sexta-feira, 6 de março de 2026

De criancinhas, sicários e eleições

 



Nelson M. Mendes

Nós não estamos sitiados por “comunistas” ávidos por tomar o poder e comer nossas criancinhas. Pelo contrário, uma das coisas que os famigerados “Arquivos Epstein” tem demonstrado é que a elite capitalista é que gosta de comer criancinhas – em todas as acepções do verbo “comer”. Mas há décadas a indústria cultural tenta nos fazer crer que estamos ameaçados por “comunistas”. Recentemente, um bolsonazista imbecil, entrevistado numa dessas cada vez mais esvaziadas manifestações de extrema direita, afirmava, convicto, que “eles” (uma difusa entidade que aparentemente reuniria Governo Federal e STF) querem tomar as propriedades das pessoas, para dividir com os pobres. Ora, o PT já conquistou a presidência cinco vezes, e não consta que qualquer pessoa tenha perdido um único bem; pelo contrário, uma das características dos governos petistas é a prosperidade generalizada, inclusive dos que já tinham boa situação.  Entretanto, aqueles que não tiveram formação sólida – não leram bons livros, não fizeram um bom curso universitário, não conversaram com mentes esclarecidas – se deixam envolver por esse discurso.

As instituições, de modo geral, trabalham em favor do poder econômico. Sempre foi assim. A imprensa brasileira, desde tempos imperiais, defende a classe dominante. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, se colocou a princípio contra a Abolição da Escravatura; só quando a causa se tornou uma corrente imparável é que ele aderiu. Do mesmo modo, a Rede Globo só passaria a noticiar as manifestações pelas “Diretas já”, nos anos 80 do século XX, quando ficou impossível fingir que nada estava acontecendo. O jornal O Globo se opôs ferozmente à criação do 13º salário por Jango: disse que seria “desastroso” para o país; e saudou entusiasticamente o golpe de 1964, um violento retrocesso em favor da elite econômica e do imperialismo estadunidense.


Hoje esses jornalões, mais do que nunca, defendem os poderosos – os empresários do agronegócio, os banqueiros, os bilionários. O Estadão, para fazer jus à sua tradição escravocrata, acaba de saudar, em editorial, a infame reforma trabalhista imposta por Milei à Argentina, que está sendo destroçada pelo governo ultraliberal.  A missão da imprensa, no momento, é condenar histericamente a derrubada da escala de trabalho 6 X 1 (seis dias de trabalho por um de descanso). Segundo essa imprensa, isso é mais uma coisa que vai “quebrar o Brasil”. Mas engordar banqueiros e rentistas comprometendo quase 50% do Orçamento Federal com  pagamento de juros é econômica e socialmente saudável. Lembrando ainda que os políticos empenhados em se opor a essa nova abolição trabalham numa escala 3 X 4, ou até 2 X 5 – três ou apenas dois dias de trabalho por semana...

Os mesmos setores da classe dominante e da imprensa que se opuseram à abolição da escravatura, ao 13º salário, e que hoje se opõem ao fim da escravocrata escala 6 X 1, dedicam boa parte de seu tempo a torpedear todos aqueles políticos que procuram trabalhar em prol do bem comum. (Não se alarmem! Não estou falando de Comunismo!)

A História mundial está repleta de mártires que tombaram exatamente porque desejavam construir um mundo com menos injustiça, menos dor, menos sangue. E, se não for conveniente assassinar esses líderes que fazem a humanidade caminhar para a frente, sempre se pode desacreditá-los, desmoralizá-los, manchá-los de lama. (Instituições como o FBI e a CIA têm profunda expertise sobre o assunto.) Aqui no Brasil, Getúlio, Jango, Brizola, Juscelino Kubitschek, Lula e Dilma foram alvos de todo tipo de acusações. Ao pesquisar no Google sobre Juscelino, encontro o que se aplica a todos os nomes acima citados: “Apesar de investigações e inquéritos que visavam desgastar sua imagem e bloquear sua carreira política, nenhuma denúncia foi comprovada [...]”

Há algumas décadas, o nome Lula é o grande fantasma das classes dominantes. A revista Veja (que Hélio Fernandes chamava de “sujíssima”) publicava nos anos 80: “Em caso de vitória de Lula, existe a possibilidade de elevação da temperatura social do país, com greves e invasões de terras numa escala como nunca se viu.” Então, Lula vem sendo pintado não apenas como um “comunista” – alguém que roubaria a propriedade dos outros, fecharia igrejas, destruiria a família e faria várias maldades semelhantes –, mas também como um ladrão no sentido estrito do termo. Vários bens mirabolantes já foram atribuídos a Lula (inclusive um triplex, assim como aconteceu com Juscelino) e à sua família. O seu filho Fábio Luís, que não tem o apelido de Lulinha, mas assim é chamado pela imprensa tendenciosa, já foi acusado de ser sócio da Friboi, da Oi, de ter uma fazenda milionária, de ter uma Ferrari de ouro, e assim por diante. Agora está artificialmente implicado na CPMI do INSS e teve seus sigilos quebrados – mas está tranquilo: anteriormente, 10 anos de sua vida foram investigados, sem que nada fosse encontrado. Aliás, seu advogado declarou que não haveria necessidade da quebra de sigilos; porque Fabiano espontaneamente coloca todos os seus dados à disposição da Justiça. Só para comparar: o ex-presidente Jair Boçal Fascista decretou 1.108 sigilos de cem anos, e as falcatruas da familícia transbordam no meio da rua como esgoto de dutos entupidos.

As eleições vêm aí. O jogo sujo já começou. Influencers fantasiados de políticos, como Nikolas Ferreira – o campeão das fake news, e que fazia campanha política viajando nos jatinhos do banqueiro mafioso Vorcaro –, já estão em nova campanha, inventando as mais absurdas mentiras sobre o PT, Lula, sobre qualquer coisa que afete os interesses dos ricos e poderosos. A grande imprensa também está fechada com o grande capital. “Jornalistas de programa” (na definição genial de um criativo amigo), como Merval Pereira, Augusto Nunes, Eliane Cantanhede, Alexandre Garcia, Demétrio Magnoli e muitos outros jamais abandonam o esporte da procura de pelo em ovo, quando se trata de analisar os governos petistas. Para imensa tristeza dessa mídia venenosa e mentirosa, entretanto, na lista de 18 políticos amiguinhos de Vorcaro não há nenhum de partidos progressistas (PT, PSOL, etc.); são todos do “Centrão” ou da direita.

O Brasil – devemos sempre repetir – caminha para a frente: saiu do Mapa da Fome da ONU (ao qual havia voltado no desgoverno de Jair Boçal Fascista), tem discretíssima inflação, crescimento seguro, e está virtualmente numa situação de pleno emprego. Quem ganha até 5 mil reais não paga mais imposto de renda; e é possível que ainda este ano seja varrida para o lixo a escala 6 X 1, que mantém os trabalhadores sob um regime praticamente escravista. Tudo isso deveria deixar o povo feliz e orgulhoso. Porém, o povo não é informado sobre as realizações do governo. Enquanto Lula brilha no exterior, conquistando simpatias e mercados, os correspondentes brasileiros se empenham em fazer fofocas ou trazer temas periféricos, que nada têm a ver com a viagem. Um repórter desses deveria ser imediatamente demitido – se não estivesse fazendo exatamente o que mandam seus chefes e os patrões de seus chefes...

Isso é o que explica que Flávio Rachadinha, tão vagabundo e ladrão como o pai, Jair Boçal Fascista, esteja em condições de disputar a presidência em 2026 com Lula, na opinião de muitos o maior presidente brasileiro da História. Assim como o boçal-pai, o boçal-filho (que, aliás, desmaiou e se cagou num debate quando era candidato a prefeito do Rio), não poderia nem ser síndico – muito menos presidente. Mas a população é tangida como gado pela grande mídia, pelas informações que chegam através das redes sociais, e por pastores picaretas, que só pensam em dinheiro e de fato são ateus – porque se acreditassem no que pregam, teriam medo de ir para o Inferno...

O prêmio Nobel de Economia Paul Krugman se refere aos jornalistas que são pagos para mentir em favor do poder econômico (praticamente todos os da grande mídia) como “sicários da plutocracia”. Sicário significa mercenário: guerreiro de aluguel, assassino de aluguel. Agora que o termo foi popularizado com o escândalo do banqueiro mafioso Daniel Vorcaro, que deu esse apelido a um auxiliar (aliás, neste momento entre a vida e a morte, depois de suspeita tentativa de suicídio), vamos nos manter em guarda contra os sicários que, nas Tvs, nas rádios, nos portais da Internet e nas redes sociais, levam a Senzala (99,9% da população – todos nós) a acreditar nas mentiras que convêm à Casa-Grande.

Lembremos: o que é bom para Daniel Vorcaro e para os bilionários, de modo geral, não é bom para o Brasil.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Terraplanismo climático

 

Uma imagem contendo estrela, água, céu noturno

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Nelson M. Mendes

A Odontologia estabeleceu, há muito tempo, que uma boa higiene bucal é importante para a saúde dentária, e que o açúcar é um dos alimentos que mais contribuem para o desenvolvimento de cáries. Estou correto? Acho que 99,999% dos dentistas diriam que sim.

Mas eu não me espantaria se aparecesse um maluco dizendo que ninguém precisa usar fio dental, escovar os dentes, e que o açúcar não é prejudicial para os dentes. Afinal, antigamente acreditava-se que banho fazia mal à saúde, e as pessoas tomavam apenas um banho por ano. (Sabe-se de pessoas que nunca tomaram banho na vida.)

Luiz Carlos Molion é um climatologista, professor aposentado, que corresponde ao 0,001% (espero que a matemática esteja certa) da comunidade odontológica que acha higiene bucal uma besteira, e garante que açúcar não faz mal para os dentes. NINGUÉM no meio científico leva esse cara a sério.  Diz o Google sobre Molion: É um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil, alegando que o homem e suas emissões de gases estufa na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global.

Para quem não está familiarizado com a palavra negacionismo: trata-se de uma tendência, ou corrente cultural, ou inclinação emocional (neurótica...) a negar aquilo que está científica ou historicamente demonstrado. Por exemplo: muitas pessoas, de índole nazifascista, negam até hoje que tenha havido o Holocausto – aquele programa de Hitler que consistiu no extermínio, nas câmaras de gás, de milhões de pessoas, 6 milhões delas judias. (Hoje os judeus negam que haja genocídio de palestinos em Gaza.) Ainda há pouco tempo, Jair Boçal Fascista negava que a Covid-19 fosse coisa séria (era “uma gripezinha”), negava a única solução (a vacina) e insistia em tratamentos inúteis e perigosos (Cloroquina e Ivermectina). Especialistas estimam que pelo menos 400 mil vidas poderiam ter sido salvas se Jair Boçal Fascista tivesse agido como um presidente de verdade no enfrentamento da Pandemia.

É claro que o homem não pode produzir, no clima do planeta, o impacto imediato e devastador resultante da erupção de um supervulcão, como o que existe debaixo do Parque de Yellowstone, nos EUA, ou da queda de um grande meteoro. Mas os cientistas já provaram que a emissão de gases de efeito estufa, paralelamente à industrialização, vem fazendo a temperatura subir perigosamente. Vejamos o que diz o Google:

A temperatura média global já aumentou cerca de 1,34°C a 1,55°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900), com 2024 sendo o ano mais quente já registrado e superando temporariamente a marca de 1,5°C. O limite crítico estabelecido pelo Acordo de Paris é de 1,5°C para evitar consequências catastróficas, com um limite máximo de 2°C.

Molion insinua que deve haver algum interesse por trás da ideia do aquecimento global. Ora, o que todos sabemos é que há gigantescos interesses em negar que o uso de combustíveis fósseis produz gases que levam ao efeito estufa, ao aquecimento do planeta. Os ricos produtores de petróleo sempre podem contratar cientistas para provar que esse negócio de aquecimento global é uma “besteira”, como diz Molion, assim como a indústria de tabaco pagou cientistas para demonstrar que o cigarro não fazia mal à saúde. (Houve um sujeito que escreveu um sólido trabalho provando que Napoleão Bonaparte jamais existiu, é uma figura mitológica. Era apenas um exercício de retórica, mas deve ter abalado as convicções de muita gente... Outro que brincou com as convicções alheias foi o físico Alan Sokal: em 1996 ele submeteu o artigo Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica à revista Social Text. Segundo o Google, Sokal propunha que a gravidade quântica é uma construção social e linguística”, e seu objetivo era “testar o rigor intelectual da revista diante de “um artigo repleto de absurdos. A revista não consultou especialistas e publicou o artigo, que gerou grande repercussão. Semanas depois, numa outra revista, Sokal revelou que era tudo uma brincadeirinha, uma farsa.)

O professor aposentado também garante que o desmatamento não causa nenhum problema. Ora, mais uma vez, isso é como negar a lei da gravidade, negar que açúcar causa cáries, negar o que a ciência já demonstrou fartamente.

O extraordinário fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, falecido em 2025, voltou em 1998 à fazenda da família, em Minas Gerais, e descobriu que o desmatamento a havia transformado num deserto. Sebastião decidiu que iria recuperar a terra. A revista Superinteressante fez matéria sobre o assunto: “Como Sebastião Salgado plantou uma floresta do zero – e salvou 2 mil nascentes”. O documentário “O Sal da Terra”, além de nos deixar atordoados com a beleza e o poder jornalístico das fotografias de Salgado, registra que o reflorestamento fez voltarem até as onças pintadas...

Eu mesmo tive, em ponto pequeno (como se dizia), uma experiência semelhante à de Sebastião Salgado: nos anos 60, toda a família costumava passar férias no sítio dos nossos avós. Meu pai, então, resolveu comprar um outro sítio nas proximidades – um pouco mais escondido, encostado num morro. Eu fiquei fascinado, na primeira vez que visitei o sítio, com um autêntico “olho d’água”, com o diâmetro talvez de uma mangueira de bombeiros, que saía do chão uns dez centímetros, como um pequeno chafariz. Mais para os fundos do terreno, escorria pela lisa pedra uma cortina d’água que meu pai logo batizou de “Cascatinha”, na qual passamos a nos refrescar nos dias de verão.

Corta para os anos 80. O desmatamento na região havia progredido. E nem uma gota de água jorrava do terreno antes tão pródigo. Como não havia nenhum Sebastião Salgado para promover o reflorestamento, jamais as nascentes renasceram.

O climatologista Luiz Carlos Molion não acredita na relação entre desmatamento e desaparecimento de nascentes. É o equivalente a um dentista que não acredita na importância da higiene bucal. Até Dom João VI sabia da relação entre floresta e preservação dos mananciais: em 1817, diante das secas nas fontes de água na cidade, proibiu o corte de árvores em algumas regiões críticas. Como, entretanto, o problema não foi totalmente resolvido, em 1861 Dom Pedro II desapropriou fazendas de café e iniciou o reflorestamento. Assim surgiu a nossa estimada Floresta da Tijuca – uma montanha verde com muitas nascentes e que, destacando-se no meio da cidade, impressiona o turista estrangeiro muito mais do que as famosas praias.

Molion insiste que a capacidade humana de interferir no clima é local. Ora, hoje já está mais que estabelecido que o planeta é um só, e que tudo tem reflexos em tudo. Os cientistas – como Carlos Nobre, esse, sim, um climatologista mundialmente respeitado – estudaram o fenômeno dos rios aéreos que fluem da Amazônia rumo ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul: as nuvens do Norte são conduzidas pelos ventos e causam as chuvas que tornam possível a agricultura em grande parte do país.  Sem esses rios aéreos, todo o miolo do Brasil seria um deserto.

 

Mapa

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Molion diz que é preciso baixar o poder dos ambientalistas, e que o Brasil é muito visado porque “hoje é o único país que pode aumentar a produção de alimentos no mundo”. Ele não explica, mas parece dar a entender que toda essa “besteira” de preocupação com mudanças climáticas é uma espécie de complô para prejudicar o produtor rural – que, segundo ele, é um herói nacional: “O produtor é o grande ator nisso. É graças ao agronegócio que esse país resiste. A roubalheira é tão grande que é até impossível medir quanto está sendo roubado.

Bem, a roubalheira no Brasil é realmente imensa. Nós começamos sendo roubados pelos portugueses; mas fomos roubados pelos ingleses e pelos europeus de modo geral. A partir do século 20, nós passamos a ser explorados pelos Estados Unidos – que promoveram até golpes de Estado no Brasil, para que os interesses estadunidenses fossem defendidos por presidentes serviçais.

Independentemente dessa roubalheira internacional (que aliás sempre contou com a colaboração das classes brasileiras mais abastadas), sempre se roubou muito aqui mesmo dentro do país.

As instituições, no Brasil (creio que no mundo), existem para defender o poder econômico. Daniel Vorcaro, que perpetrou talvez a maior fraude financeira da história do Brasil, poderá, graças aos seus advogados e à mídia, que tenta mudar de assunto para salvar o bandido e, se possível, desacreditar o STF e incriminar o próprio Lula (que nada tem a ver com a história), Vorcaro, dizia eu, poderá escapar da Justiça. (Embora depois que até generais golpistas foram presos, isso tenha ficado mais difícil.) Entretanto, se um faminto roubar um pacote de biscoitos, poderá ser jogado numa cela infecta, onde aguardará por anos o julgamento.

No texto A verdade sobre a corrupção, está registrado que 32% da roubalheira cabem “ao crime organizado, 65% a manobras empresariais ilícitas... e apenas 3% à corrupção política”. Ou seja: os grandes criminosos não são os políticos, como a mídia desonesta gosta de dizer, e nem mesmo os traficantes de drogas ou armas. Os grandes bandidos são os do colarinho branco – como o banqueiro Vorcaro, que, aliás, tem na mão um monte de políticos dos partidos de direita. (Não é por acaso: esses partidos reúnem personalidades que pensam muito em enriquecer e nem um pouco no povo.)

Luiz Carlos Molion diz que é o agronegócio que sustenta o Brasil, acossado pela corrupção. Bem, em primeiro lugar a questão da terra, no Brasil, é um caso de polícia desde os tempos coloniais: a terra foi e continua sendo roubada dos indígenas; a terra foi e continua sendo roubada dos camponeses, dos ribeirinhos, dos quilombolas. A grilagem (roubo de terras através de documentos falsos) é uma instituição no Brasil. Em 20 de fevereiro de 2005, O Globo publicou matéria com o título: “Pará registra maior fraude fundiária da História do país”. A reportagem falava de uma propriedade, no Pará, com duas vezes o tamanho do Estado do Rio, em nome de um sujeito que jamais existiu – um fake forjado por um grupo de grileiros. (E atenção: O Globo tradicionalmente defende o poder econômico, defende os militares, defende os interesses estrangeiros; está muito longe de ser um jornal “comunista”.) Cabe lembrar, a propósito, que não é o MST que toma terras alheias: o MST ocupa terras não utilizadas, abandonadas, para produzir os alimentos que vão para a nossa mesa. (O badalado agronegócio produz basicamente para exportação.) O Google informa, aliás, que “a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no país. E informa também que o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina”. O sociólogo Emir Sader escreveu em 19 de dezembro de 2004, no Jornal do Brasil, interessantíssimo artigo, do qual destaco apenas uma passagem: “O MST alfabetizou mais gente no campo do que todos os programas oficiais de alfabetização. Seu sistema educacional inclui 1900 escolas [...] Há 10 cursos de formação de professores, entre tantos outros. [...] Produzem sem agrotóxicos, preservam as sementes naturais, organizam cooperativas, comercializam seus produtos, apoiam os que ainda lutam pela terra.” Em 2004 Lula estava no meio do seu primeiro governo. De lá para cá, os serviços prestados pelo MST ao país devem ter se tornado muito mais significativos.

Se Molion insinua que os ambientalistas podem estar ganhando alguma coisa com a “besteira” da teoria das mudanças climáticas, nós podemos perguntar se ele não estaria sendo financiado pelos gananciosos empresários do agronegócio, que não querem nem ouvir falar em mudanças climáticas, não querem qualquer obstáculo a que continuem devastando o planeta e comprometendo o futuro da próxima geração. (Sim: não se trata mais de “futuras gerações”. A catástrofe está na esquina.)

E não é verdade que o agronegócio sustenta o Brasil. De fato, com o processo de desindustrialização promovido pelos governos neoliberais, que puseram a perder o que foi construído por Getúlio Vargas (Petrobras, CSN, Vale do Rio Doce, etc.), nós fomos voltando a ser um país exportador de matérias-primas e produtos agrícolas. Hoje o agronegócio tem importante participação na nossa pauta de exportações. O principal produto exportado é a soja em grãos... que vai servir de alimento para animais no exterior. Não deveria ser assim, mas é.

Sabendo disso, Lula, um dos maiores (o maior, na opinião de muitos) estadistas do mundo atual, e que nunca foi nenhum “comunista”, prestigia o agronegócio com verbas e tecnologia. (A produtividade dos cultivos resulta, em grande parte, dos estudos realizados pela Embrapa.) Por isso, noticia-se: “Agonegócio brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações de US$ 169 bilhões e superávit de US$ 149,07 bilhões”. Parece impressionante. Mas outra notícia merece destaque: “Governo Federal lança Plano Safra 2025/2026 com R$ 516,2 bilhões para impulsionar o agro brasileiro”. Além do mais, ainda está em vigor a incrível Lei Kandir, do governo FHC, que "isenta a cobrança de ICMS sobre exportações de produtos primários e semielaborados." Ou seja: os empresários do agronegócio não têm motivos para reclamar de Lula, do PT, de impostos, da vida.

Um estadunidense com cerca de 25 anos me contou que, uma vez, conversava com seu pai sobre os malefícios que as agressões ambientais trariam para o planeta em algumas décadas. O pai comentou, com um muxoxo (palavra outrora muito apreciada pelos escritores): “Eu já não estarei mais aqui.” O rapaz respondeu: “Mas eu vou estar! Seus netos vão estar!”

Depois de nós, o dilúvio.” (Après nous, le déluge.) A frase, que teria sido dita pela Marquesa de Pompadour para animar Luís XV, deve ser o lema da vida de Luiz Carlos Molion, um dos mais perfeitos representantes do terraplanismo climático. Com uma alternativa: “Depois de nós, a desertificação do planeta.”

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Eleição & Mentiras

 



Nelson M. Mendes

 

O povo tem a tendência, em grande parte induzido pela propaganda, a votar nos seus algozes. Vide Bolsonaro no Brasil, Millei na Argentina e Trump nos EUA. A jornalista brasileira Márcia Carmo, correspondente em Buenos Aires, contou que uma garota argentina, bem jovem, lhe disse que, como as coisas estavam ruins no país, ela iria votar num “loquito”, na esperança de que ele pudesse melhorar a situação. O “loquito” era Javier Millei, que está simplesmente destruindo e entregando o país. (Um professor de Economia explicou que a reforma trabalhista argentina, aprovada na primeira quinzena de fevereiro de 2026, é muito mais nefasta do que a já hedionda reforma feita pelo usurpador ex-presidente brasileiro Michel Temer.) Depois de tomar várias medidas contracionistas, tipicamente neoliberais (no estilo vender o carro para pagar a gasolina), Millei conseguiu relativo (muito relativo) controle da inflação. Claro: se o povo está sem emprego e cada vez mais miserável, não há consumo e os preços se mantêm relativamente estáveis. Mas mesmo essa estabilidade mórbida e precária já se está rompendo: a inflação está em 2,9% ao mês! Enquanto isso, o “nordestino analfabeto e cachaceiro”, auxiliado sobretudo pelo ministro Haddad, conseguiu que a inflação brasileira ficasse em 4,26% no ano de 2025. E isso com crescimento econômico, investimentos sociais, e taxa de desemprego de 5,6%, “a menor registrada na série histórica do IBGE (iniciada em 2012)”, como explica o Google. E vale lembrar: apesar dos juros imorais cobrados pelo Banco Central independente (dependente do mercado financeiro), que engessam a economia; e apesar de um Congresso hostil, recheado de imbecis e/ou picaretas, como André Fernandes, Arthur Lira, Bia Kicis, Carlos Jordy, Caroline De Toni, Ciro Nogueira, Damares Alves, Davi Alcolumbre, Delegado Caveira, Paulo Bilynskyj, Eduardo Girão, Flávio Bolsonaro, General Girão, General Pazuello, Gilvan da Federal, Gustavo Gayer, Hugo Motta, Jorge Seif, Julia Zanatta, Kim Kataguiri, Magno Malta, Marcelo Crivella, Marcel van Hattem, Marcos do Val, Marcos Rogério, Maurício do Vôlei, Marco Feliciano, Nikolas Ferreira, Rosangela Moro, Sérgio Moro, Sóstenes Cavalcante, Tiririca, Zé Trovão, Delegado Zucco e muitos outros, frequentemente com nomes antecedidos de patentes ou títulos: Pastor Fulano, Capitão Sicrano, etc. (Se o leitor tiver paciência e estômago, sugiro que procure saber da contribuição que esses parlamentares deram ao país; descobrirão que não fizeram nada além de trabalhar contra o povo e gravar vídeos lacradores para serem postados nas redes sociais.)

As eleições de 2026 vêm aí. E já começou a temporada de fake news (mentiras). Políticos desclassificados, como os acima citados, já começaram a atacar o governo federal com as mais absurdas acusações. (Não podemos esquecer que mentiras levaram Getúlio ao suicídio, prepararam o terreno para o golpe de 1964, resultaram no impeachment fraudulento da presidente Dilma e na igualmente fraudulenta prisão de Lula.)

O grande assunto do momento é o escândalo do banco Master, que começou no governo Bolsonaro e contou com a complacência (cumplicidade?) do então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – neto daquele que Ziraldo considerava “o pior brasileiro do século XX”. Como aconteceu com o escândalo do INSS, o do banco Master também começou no governo Bolsonaro e também só no governo Lula passou a ser investigado. (No governo do Jair Boçal não havia corrupção; porque ele trocava até Ministro da Justiça para proteger bandidos amigos, e sobretudo da família. O que ele fez para impedir que os crimes de Flávio fossem investigados é bem conhecido – até porque o próprio Boçal declarou que não deixaria ninguém “foder” sua família.)

Como sempre, o objetivo do mercado financeiro, da grande mídia e dos políticos do “centrão” ou da extrema direita (mídia e tais políticos são instrumentos do poder financeiro) é de alguma forma envolver Lula com a história do banco Master. O alvo é sempre Lula; porque ele representa tudo o que as elites, eternamente escravocratas, não querem: crescimento com distribuição de renda e benefícios sociais. Essas elites pensam exatamente como o personagem Justo Veríssimo, do Chico Anísio: “Pobre tem que morrer.”

Entretanto, essa mídia mentirosa e esses políticos raivosos e desonestos (dos quais Nikolas Ferreira talvez seja o maior representante) estão com azar; porque nenhum nome do PT, do PSOL ou de qualquer partido progressista (progressista é quem deseja menos desigualdade e miséria) aparece nas investigações. Mas aparecem os nomes do senador Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, de Ibaneis Rocha (MDB), governador do Distrito Federal, de Cláudio Castro (PL), governador do Rio de Janeiro, de Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado, e de uma penca de prefeitos. Jair Boçal Fascista (PL) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) aparecem no bolo porque Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro gângster Daniel Vorcaro e ele próprio envolvido até o pescoço na fraude, foi o maior financiador das campanhas de ambos. (Bandido só financia político bandido.)

Por outro lado, essa corja representante do poder financeiro não recua nem diante da verdade meridiana e inquestionável. Se alguém diz que 2+2=4, esses fantoches do dinheiro dirão, como numa charge fotográfica do saudoso Pasquim que aludia ao então ministro Simonsen: “No entanto...”

Essa experiência eu tive pessoalmente. Muitas vezes, no finado Orkut ou no Facebook, eu expunha minhas opiniões criteriosamente, emendando argumentos com dados, nomes, contextualização histórica e até referências bibliográficas. No final, o interlocutor escrevia uma frase de meia-dúzia de palavras sem sustentação, desconexas, e achava que tinha destruído todo o meu arrazoado. Como discutir com quem acredita que a Terra é plana, que Cloroquina cura Covid-19 ou que a família Bolsonaro é honesta e quer o bem do país?...

Por isso, a mídia desonesta, os políticos desonestos e os eleitores desonestos ou ingênuos insistem em criar um tumulto informacional que possa dar a impressão de que, no fim das contas, Lula é o “poderoso chefão” de todo um esquema de corrupção – como o bandido Dallagnol tentou demonstrar com aquele ridículo PowerPoint na época da Lava a Jato. (Quando se revolve indiscriminadamente o lodo no fundo de um lago, fica impossível enxergar com clareza. Assim como Chacrinha, que disse ter vindo ao mundo não para explicar, mas para confundir, a grande imprensa, hoje rapidamente replicada pelas redes sociais, não quer a verdade, mas a confusão que lhe permita proclamar a verdade que seja conveniente a seus donos – sabendo-se que hoje praticamente toda a mídia pertence a grupos financeiros.)

O objetivo da grande mídia e desses políticos picaretas (muitos em pânico com a possibilidade de que a verdade sobre o caso Master venha à tona), agora, é desacreditar o STF – o que pastor/gângster Silas Malafaia sempre tentou, para procurar salvar da cadeia o golpista Jair Boçal Fascista. O método é revolver o fundo do lago, deixar turvas as águas, “criar um clima”, como disse o veterano jornalista Lalo Leal em entrevista ao Bom Dia 247, de modo que fique pairando, sobre determinados personagens, uma vaga aura de culpa, de responsabilidade. (Não custa lembrar: nunca se provou nada contra os que eram vítimas de acusações de corrupção, pelo menos desde os tempos de Getúlio Vargas. A exceção foi Collor – hoje finalmente preso, ainda que em prisão domiciliar.)

Muitas pessoas, acertadamente, deixaram de confiar na grande mídia; que, no Brasil e no mundo, se limita a dizer o que o poder econômico manda. Mas saíram da frigideira e caíram no fogo: acreditam em tudo que chega pelas redes sociais.

Ora, quem confiaria num médico que tivesse sido formado pelo Facebook, Instagram, WhatsApp ou Tik Tok? As informações picotadas que chegam pelas redes sociais são, em sua imensa maioria, superficiais e distorcidas; não têm lastro, não têm fundamento. E o Jornal da USP publicou que, segundo relatório da OCDE, os “brasileiros são os piores em identificar notícias falsas”. Todos os grandes jornais, todas as grandes redes de rádio e TV continuam mentindo e desinformando; mas agora essa grande mídia tem ajuda valiosa das redes sociais, onde as mentiras se propagam como fogo morro acima em mato seco.

O cidadão tem de se vacinar contra a desinformação, contra as mentiras – hoje chamadas de fake news. E só existe uma vacina contra a desinformação: a informação. E informação não se obtém no Tik Tok, assim como nele o estudante de Medicina não encontra o saber necessário a que se torne um médico.

Se o cidadão não tiver informação sólida, técnica, fidedigna, encontrada em textos fundamentados de autores competentes e confiáveis, ele será levado a votar não em quem representa seus legítimos interesses, mas naquele que defende os interesses dos banqueiros, dos bilionários e dos grandes criminosos de maneira geral.

O cidadão, o eleitor, não se pode deixar manipular como um fantoche bobalhão.


domingo, 11 de janeiro de 2026

Três fatos sequestrados pela mídia brasileira

 


 

Texto integral de Ângela Carrato no Viomundo

 

Texto editado / NMM:

 SEQUESTRO 1

A mídia corporativa ignorou sumariamente tanto a solenidade do governo como as manifestações populares que foram realizadas para marcar os três anos da derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil, em 8/1/2023.

Isso foi o contrário do que aconteceu entre 2013 e 2016, quando a mídia deu amplo espaço para os manipulados protestos contra a então presidente Dilma Rousseff.

Esse silêncio da mídia é muito grave: no momento em que o ditador que governa os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra seu presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da Europa, como a Dinamarca, a vitória brasileira contra o golpe  é exemplo para o mundo da resiliência de nossas instituições.

As edições dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma manchete sobre a data, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.

Depois das cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.

O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula chamada no canto esquerdo da capa: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo no 8/1 ainda não foi ressarcido”.

Folha de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não publicou nada.

Os “vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como tentam fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro plano “Punhal Verde e Amarelo”.

O boicote às comemoração do 8/1 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal Nacional .

No telejornal, a cerimônia do 8/1 no Palácio do Planalto foi mostrada en passant, com o objetivo de esconder que o evento estava superlotado.

Como dizia o empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o que exibo é o que deixo de exibir. Podemos acrescentar que igualmente importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápida, menos chance de ser assimilada pelos telespectadores.

As manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas a referência de que foram convocadas “por centrais sindicais e sindicatos”. O JN fez de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando foi exatamente o contrário que se deu.

O sequestro da notícia pelo JN não terminou aí.

JN mencionou que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria. Foi dada voz somente a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante, Paulinho da Força, e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.

Marinho chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”, esquecendo-se de que a condenação se deu pela Justiça, respeitando-se o devido processo legal.

O sequestro da notícia persistiu na sexta-feira (9).

O Globo, numa chamada de capa sem destaque, noticiou que “Lula barra redução de penas do 8/1, e Congresso prepara derrubada do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.

A derrubada do veto não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas de opinião, indicam que a população brasileira não aceita anistia para golpistas. Não por acaso, o JN e todos os demais veículos da mídia corporativa omitiram as manifestações populares no 8/1, marcadas exatamente pelo “Sem Anistia”.

Enquanto isso, essa mesma mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair Bolsonaro e de sua família.

Todas estas ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, presente entre nós desde 2013.

A guerra híbrida precede  e integra as ações visando mudança de regime ou mesmo guerras. Ela  se constitui na utilização da mídia para construir, junto a grupos e populações, cenários que interessam às potências e países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, Israel) aí incluindo destruir a reputação de líderes políticos que não compactuam com seus interesses.



 SEQUESTRO 2

O que está acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo desse tipo de atuação.

A invasão de um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.

Foi o oposto disso o que ocorreu.

A mídia corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Essa postura é gravíssima, quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem nesta mídia sua principal fonte de informação.

Guerras híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado.  Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela começaram em 1998, logo após a vitória eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 sanções econômicas e financeiras.

 Durante a pandemia de covid-19, foi proibida pelos Estados Unidos de comprar até vacinas e insulina para o tratamento de diabetes.

Em 2019, a Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas, bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.

No ano anterior, o Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscara a reserva de 31 toneladas de ouro da Venezuela, por não reconhecer o governo Maduro como legítimo.

Se a população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que continuariam chamando Maduro de ditador, por defender o petróleo e os interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo ianque e europeu?

Se a guerra híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura” teria sido aplaudida?

Como a farsa envolvendo as razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lençóis é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canalha do que a similar estadunidense.

Enquanto edições do The New York Times e The Washington Post estampavam manchetes mostrando que Trump recuou da principal denúncia contra Maduro, a de que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara de paisagem; porque ela, valendo-se de reportagens estrangeiras mentirosas, atestou a existência desse “perigoso cartel”.

Como agora os jornalões e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público que era tudo mentira criada pela Casa Branca e pelo governo inglês?

Como iriam expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?

Desde que o mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. No caso da Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro era alta: US$ 50 milhões.

Mesmo assim, esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade: que líderes chavistas entregaram a cabeça de Maduro; que Maduro fez acordo com Trump visando a própria captura; que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”; que “o povo venezuelano comemorou esta captura”; e que a vice-presidente Delcy Rodrigues já se curvou a Trump.

Uma mentira acaba puxando outra, e é isso que esta mídia tem feito. Mas talvez a mais grave de todas as mentiras seja a de que Delcy e a cúpula chavista tenham se acertado com Trump.

Delcy e a liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação demanda, diante do poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começam a aparecer. A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter num tremendo desgaste para o governo Trump.  

Para piorar a já péssima situação desta mídia, vale destacar que não se viu um único editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, ao México, a Cuba e à América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como “quintal dos Estados Unidos”.

Antes de mudar de assunto, gostaria de assinalar que  também senti falta das “valorosas feministas brasileiras”, que ficaram indignadas quando o presidente Lula se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela efetivamente é. Essas mesmas feministas não abriram o bico para comentar os ferimentos sofridos pela primeira-dama da Venezuela durante o sequestro realizado pelo governo estadunidense.

Haja feminismo seletivo!

 

SEQUESTRO 3

Outro exemplo emblemático de guerra híbrida é o caso da liquidação do banco Master, de propriedade do picareta e trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de questionamentos pela mídia corporativa brasileira.

A mídia tentou, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões que Vorcaro deu em seus correntistas; e concentou-se em destacar uma suposta ilegalidade envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.

A jogada, como agora se sabe, era a seguinte: uma das colunistas amestradas do Grupo Globo denunciava, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Master. A única evidência apresentada era um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.

A denúncia de O Globo, como sempre, foi seguida pelos demais veículos da mídia corporativa. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria sua autoridade contestada inclusive no que se refere ao julgamento e condenação dos golpistas do 8/1.

Obviamente, os golpistas de sempre, dentro e fora do Congresso Nacional, estavam interessados em desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula.

Os ataques só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o óbvio: não cabe interferência pública em contrato entre particulares. Dito de outra forma: que a mídia tratasse de comprovar que Moraes usou de sua influência para evitar a liquidação do banco Master.

Foi aí que esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar a tal influência, se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando revertê-la são exatamente os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.

Ao contrário de apurar como um picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o banco.  Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o assunto.

Ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Master.

No entanto, foi a cantilena contra a liquidação do Master que a mídia corporativa transformou em manchete em 8/1.  No dia seguinte, a Folha de S. Paulo, seguindo  à risca orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Cofres públicos terão que cobrir rombo de fundos de previdência com Master”.

No caso, a manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e municípios terão que cobrir prejuízos do banco Master em seus fundos de pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por políticos de extrema-direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia golpista.

Para aumentar a vergonha (se esta mídia tivesse vergonha), a autoridade monetária dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Master e bloqueou os seus ativos lá.

O desafio para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI


domingo, 4 de janeiro de 2026

Por que é fundamental reeleger Lula em um momento de agressão à América do Sul

 


  Presidente Lula durante entrevista coletiva à imprensa

Texto original no Brasil 247

 

Texto editado / NMM:

Mais do que nunca, o Brasil necessita de liderança à altura do momento. Este líder é Lula

 

Os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sua esposa, Cilia Flores, e um de seus filhos.

Foram violadas leis, tratados e protocolos.

Essa intervenção, realizada no mais arrogante estilo imperialista, revive o pior da chamada Doutrina Monroe, segundo a qual os Estados Unidos outorgam a si próprios, por uma espécie de mandato que se pretende divino, o direito de intervir, a seu bel-prazer, em qualquer país da América Latina e do Caribe.

O pretexto dessa invasão, seguida de rapto, não poderia ser mais falso. Maduro não foi capturado por envolvimento com narcotráfico ou acusações semelhantes, mas porque simbolizava a revolução bolivariana, responsável pela nacionalização das reservas de petróleo venezuelanas, as maiores do mundo, retirando-as do controle estadunidense. Trump, de forma explícita, busca se apropriar desse tesouro subterrâneo.

Sequestro e espoliação. Evidentemente, este 3 de janeiro inaugura um período instável e ameaçador na fronteira do Brasil, em pleno território sul-americano e caribenho.

O Brasil, por suas dimensões, riquezas e interesses estratégicos, encontra-se sob ameaça. O governo brasileiro repudiou a ação estadunidense e defendeu a paz e o diálogo. O Itamaraty, com rapidez, reconheceu o governo constitucional agora exercido pela vice-presidente Delcy Rodríguez, que, além de exigir a libertação de Maduro, promete dar continuidade ao ideário da revolução bolivariana.

Teme-se que os EUA possam também interferir nos assuntos internos do Brasil. Mais do que nunca, a nação necessitará de firmeza e capacidade de diálogo para defender suas eleições e sua soberania. Nesse contexto, ressalta-se ainda mais a importância de Lula, como estadista experiente e como candidato capaz de salvaguardar os interesses nacionais em um momento tão desafiador.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

GLOBO REPETE FARSA DA LAVA A JATO

 



Texto original de Ângela Carrato no Viomundo


Texto editado – NMM:

Sem citar nomes de fontes, a jornalista Malu Gaspar, de O Globo (a de blusa laranja na foto), publicou na segunda-feira (22), texto cujo objetivo é óbvio: levantar dúvidas sobre a atuação do ministro do STF, Alexandre de Moraes, no caso do banco Master e fornecer munição para os combalidos centrão e extrema-direita.

O que a jornalista fez lembra as primeiras notícias que apareceram em O Globo, nos idos de 2014, quando a oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff ainda não tinha tomado as proporções que tomou.

Sobre Malu Gaspar, é importante não perder de vista seu lavajatismo militante. O livro, por ela escrito, “A Organização: a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo”, lançado seis meses após a saída de Moro do Ministério da Justiça, possivelmente seria peça importante para Moro em eventual campanha para a presidência da República.

A maioia do Congresso Nacional apoiou o golpe contra Dilma; e o STF (pressionado por militares e pelos EUA) endossou a decisão ilegítima.

Os seis anos de governos golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro só foram possíveis, porque a aliança entre maioria parlamentar e STF se manteve. Aliança que começou a ruir quando a Suprema Corte, diante das evidências dos desmandos do então juiz Sergio Moro, não teve outro caminho a não ser colocá-lo sob suspeição e anular as sentenças contra Lula.

A vitória de Lula na eleição para presidente em 2022 era um dado com o qual Bolsonaro e seus aliados não contavam. Não apenas eles.

Contra Lula, como sempre estavam a classe dominante, que se pauta pelos interesses de Washington, parcela significativa dos militares e a totalidade do chamado mercado financeiro.

___

 

A tentativa de golpe de estado com uma semana de Lula no poder precisa ser vista como parte de um roteiro adotado pela extrema-direita nacional e internacional para manter o Brasil submisso.

Em 2026, Lula será candidato à reeleição, com grandes chances de vitória. Como direita e extrema-direita brasileiras se encontram fragilizadas, de novo o grupo Globo parece assumir o papel de principal partido de oposição no país.

Entretanto, se a bilionária família Marinho, proprietária do grupo Globo, continua inimiga de governos progressistas, a realidade brasileira mudou muito.

Não existe mais aquela aliança entre a maioria do Congresso Nacional e o STF. Desde a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, a relação entre os três Poderes alterou-se substancialmente.

Se na Câmara dos Deputados, ainda predomina uma maioria golpista e sem compromisso com o Brasil e o povo brasileiro, no Senado o golpismo é menor.

Já o STF se colocou como guardião da democracia.

Há, no entanto, um ponto de convergência entre o governo Lula e ministros do STF, que vem desagradando profundamente a esta mídia: o combate à corrupção no “andar de cima”.

Enquanto os “bandidos” eram pobres, pretos e moradores de favelas, não havia problema serem mortos às centenas, como fez o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.

Quando a corrupção exposta passou a ser a de poderosas fintechs, com sedes na avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, que lavam dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a do dirigente do recém liquidado Banco Master, começam os problemas.

As operações da Polícia Federal envolvendo ricos e poderosos desaparecem da mídia em prazo recorde.

Não se fala mais no andamento da Operação Carbono Oculto e muito menos nos desdobramentos do fim do banco Master.

Tanto a Operação Carbono Oculto quanto a liquidação extrajudicial do Master expuseram ligações e atuações nada republicanas de parlamentares e governadores oposicionistas. A operação Valor Total, da PF,  encontrou na casa do líder da oposição na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti, R$ 469,7 mil em dinheiro.

O parlamentar se enrolou todo ao tentar explicar a origem do dinheiro.

Mesmo não sendo nada comum alguém ter quase meio milhão de reais em casa e não saber a sua procedência, o assunto desapareceu da mídia.

Você deve estar se perguntando qual a relação dessas operações da PF com o texto da jornalista Malu Gaspar. Já chego lá.

Se o ministro Alexandre de Moraes é o responsável por autorizar ações da PF envolvendo ações dos golpistas, por ser o relator da matéria no STF, o ministro Flávio Dino tem tido o mesmo papel em relação à falta de transparência das emendas parlamentares, que abocanham mais de R$ 50 bilhões do orçamento da União.

Em várias oportunidades estas ações têm se cruzado. Vale dizer: vários golpistas são também suspeitos de corrupção ou possuem ligações estreitas com corruptos.

Percebe, caro(a) leitor(a), como o cerco vai se fechando?

A esse cerco se soma também a resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em aprovar a indicação do Jorge Messias para a vaga do ministro Luis Barroso.

Alcolumbre alegou compromisso com o nome do senador Rodrigo Pacheco para o cargo.

O apoio ao nome de Pacheco, já descartado, parece ter se pautado mais pelo temor de Messias ser mais um ministro que venha se somar às atuações implacáveis de Alexandre de Moraes e de Flávio Dino.

Chegamos assim finalmente ao ministro Alexandre de Moraes.

Se o jornal O Globo quisesse fazer jornalismo sério, o editor de política deveria ter pedido que Malu Gaspar nominasse pelo menos algumas das suas fontes citadas em off.

Como professora de Jornalismo na UFMG, ensino que informação em off não é para ser publicada. Deve servir como elemento para a apuração.

O jornalista não pode afirmar, sugerir ou insinuar ação de quem quer que seja valendo-se apenas de offs.

O nome disso é irresponsabilidade, da mesma forma que um médico não pode fazer o diagnóstico de um paciente por rumores ou por ouvir dizer.

Em qualquer país onde existem órgãos que zelam pela ética da mídia, um texto como esse da Malu Gaspar seria inaceitável.

E as razões são muitas. O texto, seja qual for a resposta dada pelo ministro, alimentará as dúvidas. Se, por outro lado, não houver resposta, o silêncio passa a ser entendido como “tendo algo a esconder”.

Daí a pergunta que não quer calar: a quais políticos ou setores interessam tentar desmoralizar o ministro Moraes?

Malu Gaspar, no programa Estúdio 1, da Globonews, deu sobre a matéria detalhes que não explicaram nada e se pautaram por um monte de suposições.

Já na terça-feira (23), outros veículos do grupo Globo assim a notícia: “Em nota, Moraes tergiversa e não responde se conversou com Galípollo para pedir pelo Master junto ao BC”.

Mais capcioso, impossível.

As conexões internacionais dos golpistas ficaram evidentes quando Donald Trump aplicou tarifa de 50% a produtos brasileiros exportados para o seu país e e impôs a Moraes e autoridades do governo Lula sanções com a lei Magnitsky.

Na semana passada, as sanções contra Moraes foram levantadas. O fato serviu para a mídia corporativa fazer muita fumaça, associando a decisão a um possível “acordão” para aprovar o projeto de lei da Dosimetria, uma espécie de anistia branca aos golpistas do 8 de janeiro, pois reduz significativamente as penas.

Lula, logo após a aprovação do projeto, anunciou que tão logo chegue à sua mesa, vai vetá-lo.

Da mesma forma, não há por parte do ministro Moraes qualquer indicação de que a dosimetria significará um afrouxamento geral das penas.

Ao contrário. Bolsonaro e os militares graduados passarão muitos anos presos.

O grupo Globo deflagrou essa tempestade contra o ministro Moraes porque sua esposa é advogada do banco Master. Do ponto de vista legal, não há nenhum problema. O advogado, em hipótese alguma, pode ser confundido com as ações de seu cliente.

Já do ponto de vista ético, cabem, sim, questionamentos ao ministro Moraes, como cabem a outros integrantes do STF, atuais e passados. Sabe-se, por exemplo, que parentes de quase todos os ministros sempre advogaram na Corte.

Muitos ministros participam de eventos aqui ou no exterior, regiamente pagos por bancos e grandes grupos econômicos.

Até agora nenhum veículo da mídia corporativa viu isso como corrupção ou tráfico de influência.

De mais a mais, dezenas de ministros e políticos conversaram com o presidente do Banco Central sobre o banco Master. Por que Moraes é o único suspeito de tráfico de interesses ou de lobby?

É importante observar que a metodologia utilizada agora pelo grupo Globo é a mesma adotada nos tempos da Lava a Lato.

O jornal O Globo, através de um de seus colunistas, levanta um assunto. O colunista, Merval Pereira, espécie de porta-voz da família Marinho, publica também texto sobre o assunto. Sinal para os demais veículos do grupo entrarem em campo.

Na terça-feira (23), dia seguinte à publicação, esta era a manchete do portal UOL, do grupo Folha de S. Paulo: “Magnitsky era o tema de reuniões de Moraes e BC, Master foi citado”. Não acrescentou nada, mas reforçou insinuações.

Até um estudante dos primeiros períodos de jornalismo sabe que citação em si não significa nada.

Como se a insinuação não bastasse, o UOL ainda buscou ativar na memória do seu público o tema da corrupção, ao mencionar que o “Master ocupou espaço deixado pela Odebrecht no pós-Lava Jato”.

Pronto. O link entre a suposta corrupção de Moraes e a corrupção supostamente combatida pela Lava Jato estava ativado. E o papel “salvador” da mídia também!

Esse tipo despudorado de manipulação da memória das pessoas em relação à Lava Jato explica por que o grupo Globo, até hoje, não informou para o seu público que os heróis por ele criados, Moro e Dallagnol, eram na verdade bandidos.

Jornal Nacional aguarda os desdobramentos do tema junto aos formadores de opinião. Daí a insistência de colunistas de O Globo e do grupo Folha ao se mostrarem “perplexos” pela Procuradoria Geral da República e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não terem tomado qualquer atitude.

Alguém se lembra destes colunistas terem cobrado das instituições quando os julgamentos da Lava Jato eram sumários ou quando Lula foi condenado sem qualquer prova e cumpriu 580 dias de prisão?

As barbaridades cometidas pela Lava a Jato, patrocinadas e acobertadas pela mídia corporativa, já seriam mais do que suficientes para que denúncias sem fonte e linchamentos sumários não tivessem mais lugar entre nós.

Lamentavelmente, isso é o que mais deve acontecer de agora em diante. A campanha eleitoral já começou e a mídia corporativa tudo fará para buscar enfraquecer o governo Lula e o STF, por enfrentarem os interesses do “andar de cima”, do qual a mídia é parte.

Fazer impeachment de ministro do STF é um dos sonhos da oposição.

Moraes é, portanto, apenas a bola da vez.

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Para quem adora um meme:

Malu Gaspar 

Malu Gaspar 2


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O dólar está morrendo. E agora?

 


Texto original de Paulo Nogueira Batista Jr.

 

Texto editado/ NMM:

É possível e desejável criar uma nova moeda internacional como alternativa ao dólar dos Estados Unidos? O tema é controvertido. Acredito que ela é não só possível, como desejável e talvez indispensável.

Já escrevi algumas vezes sobre a criação de uma nova moeda de reserva, inclusive aqui mesmo nesta coluna, sob o título “Como os Brics podem desafiar o dólar”. Desde então, desenvolvi a proposta de forma mais completa e abrangente. Vou resumir a ideia, que certamente precisa de aperfeiçoamentos e revisão.

Na história recente, o papel de moeda internacional foi desempenhado principalmente por moedas nacionais, emitidas e gerenciadas por bancos centrais nacionais. Como os objetivos nacionais do país ou países emissores geralmente não coincidem com os dos demais países, só por acaso a moeda internacional servirá de forma adequada aos interesses dessas outras nações.

Precisamos, na verdade, de algo que não tem precedentes práticos: uma moeda internacional que não desempenha funções nacionais. Mas não há alternativas disponíveis ou eficientes no mundo hoje.

Descartando alternativas

Um cenário possível seria continuarmos convivendo com o dólar (e secundariamente o euro). Mas isso não convém aos países emergentes do Sul Global. O sistema dólar é ineficiente, pouco confiável e até perigoso. Virou um instrumento de chantagem e sanções. Além disso, vai ficando cada vez mais clara a precariedade da economia dos EUA.

O dólar ser substituído por outras moedas do Norte Global também não se mostra factível. O euro também foi desvirtuado como instrumento de sanções. E a situação econômica da Europa é ainda mais problemática do que a dos EUA. O iene japonês tem problemas semelhantes; além disso, a economia japonesa não vai bem. As outras moedas do Norte Global ou são pequenas demais ou sofrem com as fragilidades dos países que as emitem. O ouro, por sua vez, dada a intensa volatilidade do seu preço, não tem condições de substituir o dólar, a não ser parcialmente, como ativo de reserva para os bancos centrais e outros agentes econômicos.

O único cenário seria a internacionalização da moeda chinesa. O renminbi vem se tornando importante no cenário mundial. Mas falta muito para que ele possa substituir o dólar de forma expressiva. E os chineses relutam em tentar.

Por quê? Para que a internacionalização da moeda chinesa fosse viável, haveria pelo menos duas pré-condições: a livre conversibilidade e a disposição de permitir uma grande apreciação cambial. No caso chinês, livre conversibilidade significaria essencialmente remover os controles de capital, elemento central da estabilidade da política econômica chinesa. A valorização externa do renminbi ameaçaria a competitividade das exportações, uma das fontes principais de dinamismo da economia chinesa. Por que mexer em time que está ganhando?

Mesmo que os chineses quisessem a internacionalização da sua moeda, do ponto de vista dos demais países do Sul Global, não estaríamos trocando seis por meia-dúzia? Uma outra moeda nacional, o renminbi, ocuparia o espaço deixado pelo dólar. Não ficaríamos mais ou mesmo na mesma? O renminbi substituiria o dólar, em parte ou totalmente, e a China passaria a emitir o ativo de reserva mundial. O resto do mundo continuaria a experimentar, ainda que de forma talvez mais branda, os problemas que já enfrentamos com o dólar.

Ou seja: há espaço para criar uma nova moeda de reserva. Qualquer proposta  enfrentará problemas geopolíticos (fundamentalmente a resistência dos EUA) e técnicos (não é fácil construir estrutura capaz de gerar confiança na nova moeda). Mas enfrentar o desafio parece necessário, inclusive porque não se pode descartar mais uma crise financeira de grandes proporções nos mercados ocidentais de capitais, como o estouro da bolha acionária associada à inteligência artificial e a empresas de tecnologia. Caso isso venha a ocorrer, a economia dos EUA e o dólar, já fragilizados, enfrentarão uma aceleração do seu declínio. Haverá uma busca desenfreada e desorientada de alternativas. Melhor, portanto, discutir alternativas sem demora.

Um caminho possível

Qual seria o melhor caminho para uma nova moeda?

Um caminho, em tese, seria lastrear a nova moeda em ouro. Contudo, como dar estabilidade a uma nova moeda apoiando-a em um ativo eminentemente instável?

Melhor seria dar confiança e lastrear a nova moeda de outra maneira. Vejamos como. Apresento a seguir uma discussão resumida dos aspectos essenciais.

Quem criaria a nova moeda? – um grupo de países do Sul Global, algo como 15 a 20 países, que incluiria a maioria dos Brics e outras nações emergentes de renda média.

Mas nenhuma instituição existente tem condições de emitir a nova moeda. Teria que ser criada, portanto, uma nova instituição financeira internacional, cuja única e exclusiva função seria emitir a nova moeda. Esse banco emissor não substituiria os bancos centrais nacionais e a sua moeda circularia em paralelo às moedas nacionais dos países do grupo patrocinador e em paralelo às demais moedas nacionais e regionais existentes no mundo. Ficaria restrita a transações internacionais, sem papel doméstico. Não seria, portanto, uma moeda tipo euro, que tomou o lugar das moedas europeias pré-existentes.

Como se garante o sucesso de uma moeda? O essencial é assegurar confiança, o que depende da maneira como o novo arranjo monetário for construído do ponto de vista institucional.

O caminho mais viável incluiriaas seguintes garantias legais: 1) estabilidade da nova moeda em termos de valor; 2) a sua não utilização como instrumento de sanção ou pressão sobre países; 3) autonomia operacional do banco emissor; 4) limite máximo para sua emissão; e 5) lastreamento da moeda numa cesta de títulos públicos dos países patrocinadores.

Abordo os cinco pontos. O primeiro e o quinto demandam um pouco mais de espaço.

A moeda, primeiro ponto, ficaria baseada numa cesta ponderada das moedas dos países participantes. Como todas as moedas da cesta, a nova moeda também seria uma moeda flutuante. Os pesos na cesta seriam dados pela participação do PIB PPP de cada país no PIB total do grupo de patrocinadores. A China ficaria com pelo menos 40/45% do total, dependendo da exata composição do grupo. A cesta teria certa estabilidade proporcionada endogenamente pela presença nela de moedas tanto de países exportadores como de moedas de importadores de commodities. Essa estabilidade poderia ser reforçada exogenamente, estabelecendo-se que a média ponderada seria geométrica e simetricamente aparada. As moedas com grande flutuação, para além de limites pré-estabelecidos, seriam temporariamente excluídas da cesta.

Segundo ponto: o compromisso explícito de não recorrer a sanções faria o contraste com a insegurança resultante do uso abusivo do dólar e do euro como base para punições e chantagem.

A autonomia operacional, terceiro ponto, seria assegurada concedendo aos presidentes e vice-presidentes do banco mandatos relativamente longos (cinco anos, por exemplo). Isso passaria a mensagem de que o banco não estaria facilmente sujeito a interferências políticas e manobras diplomáticas dos seus fundadores. Esse tipo de autonomia não protege totalmente o banco contra interferências, mas tem o seu valor. A administração do banco teria que prestar contas aos países patrocinadores, mas isso seria feito pelos canais institucionais normais, e não por pressões individuais sobre o presidente e os vice-presidentes.

Quarto ponto: um teto contra excesso de emissões; um freio que as moedas ocidentais não têm.

Mas esse teto seria um instrumento secundário, pois o mais relevante é a forma de lastreamento da nova moeda.

Quinto ponto, portanto: definir como lastro uma cesta da títulos nacionais dos países fundadores e daqueles que venham a se juntar depois. O banco emissor emitiria a nova moeda reserva (NMR) e novos títulos de reserva (NRB), cuja taxas de juro seriam atraentes, pois refletiriam os juros dos títulos das nações participantes, todos eles superiores às taxas dos títulos em dólares e euros. A NMR seria plenamente conversível em NRB e estes, por sua vez, na cesta de títulos dos países participantes. O elevado peso da moeda chinesa, emitida por um país de economia sólida, favoreceria a confiança no lastro e na NMR.

A reação do Ocidente

Um grave risco é o de que o Ocidente reaja com ameaças e sanções contra os países envolvidos na criação de uma alternativa ao dólar e ao euro. O Ocidente, em franca decadência, se mostra ainda mais arbitrário e violento do que em outras épocas.

O que temos de nos perguntar, entretanto, é o seguinte: vamos conviver indefinidamente com o sistema monetário e financeiro crescentemente disfuncional que o Ocidente criou desde a Segundo Guerra Mundial, e que vem sendo usado como instrumento geopolítico?

Os próximos anos dirão se os países emergentes estão à altura do desafio de criar uma alternativa ao dólar e ao euro.