiga AMPLA, antiga CERJ), nem pela Prefeitura, nem por moradores dendrófobos. A foto 59 mostra lindo pau-ferro que resiste na rua Mariz e Barros.



Nas fotos 60 e 61, sapucaias exuberantes e ainda mais engalanadas que as pintadas por Batista da Costa (“Sapucaieiras Engalanadas”). Foram fotografadas num condomínio na rua Dr. Paulo César, no bairro de Santa Rosa.



Na foto 62, a gigantesca ficus elastica (também conhecida como figueira italiana) no bairro do Gragoatá. Segundo o Google, ela “é a única árvore tombada como patrimônio cultural, ecológico e paisagístico do município”. (Infelizmente, todas as demais árvores da cidade estão sob permanente risco de tombamento no pior sentido do termo.) A foto 63, no campus da UFF, também no Gragoatá, registra o quanto de lirismo e beleza podem as árvores trazer aos ambientes urbanos em geral.



Na foto 64, el árbol del Tule, no Estado de Oaxaca, México. Na foto 65, a samaúma, a “rainha da Amazônia”.



Foto 66: baobá, na Tanzânia, com idade estimada em 6 mil anos. Foto 67: um venerável carvalho na Inglaterra. Foto 68: a criatividade da natureza manifestada no pictórico eucalipto arco-íris.



Foto 69: milenar exemplar de jequitibá rosa, no Parque Estadual dos Três Picos, RJ. Foto 70: um jequitibá branco pleno e elegante.



Foto 71: árvore desconhecida, porém exuberante e generosa, registrada pelo escriba em viagem de Quissamã a Santa Maria Madalena, ambas as cidades no Estado do Rio de Janeiro. Foto 72: o escriba captou uma pincelada de Deus, com araucárias em primeiro plano.



Foto 73: a imagem, capturada na Internet, mostra o quão mais lindas as árvores podem tornar nossas vidas.



A foto 74 chegou ao escriba num post nas redes sociais. Mostra um rebanho de cabras abrigado sob a sombra de uma árvore. Vinha acompanhada exatamente dessa legenda – “A importância de uma árvore” –, e pedia ao usuário: “Compartilhe, por favor.”



O escriba está compartilhando. Mas não pode se esquecer de que, certa ocasião, conversando com uma transeunte sobre a destruição das árvores e o concomitante desaparecimento das sombras nas calçadas, ouviu-a disparar o comentário surreal, mas que explica muita coisa: “Sombra? Pra que sombra?”

sexta-feira, 6 de março de 2026

De criancinhas, sicários e eleições

 



Nelson M. Mendes

Nós não estamos sitiados por “comunistas” ávidos por tomar o poder e comer nossas criancinhas. Pelo contrário, uma das coisas que os famigerados “Arquivos Epstein” tem demonstrado é que a elite capitalista é que gosta de comer criancinhas – em todas as acepções do verbo “comer”. Mas há décadas a indústria cultural tenta nos fazer crer que estamos ameaçados por “comunistas”. Recentemente, um bolsonazista imbecil, entrevistado numa dessas cada vez mais esvaziadas manifestações de extrema direita, afirmava, convicto, que “eles” (uma difusa entidade que aparentemente reuniria Governo Federal e STF) querem tomar as propriedades das pessoas, para dividir com os pobres. Ora, o PT já conquistou a presidência cinco vezes, e não consta que qualquer pessoa tenha perdido um único bem; pelo contrário, uma das características dos governos petistas é a prosperidade generalizada, inclusive dos que já tinham boa situação.  Entretanto, aqueles que não tiveram formação sólida – não leram bons livros, não fizeram um bom curso universitário, não conversaram com mentes esclarecidas – se deixam envolver por esse discurso.

As instituições, de modo geral, trabalham em favor do poder econômico. Sempre foi assim. A imprensa brasileira, desde tempos imperiais, defende a classe dominante. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, se colocou a princípio contra a Abolição da Escravatura; só quando a causa se tornou uma corrente imparável é que ele aderiu. Do mesmo modo, a Rede Globo só passaria a noticiar as manifestações pelas “Diretas já”, nos anos 80 do século XX, quando ficou impossível fingir que nada estava acontecendo. O jornal O Globo se opôs ferozmente à criação do 13º salário por Jango: disse que seria “desastroso” para o país; e saudou entusiasticamente o golpe de 1964, um violento retrocesso em favor da elite econômica e do imperialismo estadunidense.


Hoje esses jornalões, mais do que nunca, defendem os poderosos – os empresários do agronegócio, os banqueiros, os bilionários. O Estadão, para fazer jus à sua tradição escravocrata, acaba de saudar, em editorial, a infame reforma trabalhista imposta por Milei à Argentina, que está sendo destroçada pelo governo ultraliberal.  A missão da imprensa, no momento, é condenar histericamente a derrubada da escala de trabalho 6 X 1 (seis dias de trabalho por um de descanso). Segundo essa imprensa, isso é mais uma coisa que vai “quebrar o Brasil”. Mas engordar banqueiros e rentistas comprometendo quase 50% do Orçamento Federal com  pagamento de juros é econômica e socialmente saudável. Lembrando ainda que os políticos empenhados em se opor a essa nova abolição trabalham numa escala 3 X 4, ou até 2 X 5 – três ou apenas dois dias de trabalho por semana...

Os mesmos setores da classe dominante e da imprensa que se opuseram à abolição da escravatura, ao 13º salário, e que hoje se opõem ao fim da escravocrata escala 6 X 1, dedicam boa parte de seu tempo a torpedear todos aqueles políticos que procuram trabalhar em prol do bem comum. (Não se alarmem! Não estou falando de Comunismo!)

A História mundial está repleta de mártires que tombaram exatamente porque desejavam construir um mundo com menos injustiça, menos dor, menos sangue. E, se não for conveniente assassinar esses líderes que fazem a humanidade caminhar para a frente, sempre se pode desacreditá-los, desmoralizá-los, manchá-los de lama. (Instituições como o FBI e a CIA têm profunda expertise sobre o assunto.) Aqui no Brasil, Getúlio, Jango, Brizola, Juscelino Kubitschek, Lula e Dilma foram alvos de todo tipo de acusações. Ao pesquisar no Google sobre Juscelino, encontro o que se aplica a todos os nomes acima citados: “Apesar de investigações e inquéritos que visavam desgastar sua imagem e bloquear sua carreira política, nenhuma denúncia foi comprovada [...]”

Há algumas décadas, o nome Lula é o grande fantasma das classes dominantes. A revista Veja (que Hélio Fernandes chamava de “sujíssima”) publicava nos anos 80: “Em caso de vitória de Lula, existe a possibilidade de elevação da temperatura social do país, com greves e invasões de terras numa escala como nunca se viu.” Então, Lula vem sendo pintado não apenas como um “comunista” – alguém que roubaria a propriedade dos outros, fecharia igrejas, destruiria a família e faria várias maldades semelhantes –, mas também como um ladrão no sentido estrito do termo. Vários bens mirabolantes já foram atribuídos a Lula (inclusive um triplex, assim como aconteceu com Juscelino) e à sua família. O seu filho Fábio Luís, que não tem o apelido de Lulinha, mas assim é chamado pela imprensa tendenciosa, já foi acusado de ser sócio da Friboi, da Oi, de ter uma fazenda milionária, de ter uma Ferrari de ouro, e assim por diante. Agora está artificialmente implicado na CPMI do INSS e teve seus sigilos quebrados – mas está tranquilo: anteriormente, 10 anos de sua vida foram investigados, sem que nada fosse encontrado. Aliás, seu advogado declarou que não haveria necessidade da quebra de sigilos; porque Fábio espontaneamente coloca todos os seus dados à disposição da Justiça. Só para comparar: o ex-presidente Jair Boçal Fascista decretou 1.108 sigilos de cem anos, e as falcatruas da familícia transbordam no meio da rua como esgoto de dutos entupidos.

As eleições vêm aí. O jogo sujo já começou. Influencers fantasiados de políticos, como Nikolas Ferreira – o campeão das fake news, e que fazia campanha política viajando em jatinho do banqueiro mafioso Vorcaro –, já estão em nova campanha, inventando as mais absurdas mentiras sobre o PT, Lula, sobre qualquer coisa que afete os interesses dos ricos e poderosos. A grande imprensa também está fechada com o grande capital. “Jornalistas de programa” (na definição genial de um criativo amigo), como Merval Pereira, Augusto Nunes, Eliane Cantanhede, Alexandre Garcia, Demétrio Magnoli e muitos outros jamais abandonam o esporte da procura de pelo em ovo, quando se trata de analisar os governos petistas. Para imensa tristeza dessa mídia venenosa e mentirosa, entretanto, na lista de 18 políticos amiguinhos de Vorcaro não há nenhum de partidos progressistas (PT, PSOL, etc.); são todos do “Centrão” ou da direita.

O Brasil – devemos sempre repetir – caminha para a frente: saiu do Mapa da Fome da ONU (ao qual havia voltado no desgoverno de Jair Boçal Fascista), tem discretíssima inflação, crescimento seguro, e está virtualmente numa situação de pleno emprego. Quem ganha até 5 mil reais não paga mais imposto de renda; e é possível que ainda este ano seja varrida para o lixo a escala 6 X 1, que mantém os trabalhadores sob um regime praticamente escravista. Tudo isso deveria deixar o povo feliz e orgulhoso. Porém, o povo não é informado sobre as realizações do governo. Enquanto Lula brilha no exterior, conquistando simpatias e mercados, os correspondentes brasileiros se empenham em fazer fofocas ou trazer temas periféricos, que nada têm a ver com a viagem. Um repórter desses deveria ser imediatamente demitido – se não estivesse fazendo exatamente o que mandam seus chefes e os patrões de seus chefes...

Isso é o que explica que Flávio Rachadinha, tão vagabundo e ladrão como o pai, Jair Boçal Fascista, esteja em condições de disputar a presidência em 2026 com Lula, na opinião de muitos o maior presidente brasileiro da História. Assim como o boçal-pai, o boçal-filho (que, aliás, desmaiou e se cagou num debate quando era candidato a prefeito do Rio), não poderia nem ser síndico – muito menos presidente. Mas a população é tangida como gado pela grande mídia, pelas informações que chegam através das redes sociais, e por pastores picaretas, que só pensam em dinheiro e de fato são ateus – porque se acreditassem no que pregam, teriam medo de ir para o Inferno...

O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman se refere aos jornalistas que são pagos para mentir em favor do poder econômico (praticamente todos os da grande mídia) como “sicários da plutocracia”. Sicário significa mercenário: guerreiro de aluguel, assassino de aluguel. Agora que o termo foi popularizado com o escândalo do banqueiro mafioso Daniel Vorcaro, que deu esse apelido a um auxiliar (aliás, neste momento entre a vida e a morte, depois de suspeita tentativa de suicídio), vamos nos manter em guarda contra os sicários que, nas Tvs, nas rádios, nos portais da Internet e nas redes sociais, levam a Senzala (99,9% da população – todos nós) a acreditar nas mentiras que convêm à Casa-Grande.

Lembremos: o que é bom para Daniel Vorcaro e para os bilionários, de modo geral, não é bom para o Brasil.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Terraplanismo climático

 

Uma imagem contendo estrela, água, céu noturno

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Nelson M. Mendes

A Odontologia estabeleceu, há muito tempo, que uma boa higiene bucal é importante para a saúde dentária, e que o açúcar é um dos alimentos que mais contribuem para o desenvolvimento de cáries. Estou correto? Acho que 99,999% dos dentistas diriam que sim.

Mas eu não me espantaria se aparecesse um maluco dizendo que ninguém precisa usar fio dental, escovar os dentes, e que o açúcar não é prejudicial para os dentes. Afinal, antigamente acreditava-se que banho fazia mal à saúde, e as pessoas tomavam apenas um banho por ano. (Sabe-se de pessoas que nunca tomaram banho na vida.)

Luiz Carlos Molion é um climatologista, professor aposentado, que corresponde ao 0,001% (espero que a matemática esteja certa) da comunidade odontológica que acha higiene bucal uma besteira, e garante que açúcar não faz mal para os dentes. NINGUÉM no meio científico leva esse cara a sério.  Diz o Google sobre Molion: É um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil, alegando que o homem e suas emissões de gases estufa na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global.

Para quem não está familiarizado com a palavra negacionismo: trata-se de uma tendência, ou corrente cultural, ou inclinação emocional (neurótica...) a negar aquilo que está científica ou historicamente demonstrado. Por exemplo: muitas pessoas, de índole nazifascista, negam até hoje que tenha havido o Holocausto – aquele programa de Hitler que consistiu no extermínio, nas câmaras de gás, de milhões de pessoas, 6 milhões delas judias. (Hoje os judeus negam que haja genocídio de palestinos em Gaza.) Ainda há pouco tempo, Jair Boçal Fascista negava que a Covid-19 fosse coisa séria (era “uma gripezinha”), negava a única solução (a vacina) e insistia em tratamentos inúteis e perigosos (Cloroquina e Ivermectina). Especialistas estimam que pelo menos 400 mil vidas poderiam ter sido salvas se Jair Boçal Fascista tivesse agido como um presidente de verdade no enfrentamento da Pandemia.

É claro que o homem não pode produzir, no clima do planeta, o impacto imediato e devastador resultante da erupção de um supervulcão, como o que existe debaixo do Parque de Yellowstone, nos EUA, ou da queda de um grande meteoro. Mas os cientistas já provaram que a emissão de gases de efeito estufa, paralelamente à industrialização, vem fazendo a temperatura subir perigosamente. Vejamos o que diz o Google:

A temperatura média global já aumentou cerca de 1,34°C a 1,55°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900), com 2024 sendo o ano mais quente já registrado e superando temporariamente a marca de 1,5°C. O limite crítico estabelecido pelo Acordo de Paris é de 1,5°C para evitar consequências catastróficas, com um limite máximo de 2°C.

Molion insinua que deve haver algum interesse por trás da ideia do aquecimento global. Ora, o que todos sabemos é que há gigantescos interesses em negar que o uso de combustíveis fósseis produz gases que levam ao efeito estufa, ao aquecimento do planeta. Os ricos produtores de petróleo sempre podem contratar cientistas para provar que esse negócio de aquecimento global é uma “besteira”, como diz Molion, assim como a indústria de tabaco pagou cientistas para demonstrar que o cigarro não fazia mal à saúde. (Houve um sujeito que escreveu um sólido trabalho provando que Napoleão Bonaparte jamais existiu, é uma figura mitológica. Era apenas um exercício de retórica, mas deve ter abalado as convicções de muita gente... Outro que brincou com as convicções alheias foi o físico Alan Sokal: em 1996 ele submeteu o artigo Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica à revista Social Text. Segundo o Google, Sokal propunha que a gravidade quântica é uma construção social e linguística”, e seu objetivo era “testar o rigor intelectual da revista diante de “um artigo repleto de absurdos. A revista não consultou especialistas e publicou o artigo, que gerou grande repercussão. Semanas depois, numa outra revista, Sokal revelou que era tudo uma brincadeirinha, uma farsa.)

O professor aposentado também garante que o desmatamento não causa nenhum problema. Ora, mais uma vez, isso é como negar a lei da gravidade, negar que açúcar causa cáries, negar o que a ciência já demonstrou fartamente.

O extraordinário fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, falecido em 2025, voltou em 1998 à fazenda da família, em Minas Gerais, e descobriu que o desmatamento a havia transformado num deserto. Sebastião decidiu que iria recuperar a terra. A revista Superinteressante fez matéria sobre o assunto: “Como Sebastião Salgado plantou uma floresta do zero – e salvou 2 mil nascentes”. O documentário “O Sal da Terra”, além de nos deixar atordoados com a beleza e o poder jornalístico das fotografias de Salgado, registra que o reflorestamento fez voltarem até as onças pintadas...

Eu mesmo tive, em ponto pequeno (como se dizia), uma experiência semelhante à de Sebastião Salgado: nos anos 60, toda a família costumava passar férias no sítio dos nossos avós. Meu pai, então, resolveu comprar um outro sítio nas proximidades – um pouco mais escondido, encostado num morro. Eu fiquei fascinado, na primeira vez que visitei o sítio, com um autêntico “olho d’água”, com o diâmetro talvez de uma mangueira de bombeiros, que saía do chão uns dez centímetros, como um pequeno chafariz. Mais para os fundos do terreno, escorria pela lisa pedra uma cortina d’água que meu pai logo batizou de “Cascatinha”, na qual passamos a nos refrescar nos dias de verão.

Corta para os anos 80. O desmatamento na região havia progredido. E nem uma gota de água jorrava do terreno antes tão pródigo. Como não havia nenhum Sebastião Salgado para promover o reflorestamento, jamais as nascentes renasceram.

O climatologista Luiz Carlos Molion não acredita na relação entre desmatamento e desaparecimento de nascentes. É o equivalente a um dentista que não acredita na importância da higiene bucal. Até Dom João VI sabia da relação entre floresta e preservação dos mananciais: em 1817, diante das secas nas fontes de água na cidade, proibiu o corte de árvores em algumas regiões críticas. Como, entretanto, o problema não foi totalmente resolvido, em 1861 Dom Pedro II desapropriou fazendas de café e iniciou o reflorestamento. Assim surgiu a nossa estimada Floresta da Tijuca – uma montanha verde com muitas nascentes e que, destacando-se no meio da cidade, impressiona o turista estrangeiro muito mais do que as famosas praias.

Molion insiste que a capacidade humana de interferir no clima é local. Ora, hoje já está mais que estabelecido que o planeta é um só, e que tudo tem reflexos em tudo. Os cientistas – como Carlos Nobre, esse, sim, um climatologista mundialmente respeitado – estudaram o fenômeno dos rios aéreos que fluem da Amazônia rumo ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul: as nuvens do Norte são conduzidas pelos ventos e causam as chuvas que tornam possível a agricultura em grande parte do país.  Sem esses rios aéreos, todo o miolo do Brasil seria um deserto.

 

Mapa

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Molion diz que é preciso baixar o poder dos ambientalistas, e que o Brasil é muito visado porque “hoje é o único país que pode aumentar a produção de alimentos no mundo”. Ele não explica, mas parece dar a entender que toda essa “besteira” de preocupação com mudanças climáticas é uma espécie de complô para prejudicar o produtor rural – que, segundo ele, é um herói nacional: “O produtor é o grande ator nisso. É graças ao agronegócio que esse país resiste. A roubalheira é tão grande que é até impossível medir quanto está sendo roubado.

Bem, a roubalheira no Brasil é realmente imensa. Nós começamos sendo roubados pelos portugueses; mas fomos roubados pelos ingleses e pelos europeus de modo geral. A partir do século 20, nós passamos a ser explorados pelos Estados Unidos – que promoveram até golpes de Estado no Brasil, para que os interesses estadunidenses fossem defendidos por presidentes serviçais.

Independentemente dessa roubalheira internacional (que aliás sempre contou com a colaboração das classes brasileiras mais abastadas), sempre se roubou muito aqui mesmo dentro do país.

As instituições, no Brasil (creio que no mundo), existem para defender o poder econômico. Daniel Vorcaro, que perpetrou talvez a maior fraude financeira da história do Brasil, poderá, graças aos seus advogados e à mídia, que tenta mudar de assunto para salvar o bandido e, se possível, desacreditar o STF e incriminar o próprio Lula (que nada tem a ver com a história), Vorcaro, dizia eu, poderá escapar da Justiça. (Embora depois que até generais golpistas foram presos, isso tenha ficado mais difícil.) Entretanto, se um faminto roubar um pacote de biscoitos, poderá ser jogado numa cela infecta, onde aguardará por anos o julgamento.

No texto A verdade sobre a corrupção, está registrado que 32% da roubalheira cabem “ao crime organizado, 65% a manobras empresariais ilícitas... e apenas 3% à corrupção política”. Ou seja: os grandes criminosos não são os políticos, como a mídia desonesta gosta de dizer, e nem mesmo os traficantes de drogas ou armas. Os grandes bandidos são os do colarinho branco – como o banqueiro Vorcaro, que, aliás, tem na mão um monte de políticos dos partidos de direita. (Não é por acaso: esses partidos reúnem personalidades que pensam muito em enriquecer e nem um pouco no povo.)

Luiz Carlos Molion diz que é o agronegócio que sustenta o Brasil, acossado pela corrupção. Bem, em primeiro lugar a questão da terra, no Brasil, é um caso de polícia desde os tempos coloniais: a terra foi e continua sendo roubada dos indígenas; a terra foi e continua sendo roubada dos camponeses, dos ribeirinhos, dos quilombolas. A grilagem (roubo de terras através de documentos falsos) é uma instituição no Brasil. Em 20 de fevereiro de 2005, O Globo publicou matéria com o título: “Pará registra maior fraude fundiária da História do país”. A reportagem falava de uma propriedade, no Pará, com duas vezes o tamanho do Estado do Rio, em nome de um sujeito que jamais existiu – um fake forjado por um grupo de grileiros. (E atenção: O Globo tradicionalmente defende o poder econômico, defende os militares, defende os interesses estrangeiros; está muito longe de ser um jornal “comunista”.) Cabe lembrar, a propósito, que não é o MST que toma terras alheias: o MST ocupa terras não utilizadas, abandonadas, para produzir os alimentos que vão para a nossa mesa. (O badalado agronegócio produz basicamente para exportação.) O Google informa, aliás, que “a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no país. E informa também que o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina”. O sociólogo Emir Sader escreveu em 19 de dezembro de 2004, no Jornal do Brasil, interessantíssimo artigo, do qual destaco apenas uma passagem: “O MST alfabetizou mais gente no campo do que todos os programas oficiais de alfabetização. Seu sistema educacional inclui 1900 escolas [...] Há 10 cursos de formação de professores, entre tantos outros. [...] Produzem sem agrotóxicos, preservam as sementes naturais, organizam cooperativas, comercializam seus produtos, apoiam os que ainda lutam pela terra.” Em 2004 Lula estava no meio do seu primeiro governo. De lá para cá, os serviços prestados pelo MST ao país devem ter se tornado muito mais significativos.

Se Molion insinua que os ambientalistas podem estar ganhando alguma coisa com a “besteira” da teoria das mudanças climáticas, nós podemos perguntar se ele não estaria sendo financiado pelos gananciosos empresários do agronegócio, que não querem nem ouvir falar em mudanças climáticas, não querem qualquer obstáculo a que continuem devastando o planeta e comprometendo o futuro da próxima geração. (Sim: não se trata mais de “futuras gerações”. A catástrofe está na esquina.)

E não é verdade que o agronegócio sustenta o Brasil. De fato, com o processo de desindustrialização promovido pelos governos neoliberais, que puseram a perder o que foi construído por Getúlio Vargas (Petrobras, CSN, Vale do Rio Doce, etc.), nós fomos voltando a ser um país exportador de matérias-primas e produtos agrícolas. Hoje o agronegócio tem importante participação na nossa pauta de exportações. O principal produto exportado é a soja em grãos... que vai servir de alimento para animais no exterior. Não deveria ser assim, mas é.

Sabendo disso, Lula, um dos maiores (o maior, na opinião de muitos) estadistas do mundo atual, e que nunca foi nenhum “comunista”, prestigia o agronegócio com verbas e tecnologia. (A produtividade dos cultivos resulta, em grande parte, dos estudos realizados pela Embrapa.) Por isso, noticia-se: “Agonegócio brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações de US$ 169 bilhões e superávit de US$ 149,07 bilhões”. Parece impressionante. Mas outra notícia merece destaque: “Governo Federal lança Plano Safra 2025/2026 com R$ 516,2 bilhões para impulsionar o agro brasileiro”. Além do mais, ainda está em vigor a incrível Lei Kandir, do governo FHC, que "isenta a cobrança de ICMS sobre exportações de produtos primários e semielaborados." Ou seja: os empresários do agronegócio não têm motivos para reclamar de Lula, do PT, de impostos, da vida.

Um estadunidense com cerca de 25 anos me contou que, uma vez, conversava com seu pai sobre os malefícios que as agressões ambientais trariam para o planeta em algumas décadas. O pai comentou, com um muxoxo (palavra outrora muito apreciada pelos escritores): “Eu já não estarei mais aqui.” O rapaz respondeu: “Mas eu vou estar! Seus netos vão estar!”

Depois de nós, o dilúvio.” (Après nous, le déluge.) A frase, que teria sido dita pela Marquesa de Pompadour para animar Luís XV, deve ser o lema da vida de Luiz Carlos Molion, um dos mais perfeitos representantes do terraplanismo climático. Com uma alternativa: “Depois de nós, a desertificação do planeta.”

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Eleição & Mentiras

 



Nelson M. Mendes

 

O povo tem a tendência, em grande parte induzido pela propaganda, a votar nos seus algozes. Vide Bolsonaro no Brasil, Millei na Argentina e Trump nos EUA. A jornalista brasileira Márcia Carmo, correspondente em Buenos Aires, contou que uma garota argentina, bem jovem, lhe disse que, como as coisas estavam ruins no país, ela iria votar num “loquito”, na esperança de que ele pudesse melhorar a situação. O “loquito” era Javier Millei, que está simplesmente destruindo e entregando o país. (Um professor de Economia explicou que a reforma trabalhista argentina, aprovada na primeira quinzena de fevereiro de 2026, é muito mais nefasta do que a já hedionda reforma feita pelo usurpador ex-presidente brasileiro Michel Temer.) Depois de tomar várias medidas contracionistas, tipicamente neoliberais (no estilo vender o carro para pagar a gasolina), Millei conseguiu relativo (muito relativo) controle da inflação. Claro: se o povo está sem emprego e cada vez mais miserável, não há consumo e os preços se mantêm relativamente estáveis. Mas mesmo essa estabilidade mórbida e precária já se está rompendo: a inflação está em 2,9% ao mês! Enquanto isso, o “nordestino analfabeto e cachaceiro”, auxiliado sobretudo pelo ministro Haddad, conseguiu que a inflação brasileira ficasse em 4,26% no ano de 2025. E isso com crescimento econômico, investimentos sociais, e taxa de desemprego de 5,6%, “a menor registrada na série histórica do IBGE (iniciada em 2012)”, como explica o Google. E vale lembrar: apesar dos juros imorais cobrados pelo Banco Central independente (dependente do mercado financeiro), que engessam a economia; e apesar de um Congresso hostil, recheado de imbecis e/ou picaretas, como André Fernandes, Arthur Lira, Bia Kicis, Carlos Jordy, Caroline De Toni, Ciro Nogueira, Damares Alves, Davi Alcolumbre, Delegado Caveira, Paulo Bilynskyj, Eduardo Girão, Flávio Bolsonaro, General Girão, General Pazuello, Gilvan da Federal, Gustavo Gayer, Hugo Motta, Jorge Seif, Julia Zanatta, Kim Kataguiri, Magno Malta, Marcelo Crivella, Marcel van Hattem, Marcos do Val, Marcos Rogério, Maurício do Vôlei, Marco Feliciano, Nikolas Ferreira, Rosangela Moro, Sérgio Moro, Sóstenes Cavalcante, Tiririca, Zé Trovão, Delegado Zucco e muitos outros, frequentemente com nomes antecedidos de patentes ou títulos: Pastor Fulano, Capitão Sicrano, etc. (Se o leitor tiver paciência e estômago, sugiro que procure saber da contribuição que esses parlamentares deram ao país; descobrirão que não fizeram nada além de trabalhar contra o povo e gravar vídeos lacradores para serem postados nas redes sociais.)

As eleições de 2026 vêm aí. E já começou a temporada de fake news (mentiras). Políticos desclassificados, como os acima citados, já começaram a atacar o governo federal com as mais absurdas acusações. (Não podemos esquecer que mentiras levaram Getúlio ao suicídio, prepararam o terreno para o golpe de 1964, resultaram no impeachment fraudulento da presidente Dilma e na igualmente fraudulenta prisão de Lula.)

O grande assunto do momento é o escândalo do banco Master, que começou no governo Bolsonaro e contou com a complacência (cumplicidade?) do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – neto daquele que Ziraldo considerava “o pior brasileiro do século XX”. Como aconteceu com o escândalo do INSS, o do banco Master também começou no governo Bolsonaro e também só no governo Lula passou a ser investigado. (No governo do Jair Boçal não havia corrupção; porque ele trocava até Ministro da Justiça para proteger bandidos amigos, e sobretudo da família. O que ele fez para impedir que os crimes de Flávio fossem investigados é bem conhecido – até porque o próprio Boçal declarou que não deixaria ninguém “foder” sua família.)

Como sempre, o objetivo do mercado financeiro, da grande mídia e dos políticos do “centrão” ou da extrema direita (mídia e tais políticos são instrumentos do poder financeiro) é de alguma forma envolver Lula com a história do banco Master. O alvo é sempre Lula; porque ele representa tudo o que as elites, eternamente escravocratas, não querem: crescimento com distribuição de renda e benefícios sociais. Essas elites pensam exatamente como o personagem Justo Veríssimo, do Chico Anísio: “Pobre tem que morrer.”

Entretanto, essa mídia mentirosa e esses políticos raivosos e desonestos (dos quais Nikolas Ferreira talvez seja o maior representante) estão com azar; porque nenhum nome do PT, do PSOL ou de qualquer partido progressista (progressista é quem deseja menos desigualdade e miséria) aparece nas investigações. Mas aparecem os nomes do senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, de Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, de Cláudio Castro (PL), governador do Rio de Janeiro, de Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado, e de uma penca de prefeitos. Jair Boçal Fascista (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparecem no bolo porque Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro gângster Daniel Vorcaro e ele próprio envolvido até o pescoço na fraude, foi o maior financiador das campanhas de ambos. (Bandido só financia político bandido.)

Por outro lado, essa corja representante do poder financeiro não recua nem diante da verdade meridiana e inquestionável. Se alguém diz que 2+2=4, esses fantoches do dinheiro dirão, como numa charge fotográfica do saudoso Pasquim que aludia ao então ministro Simonsen: “No entanto...”

Essa experiência eu tive pessoalmente. Muitas vezes, no finado Orkut ou no Facebook, eu expunha minhas opiniões criteriosamente, emendando argumentos com dados, nomes, contextualização histórica e até referências bibliográficas. No final, o interlocutor escrevia uma frase de meia-dúzia de palavras sem sustentação, desconexas, e achava que tinha destruído todo o meu arrazoado. Como discutir com quem acredita que a Terra é plana, que Cloroquina cura Covid-19 ou que a família Bolsonaro é honesta e quer o bem do país?...

Por isso, a mídia desonesta, os políticos desonestos e os eleitores desonestos ou ingênuos insistem em criar um tumulto informacional que possa dar a impressão de que, no fim das contas, Lula é o “poderoso chefão” de todo um esquema de corrupção – como o bandido Dallagnol tentou demonstrar com aquele ridículo PowerPoint na época da Lava a Jato. (Quando se revolve indiscriminadamente o lodo no fundo de um lago, fica impossível enxergar com clareza. Assim como Chacrinha, que disse ter vindo ao mundo não para explicar, mas para confundir, a grande imprensa, hoje rapidamente replicada pelas redes sociais, não quer a verdade, mas a confusão que lhe permita proclamar a verdade que seja conveniente a seus donos – sabendo-se que hoje praticamente toda a mídia pertence a grupos financeiros.)

O objetivo da grande mídia e desses políticos picaretas (muitos em pânico com a possibilidade de que a verdade sobre o caso Master venha à tona), agora, é desacreditar o STF – o que pastor/gângster Silas Malafaia sempre tentou, para procurar salvar da cadeia o golpista Jair Boçal Fascista. O método é revolver o fundo do lago, deixar turvas as águas, “criar um clima”, como disse o veterano jornalista Lalo Leal em entrevista ao Bom Dia 247, de modo que fique pairando, sobre determinados personagens, uma vaga aura de culpa, de responsabilidade. (Não custa lembrar: nunca se provou nada contra os que eram vítimas de acusações de corrupção, pelo menos desde os tempos de Getúlio Vargas. A exceção foi Collor – hoje finalmente preso, ainda que em prisão domiciliar.)

Muitas pessoas, acertadamente, deixaram de confiar na grande mídia; que, no Brasil e no mundo, se limita a dizer o que o poder econômico manda. Mas saíram da frigideira e caíram no fogo: acreditam em tudo que chega pelas redes sociais.

Ora, quem confiaria num médico que tivesse sido formado pelo Facebook, Instagram, WhatsApp ou Tik Tok? As informações picotadas que chegam pelas redes sociais são, em sua imensa maioria, superficiais e distorcidas; não têm lastro, não têm fundamento. E o Jornal da USP publicou que, segundo relatório da OCDE, os “brasileiros são os piores em identificar notícias falsas”. Todos os grandes jornais, todas as grandes redes de rádio e TV continuam mentindo e desinformando; mas agora essa grande mídia tem ajuda valiosa das redes sociais, onde as mentiras se propagam como fogo morro acima em mato seco.

O cidadão tem de se vacinar contra a desinformação, contra as mentiras – hoje chamadas de fake news. E só existe uma vacina contra a desinformação: a informação. E informação não se obtém no Tik Tok, assim como nele o estudante de Medicina não encontra o saber necessário a que se torne um médico.

Se o cidadão não tiver informação sólida, técnica, fidedigna, encontrada em textos fundamentados de autores competentes e confiáveis, ele será levado a votar não em quem representa seus legítimos interesses, mas naquele que defende os interesses dos banqueiros, dos bilionários e dos grandes criminosos de maneira geral.

O cidadão, o eleitor, não se pode deixar manipular como um fantoche bobalhão.