domingo, 11 de janeiro de 2026

Três fatos sequestrados pela mídia brasileira

 


 

Texto integral de Ângela Carrato no Viomundo

 

Texto editado / NMM:

 SEQUESTRO 1

A mídia corporativa ignorou sumariamente tanto a solenidade do governo como as manifestações populares que foram realizadas para marcar os três anos da derrota da tentativa de golpe de estado no Brasil, em 8/1/2023.

Isso foi o contrário do que aconteceu entre 2013 e 2016, quando a mídia deu amplo espaço para os manipulados protestos contra a então presidente Dilma Rousseff.

Esse silêncio da mídia é muito grave: no momento em que o ditador que governa os Estados Unidos, Donald Trump, ataca a Venezuela, sequestra seu presidente, Nicolás Maduro, e segue ameaçando países da América Latina e da Europa, como a Dinamarca, a vitória brasileira contra o golpe  é exemplo para o mundo da resiliência de nossas instituições.

As edições dos “jornalões” brasileiros no 8/1 foram simplesmente patéticas. Nenhuma manchete sobre a data, nenhum editorial sobre a derrota dos golpistas e nenhum texto dos amestrados colunistas de sempre sobre o assunto.

Depois das cuidadosas investigações da Polícia Federal, dos processos e julgamentos com direito à ampla defesa e das pesadas condenações do núcleo duro golpista, esta mídia tem a cara de pau de ainda tratá-los como simples “vândalos”.

O Globo, por exemplo, publicou uma minúscula chamada no canto esquerdo da capa: “Três anos depois, prejuízo com o vandalismo no 8/1 ainda não foi ressarcido”.

Folha de S. Paulo seguiu a mesma linha: “Obras destruídas no 8 de janeiro se transformam em outras peças de arte”. Já O Estado de S. Paulo não publicou nada.

Os “vândalos” não se limitaram a destruir patrimônio público e obras de arte como tentam fazer crer tais publicações. Seus líderes tinham como objetivo derrubar o governo legitimamente eleito e assassinar o presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ministro do STF, Alexandre de Moraes, através do sinistro plano “Punhal Verde e Amarelo”.

O boicote às comemoração do 8/1 se manteve ao longo do dia e chegou à edição do Jornal Nacional .

No telejornal, a cerimônia do 8/1 no Palácio do Planalto foi mostrada en passant, com o objetivo de esconder que o evento estava superlotado.

Como dizia o empresário Roberto Marinho, patriarca do grupo Globo, tão importante quanto o que exibo é o que deixo de exibir. Podemos acrescentar que igualmente importante é a maneira como uma informação é exibida. Quanto mais rápida, menos chance de ser assimilada pelos telespectadores.

As manifestações populares que aconteceram em todo o Brasil mereceram apenas a referência de que foram convocadas “por centrais sindicais e sindicatos”. O JN fez de tudo para tentar mostrar Lula num evento isolado e distante do povo, quando foi exatamente o contrário que se deu.

O sequestro da notícia pelo JN não terminou aí.

JN mencionou que, no evento, o presidente Lula vetou o projeto da dosimetria. Foi dada voz somente a três notórios parlamentares aliados deles – Sóstenes Cavalcante, Paulinho da Força, e Rogério Marinho. O trio anunciou que vai mobilizar o Congresso Nacional para que o veto seja derrubado.

Marinho chegou ao absurdo de dizer que o veto era um ato de “vingança política”, esquecendo-se de que a condenação se deu pela Justiça, respeitando-se o devido processo legal.

O sequestro da notícia persistiu na sexta-feira (9).

O Globo, numa chamada de capa sem destaque, noticiou que “Lula barra redução de penas do 8/1, e Congresso prepara derrubada do veto”. A mesma toada se repetiu no Estado de S. Paulo, com a Folha superando os dois com o editorial “Há um tanto de teatro no veto de Lula ao projeto da Dosimetria”.

A derrubada do veto não será tão simples assim, uma vez que as praças, ruas e as pesquisas de opinião, indicam que a população brasileira não aceita anistia para golpistas. Não por acaso, o JN e todos os demais veículos da mídia corporativa omitiram as manifestações populares no 8/1, marcadas exatamente pelo “Sem Anistia”.

Enquanto isso, essa mesma mídia segue dando espaço para o mimimi do presidiário Jair Bolsonaro e de sua família.

Todas estas ações da mídia corporativa brasileira integram a chamada guerra híbrida, presente entre nós desde 2013.

A guerra híbrida precede  e integra as ações visando mudança de regime ou mesmo guerras. Ela  se constitui na utilização da mídia para construir, junto a grupos e populações, cenários que interessam às potências e países imperialistas (Estados Unidos, Inglaterra, Israel) aí incluindo destruir a reputação de líderes políticos que não compactuam com seus interesses.



 SEQUESTRO 2

O que está acontecendo na vizinha Venezuela é outro exemplo desse tipo de atuação.

A invasão de um país soberano por força militar dos Estados Unidos, o sequestro de seu presidente e o anúncio de que será julgado por acusações descabidas em solo estrangeiro deveriam ser motivo de repúdio por parte de qualquer veículo de comunicação que se diz democrático e defensor dos direitos humanos.

Foi o oposto disso o que ocorreu.

A mídia corporativa brasileira aplaudiu o ataque dos Estados Unidos à Venezuela e vibrou com o que chamou de “captura do ditador Maduro”. Essa postura é gravíssima, quando se sabe que a maioria da população brasileira ainda tem nesta mídia sua principal fonte de informação.

Guerras híbridas, para serem eficientes, começam bem antes do objetivo almejado.  Se no Brasil datam de 2013, na Venezuela começaram em 1998, logo após a vitória eleitoral de Hugo Chávez. Ao longo dos anos de governo bolivariano, em especial a partir de 2013, a Venezuela tem sido alvo de um total de 1.047 sanções econômicas e financeiras.

 Durante a pandemia de covid-19, foi proibida pelos Estados Unidos de comprar até vacinas e insulina para o tratamento de diabetes.

Em 2019, a Justiça dos Estados Unidos tomou na mão grande cinco refinarias venezuelanas, bem como a rede de distribuição de combustíveis, Citgo, braço da estatal petroleira PDVSA, na terra do Tio Sam.

No ano anterior, o Reino Unido, através do Banco da Inglaterra, confiscara a reserva de 31 toneladas de ouro da Venezuela, por não reconhecer o governo Maduro como legítimo.

Se a população brasileira e mundial tivesse conhecimento disso, será que continuaria aplaudindo os Estados Unidos e países da Europa que combatem Maduro? Será que continuariam chamando Maduro de ditador, por defender o petróleo e os interesses de seu país e de sua população contra as garras do imperialismo ianque e europeu?

Se a guerra híbrida não tivesse conseguido pintar Maduro como “ditador”, sua “captura” teria sido aplaudida?

Como a farsa envolvendo as razões do ataque à Venezuela começa a ruir, quem está em maus lençóis é a mídia corporativa brasileira, que consegue ser mais subserviente e canalha do que a similar estadunidense.

Enquanto edições do The New York Times e The Washington Post estampavam manchetes mostrando que Trump recuou da principal denúncia contra Maduro, a de que chefiava o cartel de narcotráfico Les Soles, a mídia daqui faz cara de paisagem; porque ela, valendo-se de reportagens estrangeiras mentirosas, atestou a existência desse “perigoso cartel”.

Como agora os jornalões e suas emissoras de TV e rádio diriam ao seu respeitável público que era tudo mentira criada pela Casa Branca e pelo governo inglês?

Como iriam expor sua subserviência aos interesses estrangeiros, logo eles que se apresentam como infalíveis e portadores de “informações isentas e objetivas”?

Desde que o mundo é mundo, em todas as guerras sempre houve traidores. No caso da Venezuela, a grana oferecida pelos Estados Unidos para informantes sobre Maduro era alta: US$ 50 milhões.

Mesmo assim, esta mídia deveria ter um mínimo de cuidado antes de divulgar informações peremptórias, desencontradas e sem lastro na realidade: que líderes chavistas entregaram a cabeça de Maduro; que Maduro fez acordo com Trump visando a própria captura; que “a captura aconteceu sem qualquer resistência”; que “o povo venezuelano comemorou esta captura”; e que a vice-presidente Delcy Rodrigues já se curvou a Trump.

Uma mentira acaba puxando outra, e é isso que esta mídia tem feito. Mas talvez a mais grave de todas as mentiras seja a de que Delcy e a cúpula chavista tenham se acertado com Trump.

Delcy e a liderança bolivariana têm agido com a cautela que a situação demanda, diante do poder descomunal que enfrentam. Já as mentiras e fanfarronices de Trump começam a aparecer. A prisão de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, pode se converter num tremendo desgaste para o governo Trump.  

Para piorar a já péssima situação desta mídia, vale destacar que não se viu um único editorial indignado com as ameaças de Trump à Colômbia, ao México, a Cuba e à América Latina, que ele e seu secretário de Estado, Marco Rubio, tratam como “quintal dos Estados Unidos”.

Antes de mudar de assunto, gostaria de assinalar que  também senti falta das “valorosas feministas brasileiras”, que ficaram indignadas quando o presidente Lula se referiu à ministra Gleisi Hoffmann como “bonita”, o que ela efetivamente é. Essas mesmas feministas não abriram o bico para comentar os ferimentos sofridos pela primeira-dama da Venezuela durante o sequestro realizado pelo governo estadunidense.

Haja feminismo seletivo!

 

SEQUESTRO 3

Outro exemplo emblemático de guerra híbrida é o caso da liquidação do banco Master, de propriedade do picareta e trambiqueiro Daniel Vorcaro. Desde que foi oficializada pelo Banco Central, esta certíssima liquidação vem sendo alvo de questionamentos pela mídia corporativa brasileira.

A mídia tentou, num primeiro momento, minimizar o impacto do calote de R$ 12 bilhões que Vorcaro deu em seus correntistas; e concentou-se em destacar uma suposta ilegalidade envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.

A jogada, como agora se sabe, era a seguinte: uma das colunistas amestradas do Grupo Globo denunciava, se valendo apenas de fontes em off, que Alexandre de Moraes teria interferido junto ao BC para salvar o Master. A única evidência apresentada era um contrato sem assinatura entre o escritório da esposa de Moraes e este banco, encontrado pela PF no celular de Vorcaro.

A denúncia de O Globo, como sempre, foi seguida pelos demais veículos da mídia corporativa. Se as suspeitas prosperassem, o ministro teria sua autoridade contestada inclusive no que se refere ao julgamento e condenação dos golpistas do 8/1.

Obviamente, os golpistas de sempre, dentro e fora do Congresso Nacional, estavam interessados em desmoralizar Moraes e enfraquecer o governo Lula.

Os ataques só cessaram, quando o procurador-geral da República, Paulo Gonet, disse o óbvio: não cabe interferência pública em contrato entre particulares. Dito de outra forma: que a mídia tratasse de comprovar que Moraes usou de sua influência para evitar a liquidação do banco Master.

Foi aí que esta mídia ficou em apuros e mudou de assunto. Como comprovar a tal influência, se ela é negada por Moraes e pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo? Mais ainda: a liquidação já ocorreu e quem vem tentando revertê-la são exatamente os integrantes do Centrão no Congresso Nacional, com suporte da própria mídia.

Ao contrário de apurar como um picareta como Vorcaro conseguir enganar tanta gente e por tanto tempo, esta mídia passou a dar força à absurda tentativa do ministro Jonathan de Jesus, do TCU, de questionar a autoridade do BC para liquidar o banco.  Esta mesma mídia que, sintomaticamente, fez vistas grossas aos interesses de Jonathan de Jesus, ex-deputado estadual no Amapá, sobre o assunto.

Ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Jesus deve estar preocupado com o prejuízo que o indicado por Alcolumbre para o fundo de pensão dos funcionários de seu estado dará a estas pessoas pelas aplicações temerárias feitas no Master.

No entanto, foi a cantilena contra a liquidação do Master que a mídia corporativa transformou em manchete em 8/1.  No dia seguinte, a Folha de S. Paulo, seguindo  à risca orientações da cartilha da guerra híbrida, no item como confundir pessoas, publicou manchete que tentava jogar no colo do governo federal o rombo do banco de Vorcaro: “Cofres públicos terão que cobrir rombo de fundos de previdência com Master”.

No caso, a manchete correta deveria ser: “Ministério da Previdência afirma que estados e municípios terão que cobrir prejuízos do banco Master em seus fundos de pensão”. Os estados e municípios em questão são todos administrados por políticos de extrema-direita, a exemplo de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Amapá, o que explica a omissão de seus nomes nas manchetes da mídia golpista.

Para aumentar a vergonha (se esta mídia tivesse vergonha), a autoridade monetária dos Estados Unidos reconheceu a liquidação do Master e bloqueou os seus ativos lá.

O desafio para a mídia corporativa agora é encontrar novos assuntos que possam ser sequestrados para atacar o governo Lula, pois não resta dúvida de que os ataques estão apenas começando num ano eleitoral que promete ser duríssimo.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG e membro do Conselho Deliberativo da ABI


domingo, 4 de janeiro de 2026

Por que é fundamental reeleger Lula em um momento de agressão à América do Sul

 


  Presidente Lula durante entrevista coletiva à imprensa

Texto original no Brasil 247

 

Texto editado / NMM:

Mais do que nunca, o Brasil necessita de liderança à altura do momento. Este líder é Lula

 

Os Estados Unidos sequestraram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sua esposa, Cilia Flores, e um de seus filhos.

Foram violadas leis, tratados e protocolos.

Essa intervenção, realizada no mais arrogante estilo imperialista, revive o pior da chamada Doutrina Monroe, segundo a qual os Estados Unidos outorgam a si próprios, por uma espécie de mandato que se pretende divino, o direito de intervir, a seu bel-prazer, em qualquer país da América Latina e do Caribe.

O pretexto dessa invasão, seguida de rapto, não poderia ser mais falso. Maduro não foi capturado por envolvimento com narcotráfico ou acusações semelhantes, mas porque simbolizava a revolução bolivariana, responsável pela nacionalização das reservas de petróleo venezuelanas, as maiores do mundo, retirando-as do controle estadunidense. Trump, de forma explícita, busca se apropriar desse tesouro subterrâneo.

Sequestro e espoliação. Evidentemente, este 3 de janeiro inaugura um período instável e ameaçador na fronteira do Brasil, em pleno território sul-americano e caribenho.

O Brasil, por suas dimensões, riquezas e interesses estratégicos, encontra-se sob ameaça. O governo brasileiro repudiou a ação estadunidense e defendeu a paz e o diálogo. O Itamaraty, com rapidez, reconheceu o governo constitucional agora exercido pela vice-presidente Delcy Rodríguez, que, além de exigir a libertação de Maduro, promete dar continuidade ao ideário da revolução bolivariana.

Teme-se que os EUA possam também interferir nos assuntos internos do Brasil. Mais do que nunca, a nação necessitará de firmeza e capacidade de diálogo para defender suas eleições e sua soberania. Nesse contexto, ressalta-se ainda mais a importância de Lula, como estadista experiente e como candidato capaz de salvaguardar os interesses nacionais em um momento tão desafiador.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

GLOBO REPETE FARSA DA LAVA A JATO

 



Texto original de Ângela Carrato no Viomundo


Texto editado – NMM:

Sem citar nomes de fontes, a jornalista Malu Gaspar, de O Globo (a de blusa laranja na foto), publicou na segunda-feira (22), texto cujo objetivo é óbvio: levantar dúvidas sobre a atuação do ministro do STF, Alexandre de Moraes, no caso do banco Master e fornecer munição para os combalidos centrão e extrema-direita.

O que a jornalista fez lembra as primeiras notícias que apareceram em O Globo, nos idos de 2014, quando a oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff ainda não tinha tomado as proporções que tomou.

Sobre Malu Gaspar, é importante não perder de vista seu lavajatismo militante. O livro, por ela escrito, “A Organização: a Odebrecht e o esquema de corrupção que chocou o mundo”, lançado seis meses após a saída de Moro do Ministério da Justiça, possivelmente seria peça importante para Moro em eventual campanha para a presidência da República.

A maioia do Congresso Nacional apoiou o golpe contra Dilma; e o STF (pressionado por militares e pelos EUA) endossou a decisão ilegítima.

Os seis anos de governos golpistas de Michel Temer e Jair Bolsonaro só foram possíveis, porque a aliança entre maioria parlamentar e STF se manteve. Aliança que começou a ruir quando a Suprema Corte, diante das evidências dos desmandos do então juiz Sergio Moro, não teve outro caminho a não ser colocá-lo sob suspeição e anular as sentenças contra Lula.

A vitória de Lula na eleição para presidente em 2022 era um dado com o qual Bolsonaro e seus aliados não contavam. Não apenas eles.

Contra Lula, como sempre estavam a classe dominante, que se pauta pelos interesses de Washington, parcela significativa dos militares e a totalidade do chamado mercado financeiro.

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A tentativa de golpe de estado com uma semana de Lula no poder precisa ser vista como parte de um roteiro adotado pela extrema-direita nacional e internacional para manter o Brasil submisso.

Em 2026, Lula será candidato à reeleição, com grandes chances de vitória. Como direita e extrema-direita brasileiras se encontram fragilizadas, de novo o grupo Globo parece assumir o papel de principal partido de oposição no país.

Entretanto, se a bilionária família Marinho, proprietária do grupo Globo, continua inimiga de governos progressistas, a realidade brasileira mudou muito.

Não existe mais aquela aliança entre a maioria do Congresso Nacional e o STF. Desde a tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023, a relação entre os três Poderes alterou-se substancialmente.

Se na Câmara dos Deputados, ainda predomina uma maioria golpista e sem compromisso com o Brasil e o povo brasileiro, no Senado o golpismo é menor.

Já o STF se colocou como guardião da democracia.

Há, no entanto, um ponto de convergência entre o governo Lula e ministros do STF, que vem desagradando profundamente a esta mídia: o combate à corrupção no “andar de cima”.

Enquanto os “bandidos” eram pobres, pretos e moradores de favelas, não havia problema serem mortos às centenas, como fez o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro.

Quando a corrupção exposta passou a ser a de poderosas fintechs, com sedes na avenida Faria Lima, coração financeiro de São Paulo, que lavam dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou a do dirigente do recém liquidado Banco Master, começam os problemas.

As operações da Polícia Federal envolvendo ricos e poderosos desaparecem da mídia em prazo recorde.

Não se fala mais no andamento da Operação Carbono Oculto e muito menos nos desdobramentos do fim do banco Master.

Tanto a Operação Carbono Oculto quanto a liquidação extrajudicial do Master expuseram ligações e atuações nada republicanas de parlamentares e governadores oposicionistas. A operação Valor Total, da PF,  encontrou na casa do líder da oposição na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcanti, R$ 469,7 mil em dinheiro.

O parlamentar se enrolou todo ao tentar explicar a origem do dinheiro.

Mesmo não sendo nada comum alguém ter quase meio milhão de reais em casa e não saber a sua procedência, o assunto desapareceu da mídia.

Você deve estar se perguntando qual a relação dessas operações da PF com o texto da jornalista Malu Gaspar. Já chego lá.

Se o ministro Alexandre de Moraes é o responsável por autorizar ações da PF envolvendo ações dos golpistas, por ser o relator da matéria no STF, o ministro Flávio Dino tem tido o mesmo papel em relação à falta de transparência das emendas parlamentares, que abocanham mais de R$ 50 bilhões do orçamento da União.

Em várias oportunidades estas ações têm se cruzado. Vale dizer: vários golpistas são também suspeitos de corrupção ou possuem ligações estreitas com corruptos.

Percebe, caro(a) leitor(a), como o cerco vai se fechando?

A esse cerco se soma também a resistência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, em aprovar a indicação do Jorge Messias para a vaga do ministro Luis Barroso.

Alcolumbre alegou compromisso com o nome do senador Rodrigo Pacheco para o cargo.

O apoio ao nome de Pacheco, já descartado, parece ter se pautado mais pelo temor de Messias ser mais um ministro que venha se somar às atuações implacáveis de Alexandre de Moraes e de Flávio Dino.

Chegamos assim finalmente ao ministro Alexandre de Moraes.

Se o jornal O Globo quisesse fazer jornalismo sério, o editor de política deveria ter pedido que Malu Gaspar nominasse pelo menos algumas das suas fontes citadas em off.

Como professora de Jornalismo na UFMG, ensino que informação em off não é para ser publicada. Deve servir como elemento para a apuração.

O jornalista não pode afirmar, sugerir ou insinuar ação de quem quer que seja valendo-se apenas de offs.

O nome disso é irresponsabilidade, da mesma forma que um médico não pode fazer o diagnóstico de um paciente por rumores ou por ouvir dizer.

Em qualquer país onde existem órgãos que zelam pela ética da mídia, um texto como esse da Malu Gaspar seria inaceitável.

E as razões são muitas. O texto, seja qual for a resposta dada pelo ministro, alimentará as dúvidas. Se, por outro lado, não houver resposta, o silêncio passa a ser entendido como “tendo algo a esconder”.

Daí a pergunta que não quer calar: a quais políticos ou setores interessam tentar desmoralizar o ministro Moraes?

Malu Gaspar, no programa Estúdio 1, da Globonews, deu sobre a matéria detalhes que não explicaram nada e se pautaram por um monte de suposições.

Já na terça-feira (23), outros veículos do grupo Globo assim a notícia: “Em nota, Moraes tergiversa e não responde se conversou com Galípollo para pedir pelo Master junto ao BC”.

Mais capcioso, impossível.

As conexões internacionais dos golpistas ficaram evidentes quando Donald Trump aplicou tarifa de 50% a produtos brasileiros exportados para o seu país e e impôs a Moraes e autoridades do governo Lula sanções com a lei Magnitsky.

Na semana passada, as sanções contra Moraes foram levantadas. O fato serviu para a mídia corporativa fazer muita fumaça, associando a decisão a um possível “acordão” para aprovar o projeto de lei da Dosimetria, uma espécie de anistia branca aos golpistas do 8 de janeiro, pois reduz significativamente as penas.

Lula, logo após a aprovação do projeto, anunciou que tão logo chegue à sua mesa, vai vetá-lo.

Da mesma forma, não há por parte do ministro Moraes qualquer indicação de que a dosimetria significará um afrouxamento geral das penas.

Ao contrário. Bolsonaro e os militares graduados passarão muitos anos presos.

O grupo Globo deflagrou essa tempestade contra o ministro Moraes porque sua esposa é advogada do banco Master. Do ponto de vista legal, não há nenhum problema. O advogado, em hipótese alguma, pode ser confundido com as ações de seu cliente.

Já do ponto de vista ético, cabem, sim, questionamentos ao ministro Moraes, como cabem a outros integrantes do STF, atuais e passados. Sabe-se, por exemplo, que parentes de quase todos os ministros sempre advogaram na Corte.

Muitos ministros participam de eventos aqui ou no exterior, regiamente pagos por bancos e grandes grupos econômicos.

Até agora nenhum veículo da mídia corporativa viu isso como corrupção ou tráfico de influência.

De mais a mais, dezenas de ministros e políticos conversaram com o presidente do Banco Central sobre o banco Master. Por que Moraes é o único suspeito de tráfico de interesses ou de lobby?

É importante observar que a metodologia utilizada agora pelo grupo Globo é a mesma adotada nos tempos da Lava a Lato.

O jornal O Globo, através de um de seus colunistas, levanta um assunto. O colunista, Merval Pereira, espécie de porta-voz da família Marinho, publica também texto sobre o assunto. Sinal para os demais veículos do grupo entrarem em campo.

Na terça-feira (23), dia seguinte à publicação, esta era a manchete do portal UOL, do grupo Folha de S. Paulo: “Magnitsky era o tema de reuniões de Moraes e BC, Master foi citado”. Não acrescentou nada, mas reforçou insinuações.

Até um estudante dos primeiros períodos de jornalismo sabe que citação em si não significa nada.

Como se a insinuação não bastasse, o UOL ainda buscou ativar na memória do seu público o tema da corrupção, ao mencionar que o “Master ocupou espaço deixado pela Odebrecht no pós-Lava Jato”.

Pronto. O link entre a suposta corrupção de Moraes e a corrupção supostamente combatida pela Lava Jato estava ativado. E o papel “salvador” da mídia também!

Esse tipo despudorado de manipulação da memória das pessoas em relação à Lava Jato explica por que o grupo Globo, até hoje, não informou para o seu público que os heróis por ele criados, Moro e Dallagnol, eram na verdade bandidos.

Jornal Nacional aguarda os desdobramentos do tema junto aos formadores de opinião. Daí a insistência de colunistas de O Globo e do grupo Folha ao se mostrarem “perplexos” pela Procuradoria Geral da República e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não terem tomado qualquer atitude.

Alguém se lembra destes colunistas terem cobrado das instituições quando os julgamentos da Lava Jato eram sumários ou quando Lula foi condenado sem qualquer prova e cumpriu 580 dias de prisão?

As barbaridades cometidas pela Lava a Jato, patrocinadas e acobertadas pela mídia corporativa, já seriam mais do que suficientes para que denúncias sem fonte e linchamentos sumários não tivessem mais lugar entre nós.

Lamentavelmente, isso é o que mais deve acontecer de agora em diante. A campanha eleitoral já começou e a mídia corporativa tudo fará para buscar enfraquecer o governo Lula e o STF, por enfrentarem os interesses do “andar de cima”, do qual a mídia é parte.

Fazer impeachment de ministro do STF é um dos sonhos da oposição.

Moraes é, portanto, apenas a bola da vez.

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Para quem adora um meme:

Malu Gaspar 

Malu Gaspar 2


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O dólar está morrendo. E agora?

 


Texto original de Paulo Nogueira Batista Jr.

 

Texto editado/ NMM:

É possível e desejável criar uma nova moeda internacional como alternativa ao dólar dos Estados Unidos? O tema é controvertido. Acredito que ela é não só possível, como desejável e talvez indispensável.

Já escrevi algumas vezes sobre a criação de uma nova moeda de reserva, inclusive aqui mesmo nesta coluna, sob o título “Como os Brics podem desafiar o dólar”. Desde então, desenvolvi a proposta de forma mais completa e abrangente. Vou resumir a ideia, que certamente precisa de aperfeiçoamentos e revisão.

Na história recente, o papel de moeda internacional foi desempenhado principalmente por moedas nacionais, emitidas e gerenciadas por bancos centrais nacionais. Como os objetivos nacionais do país ou países emissores geralmente não coincidem com os dos demais países, só por acaso a moeda internacional servirá de forma adequada aos interesses dessas outras nações.

Precisamos, na verdade, de algo que não tem precedentes práticos: uma moeda internacional que não desempenha funções nacionais. Mas não há alternativas disponíveis ou eficientes no mundo hoje.

Descartando alternativas

Um cenário possível seria continuarmos convivendo com o dólar (e secundariamente o euro). Mas isso não convém aos países emergentes do Sul Global. O sistema dólar é ineficiente, pouco confiável e até perigoso. Virou um instrumento de chantagem e sanções. Além disso, vai ficando cada vez mais clara a precariedade da economia dos EUA.

O dólar ser substituído por outras moedas do Norte Global também não se mostra factível. O euro também foi desvirtuado como instrumento de sanções. E a situação econômica da Europa é ainda mais problemática do que a dos EUA. O iene japonês tem problemas semelhantes; além disso, a economia japonesa não vai bem. As outras moedas do Norte Global ou são pequenas demais ou sofrem com as fragilidades dos países que as emitem. O ouro, por sua vez, dada a intensa volatilidade do seu preço, não tem condições de substituir o dólar, a não ser parcialmente, como ativo de reserva para os bancos centrais e outros agentes econômicos.

O único cenário seria a internacionalização da moeda chinesa. O renminbi vem se tornando importante no cenário mundial. Mas falta muito para que ele possa substituir o dólar de forma expressiva. E os chineses relutam em tentar.

Por quê? Para que a internacionalização da moeda chinesa fosse viável, haveria pelo menos duas pré-condições: a livre conversibilidade e a disposição de permitir uma grande apreciação cambial. No caso chinês, livre conversibilidade significaria essencialmente remover os controles de capital, elemento central da estabilidade da política econômica chinesa. A valorização externa do renminbi ameaçaria a competitividade das exportações, uma das fontes principais de dinamismo da economia chinesa. Por que mexer em time que está ganhando?

Mesmo que os chineses quisessem a internacionalização da sua moeda, do ponto de vista dos demais países do Sul Global, não estaríamos trocando seis por meia-dúzia? Uma outra moeda nacional, o renminbi, ocuparia o espaço deixado pelo dólar. Não ficaríamos mais ou mesmo na mesma? O renminbi substituiria o dólar, em parte ou totalmente, e a China passaria a emitir o ativo de reserva mundial. O resto do mundo continuaria a experimentar, ainda que de forma talvez mais branda, os problemas que já enfrentamos com o dólar.

Ou seja: há espaço para criar uma nova moeda de reserva. Qualquer proposta  enfrentará problemas geopolíticos (fundamentalmente a resistência dos EUA) e técnicos (não é fácil construir estrutura capaz de gerar confiança na nova moeda). Mas enfrentar o desafio parece necessário, inclusive porque não se pode descartar mais uma crise financeira de grandes proporções nos mercados ocidentais de capitais, como o estouro da bolha acionária associada à inteligência artificial e a empresas de tecnologia. Caso isso venha a ocorrer, a economia dos EUA e o dólar, já fragilizados, enfrentarão uma aceleração do seu declínio. Haverá uma busca desenfreada e desorientada de alternativas. Melhor, portanto, discutir alternativas sem demora.

Um caminho possível

Qual seria o melhor caminho para uma nova moeda?

Um caminho, em tese, seria lastrear a nova moeda em ouro. Contudo, como dar estabilidade a uma nova moeda apoiando-a em um ativo eminentemente instável?

Melhor seria dar confiança e lastrear a nova moeda de outra maneira. Vejamos como. Apresento a seguir uma discussão resumida dos aspectos essenciais.

Quem criaria a nova moeda? – um grupo de países do Sul Global, algo como 15 a 20 países, que incluiria a maioria dos Brics e outras nações emergentes de renda média.

Mas nenhuma instituição existente tem condições de emitir a nova moeda. Teria que ser criada, portanto, uma nova instituição financeira internacional, cuja única e exclusiva função seria emitir a nova moeda. Esse banco emissor não substituiria os bancos centrais nacionais e a sua moeda circularia em paralelo às moedas nacionais dos países do grupo patrocinador e em paralelo às demais moedas nacionais e regionais existentes no mundo. Ficaria restrita a transações internacionais, sem papel doméstico. Não seria, portanto, uma moeda tipo euro, que tomou o lugar das moedas europeias pré-existentes.

Como se garante o sucesso de uma moeda? O essencial é assegurar confiança, o que depende da maneira como o novo arranjo monetário for construído do ponto de vista institucional.

O caminho mais viável incluiriaas seguintes garantias legais: 1) estabilidade da nova moeda em termos de valor; 2) a sua não utilização como instrumento de sanção ou pressão sobre países; 3) autonomia operacional do banco emissor; 4) limite máximo para sua emissão; e 5) lastreamento da moeda numa cesta de títulos públicos dos países patrocinadores.

Abordo os cinco pontos. O primeiro e o quinto demandam um pouco mais de espaço.

A moeda, primeiro ponto, ficaria baseada numa cesta ponderada das moedas dos países participantes. Como todas as moedas da cesta, a nova moeda também seria uma moeda flutuante. Os pesos na cesta seriam dados pela participação do PIB PPP de cada país no PIB total do grupo de patrocinadores. A China ficaria com pelo menos 40/45% do total, dependendo da exata composição do grupo. A cesta teria certa estabilidade proporcionada endogenamente pela presença nela de moedas tanto de países exportadores como de moedas de importadores de commodities. Essa estabilidade poderia ser reforçada exogenamente, estabelecendo-se que a média ponderada seria geométrica e simetricamente aparada. As moedas com grande flutuação, para além de limites pré-estabelecidos, seriam temporariamente excluídas da cesta.

Segundo ponto: o compromisso explícito de não recorrer a sanções faria o contraste com a insegurança resultante do uso abusivo do dólar e do euro como base para punições e chantagem.

A autonomia operacional, terceiro ponto, seria assegurada concedendo aos presidentes e vice-presidentes do banco mandatos relativamente longos (cinco anos, por exemplo). Isso passaria a mensagem de que o banco não estaria facilmente sujeito a interferências políticas e manobras diplomáticas dos seus fundadores. Esse tipo de autonomia não protege totalmente o banco contra interferências, mas tem o seu valor. A administração do banco teria que prestar contas aos países patrocinadores, mas isso seria feito pelos canais institucionais normais, e não por pressões individuais sobre o presidente e os vice-presidentes.

Quarto ponto: um teto contra excesso de emissões; um freio que as moedas ocidentais não têm.

Mas esse teto seria um instrumento secundário, pois o mais relevante é a forma de lastreamento da nova moeda.

Quinto ponto, portanto: definir como lastro uma cesta da títulos nacionais dos países fundadores e daqueles que venham a se juntar depois. O banco emissor emitiria a nova moeda reserva (NMR) e novos títulos de reserva (NRB), cuja taxas de juro seriam atraentes, pois refletiriam os juros dos títulos das nações participantes, todos eles superiores às taxas dos títulos em dólares e euros. A NMR seria plenamente conversível em NRB e estes, por sua vez, na cesta de títulos dos países participantes. O elevado peso da moeda chinesa, emitida por um país de economia sólida, favoreceria a confiança no lastro e na NMR.

A reação do Ocidente

Um grave risco é o de que o Ocidente reaja com ameaças e sanções contra os países envolvidos na criação de uma alternativa ao dólar e ao euro. O Ocidente, em franca decadência, se mostra ainda mais arbitrário e violento do que em outras épocas.

O que temos de nos perguntar, entretanto, é o seguinte: vamos conviver indefinidamente com o sistema monetário e financeiro crescentemente disfuncional que o Ocidente criou desde a Segundo Guerra Mundial, e que vem sendo usado como instrumento geopolítico?

Os próximos anos dirão se os países emergentes estão à altura do desafio de criar uma alternativa ao dólar e ao euro.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Carta a um querido amigo

 



Nelson M. Mendes

Amigo, você apresenta aí, nesses vídeos, três figuras – vou logo dizendo – que não merecem o menor respeito: 1) um jornalista que foi porta-voz de general-ditador, porta-voz da mentira durante a pandemia e que continua sendo porta-voz do nazismo nacional; 2) uma deputada bolsonazista; 3) um senador bolsonazista.

O vídeo narrado pelo jornalista nazista e mentiroso repete o que muitos tentam há décadas: dizer que houve violência “dos dois lados”, que os opositores à Ditadura eram tão cruéis como os militares que a comandavam. O jornazista (o trocadilho não é meu)  é o cara que disse, a respeito da Covid-19 (link do vídeo aqui): “Não existe doença que não tenha tratamento, meu Deus do Céu. [...] Ou que não tenha prevenção. [...]” Em primeiro lugar, o jornazista diz uma imbecilidade sem tamanho; porque existem muitas doenças sem tratamento – inclusive Covid-19, que, como todas as gripes, tem tratamento apenas sintomático. Ele fala do uso do “protocolo” contra o vírus: o tal “Kit Covid”, que incluía Cloroquina, Ivermectina e mais alguns medicamentos. Mas já em 29 de março de 2021 a UFMG (a exemplo de outras instituições e especialistas) publicava que “é importante ressaltar que  não há tratamento medicamentoso que comprovadamente previna ou cure a Covid-19. Pelo contrário, evidências científicas mostram que além de não darem resultado, medicamentos do chamado 'Kit Covid' podem causar danos ao organismo.” Na verdade, pode-se ler a um clique no Google: “Ivermectina é indicada para o tratamento de várias condições causadas por vermes ou parasitas.” Já a Cloroquina é indicada para o “tratamento da malária e amebíase hepática”, entre outras doenças. Nenhum estudo científico sério associa Cloroquina e Ivermectina ao tratamento da Covid-19. Mas o bolsojornazista propagava essas mentiras sobre o milagroso “Kit Covid”, e queria, como seu mestre Jair, que as pessoas se aglomerassem e se contaminassem. A única solução era a vacina; mas o Jair Boçal Fascista recusou 11 vezes ofertas para compras da vacina. Primeiro, porque, como sabemos, era negacionista, achava que a Covid-19 era uma “gripezinha”; depois, porque era negocionista, isto é: queria fazer negócio, ganhar gordas propinas na compra da vacina. Quando era informado do crescimento exponencial das mortes pela Covid-19, respondia com deboche: “E daí? Não sou coveiro.” Em outros momentos, provocava: “Parem de mimimi. Vão ficar chorando até quando?” (Ele, entratanto, se tiver uma dor de barriga, é logo internado, sob assistência de uma dúzia de médicos...)

Quando se alega que, durante a ditadura inaugurada em 1964, a violência do regime era idêntica à dos que se rebelavam contra ela, devemos lembrar a frase do líder negro americano Malcom X, que se levantou contra a horrenda perseguição que sofriam os negros (eu ficava chocado com as cenas que via na TV): “Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor.” Mesmo uma pessoa pacífica pode reagir, por impaciência ou desespero. Mas, para o cínico jornazista, a crueldade dos militares, que sequestravam, torturavam e matavam equivalia à reação daqueles jovens malucos que sonhavam com um país mais justo e com mais liberdade.

Eu era criança em 1964. E, como nunca participei de qualquer movimento, não me interessava por política, nunca senti os efeitos do regime que eu chamo (só eu chamo) de plutomilitar. Explico: Plutocracia significa basicamente governo exercido pelos ricos, ou para os ricos; e aquele era um regime militar, mas que representava os ricos – inclusive os ricos estrangeiros...

Mas muita gente sentiu esses efeitos. As pessoas eram arrancadas de casa sem explicações. E muita gente NUNCA MAIS voltava para casa. Esse foi o tema do filme Ainda estou aqui, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Até meu pai, que nunca teve qualquer participação política, qualquer tipo de ativismo, se desfez de vários livros que poderiam talvez ser considerados “subversivos”... (Bastaria que tivessem capa vermelha!)

Só aos poucos a verdade vem aparecendo. Primeiro, porque até o fim da Ditadura, em 1985, verdade nenhuma aparecia, mesmo; depois, porque a grande mídia sempre fez o jogo dos poderosos e varria tudo para debaixo do tapete. Quando houve o impeachment da presidente Dilma (um golpe, como hoje o MUNDO TODO sabe), Jair Boçal Fascista, na época deputado, dedicou seu voto pelo impeachment a Brilhante Ustra, um conhecidíssimo torturador. Ora, esse cara torturava pessoas na frente dos filhos, enfiava rato na vagina das mulheres sob tortura, praticava todo tipo de barbaridades. Mas, para o Boçal Fascista, ele era herói. Aliás, Jair disse que a ditadura matou pouco: “Tinha que ter matado uns trinta mil.” O Boçal declarou, na Câmara (não a amigos num bar): “Se um dia eu tiver poderes para tal, não vai ter um centavo para ONG, um centavo para qualquer órgão relacionado a direitos humanos.” Entretanto, desde que a condenação do Boçal Fascista começou a despontar como inevitável,  ele e toda a sua corja, que sempre sustentaram que “bandido bom é bandido morto”, passaram a falar em direitos humanos; e em anistia – muito antes que de fato fosse condenado! O machão que se disse favorável à tortura está agora posando de velhinho decrépito e doente. (Mas vira de repente um atleta se puder concorrer à presidência – o que é impossível, porque já em 2023 foi declarado inelegível pelo TSE.)

O golpe de 1964, supostamente para evitar o “comunismo” no Brasil, teve participação ativa dos Estados Unidos. Isso está mais do que documentado: existem até áudios em que o embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, conversava com autoridades americanas sobre o assunto. Os Estados Unidos organizaram até a chamada “Operação Brother Sam”: uma esquadra (inluindo um porta-aviões) foi enviada para o litoral brasileiro, a fim de apoiar o golpe plutomilitar (lembre-se de que só eu uso esse termo) caso fosse necessário. Não foi: Jango, para evitar um “banho de sangue”, aceitou a derrota e abriu caminho para os militares; que depois promoveriam o banho de sangue mais covarde possível, porque contra pessoas presas e sob tortura. Quando o regime plutomilitar já estava instalado, alguém fez chegar ao presidente americano a informação de que pessoas estavam sendo torturadas e mortas no Brasil. O presidente respondeu que era bom, porque muitas pessoas mereciam morrer...

Esse general Augusto Heleno, que foi condenado, juntamente com o Boçal Fascista e outros bandidos, por tentativa de golpe de Estado, foi ajudante de ordens do general Sylvio Frota, que não queria a “abertura democrática” promovida por Geisel. O cara era mais linha-dura que Geisel, que ele achava “frouxo com os comunistas”! (Lembrando que qualquer um podia ser acusado de “comunista”.) Heleno vem dessa tradição mais que fascista – que é a mesma do Boçal. Fiquei sabendo, em editorial do site Brasil 247, que, antes do movimento antidemocrático que o Boçal Fascista começou a comandar praticamente desde que tomou posse em 2019, os militares tinham feito “onze intervenções” no país, sendo “a mais notória” a ditadura de 1964. Há duas diferenças entre o golpe de 1964 e o de 2019/2023: o primeiro visava derrubar um governo democraticamente eleito, e conseguiu; o segundo visava impedir que um governo democraticamente eleito tomasse posse, e não conseguiu. (Assim como Frota tentou derrubar Geisel, o “frouxo”, e não conseguiu.)

Todos esses caras do PL (e demais partidos de direita ou do “centrão”) representam o desejo de um regime ditatorial, a serviço dos super-ricos e dos Estados Unidos. (Você viu os bolsonaristas, no sete de setembro de 2025, desfilando com uma gigantesca bandeira americana?) E eles arrotam honestidade, mas são corruptos ao cubo. A família Bolsonaro, em alguns anos, comprou 107 imóveis, 51  deles pagos em DINHEIRO VIVO. E isso foi descoberto pelo UOL, que está muito, muito longe de ser um portal “comunista”. Para comparar: Lula foi condenado sem provas no caso do apartamento vagabundo no Guarujá, que nunca foi dele; assim como nunca foi dele o tal sítio de Atibaia, que um amigo lhe emprestava de vez em quando. O livro Comentários a uma sentença anunciada: o processo Lula traz artigos de 122 juristas, mostrando os crimes que Moro, Dallagnol e toda a quadrilha de Curitiba cometeram para que Lula fosse preso e impedido de concorrer em 2018. E o livro Falácias de Moro, do professor de Lógica e Filosofia Euclides Mance, mostra os absurdos, as falácias que Moro engendrou para culpar Lula. (Falácia é mentira de máscara e gravata.)


Ou seja: a quadrilha de Curitiba atropelou não apenas o Direito, mas a própria lógica, a racionalidade – alguns dos principais pilares que sustentam a Civilização... Lula foi vítima do que os americanos chamam de
lawfare – que é perseguição política através de instrumentos jurídicos. Já em 2017, depois de ler dezenas de artigos de grandes jornalistas, juristas, historiadores, cientistas políticos, sociólogos, etc., eu escrevi o texto “O lawfare que fere Lula”, discorrendo sobre a perseguição que Lula sofria no âmbito da Operação Lava a Jato, que tinha origem nos Estados Unidos, interessados em neutralizar políticos nacionalistas; como Lula, como Dilma, que também foi derrubada a partir de articulações dos americanos, sempre de olho em nossas riquezas e, naquela época, particularmente interessados no petróleo do pré-sal. (Lembrando que o governo Dilma já tinha sido espionado pelo “democrata” Obama...)

Eu acho que foram os americanos que inventaram não apenas o nome, mas a própria técnica do lawfare. E acho que inventaram também a chamada guerra híbrida. Eu ia tentar definir guerra híbrida; mas a definição do Google é perfeita: “A guerra híbrida é um tipo de conflito não convencional que mescla táticas militares com métodos não militares, como desinformação, ciberataques, interferência eleitoral, guerra de propaganda e pressão econômica e diplomática, para alcançar objetivos políticos sem recorrer a uma guerra aberta.” Esse filme já passou e continua passando em várias partes do mundo. Inclusive, óbvio, no Brasil. E sabe quem é o principal ator (tremendo canastrão) do filme, hoje? Um certo Donald Trump, o Nero do século 21, um criminoso psicopata que, assim como nosso Jair, jamais deveria ter chegado à presidência.

Como sabemos, a interferência dos Estados Unidos no mundo não é nova. Aliás, os países poderosos sempre se meteram em terras alheias. A História é um registro imenso de invasões, guerras. O filósofo Krishnamurti  lembrou que foi encontrado um tijolo, no Oriente Médio, em que alguém tinha escrito esperar que uma certa guerra fosse a última da história da humanidade; o detalhe é que o tijolo tem 5 mil anos... A escravidão de povos era praticamente a norma na Antiguidade. Pessoas das mais variadas culturas e cores (não apenas negros e  indígenas) eram escravizadas. Mas, mesmo na passagem do século 19 para o 20, países europeus exploravam colonialmente países pobres. No chamado “Congo belga”, sob domínio do rei Leopoldo II, atrocidades impensáveis eram cometidas. Veja o que encontrei na Internet: “No Congo de Leopoldo, o ato de decepar a mão ou o braço dos nativos era comum quando eles não conseguiam cumprir suas cotas de  extração do látex para a produção de borracha. Outros castigos físicos e torturas eram aplicados regularmente por uma milícia (Force Publique) financiada pelo rei [...] no final do século XIX.” Veja você: nós não estamos falando de Gengis Khan, de Calígula, de Átila, de algum sanguinário chefe tribal da remota antiguidade: estamos falando do rei de um prestigiado país da civilizada Europa dos nossos tempos.

Até ali pela primeira metade do século 20, quem mandava no mundo era a Inglaterra. Mas os EUA já vinham aparecendo como player mundial; e, depois da Segunda Grande Guerra, assumiram o posto de potência nº 1. E aí, claro, passaram a explorar com mais intensidade os países que poderiam ter riquezas do seu interesse. Como o Brasil, por exemplo – que, aliás, sempre teve elites dispostas a entregar o país ao colonizador; elites representadas no Congresso por parlamentares como esses do PL ou partidos semelhantes, e na mídia por jornazistas como o antigo porta-voz de general-ditador.

Abaixo, no primeiro gráfico, aparecem as intervenções dos EUA em outros países desde a Segunda Guerra Mundial; o Brasil sofreu intervenção em 1964, quando se instalou a Ditadura, e em 2016, quando Dilma sofreu o chamado golpe “jurídico, parlamentar e midiático”. (Faltou mencionar a prisão ilegal de Lula, que também teve dedo americano!) No segundo gráfico, à direita, são mencionados apenas os golpes de Estado propriamente ditos – como aquele que Jair tentou e pelo qual pegou 27 anos de cadeia. Esses gráficos mostram que os EUA se metem em todo canto. E continuam se metendo. E, como podemos ver, com entusiástico e criminoso apoio de brasileiros, incluindo gente com sobrenome do último general-ditador ou do pior presidente brasileiro da História.



Encontro no Google: “Os Estados Unidos mantêm centenas de bases militares [...] de 750 a 800 bases em mais de 80 países, embora o número exato possa ser mais elevado devido à falta de publicação completa de dados pelo Pentágono.” Que outro país tem 800 bases militares espalhadas pelo mundo? O mesmo Google (que é uma multinacional americana) diz: “A Rússia mantém um número relativamente pequeno de bases militares significativas no exterior [...]” E as bases são em geral nos países que fizeram parte da antiga União Soviética; há no máximo uma ou outra no Oriente Médio. Já a China possui umas três bases. E nem a Rússia nem a China têm bases do outro lado do mundo...



Eu li, chocado (mas não surpreso), o livro Confissões de um assassino econômico, do americano John Perkins. A Amazon traz uma resenha: “Este livro narra uma história verídica que expõe intrigas internacionais, corrupção e atividades pouco divulgadas do governo americano e de grandes empresas multinacionais, com consequências avassaladoras para a democracia e para o mundo como um todo. [...]” O livro mostra os bastidores das operações mais sujas promovidas pelos EUA para desestabilizar e até “assassinar” economicamente muitos países. O autor diz, logo no prefácio: “Os impérios nunca duram para sempre. [...] Nenhum país [...] pode subsistir a longo prazo pela exploração dos outros.”



Até as estrelas morrem; mas não morrem em silêncio: elas explodem. O Google diz que esse é “um dos eventos mais luminosos e violentos do Universo.” E o que está acontecendo com os Estados Unidos?

No texto A burrice do fim do mundo, que escrevi em 2019, eu digo que “a ordem mundial, predominantemente capitalista, deverá morrer devorando as próprias entranhas.” E prossigo: “Todo organismo ou sistema apresentam, no seu fim, ‘arrancos de cachorro atropelado’, como dizia Nelson Rodrigues [...]. O Capitalismo [...] veio para legitimar aquilo que, em princípio, a civilização pretendia superar: a ‘lei da selva’, o ‘direito’ que tem o mais forte de esmagar e expropriar o mais fraco. [...] e os manuais do Neoliberalismo usam explicitamente a expressão ‘instinto animal’ (animal instinct) em referência a uma qualidade, uma competência que devem desenvolver os  operadores econômicos. Obviamente, uma tal proposta civilizatória é natimorta.”

O centro do Capitalismo – EUA/Europa ocidental – está devorando as próprias entranhas. O emprego do “instinto animal” só deu certo para uma elite insignificante de milionários e bilionários. Nas ruas dos EUA, sobretudo (mas também na Europa), milhares de desempregados caminham como zumbis, sob o efeito de fentanil. A decadência do império salta aos olhos.

Enquanto isso, o Brasil, sem ter feito nenhuma revolução, tem inflação controlada, baixíssimo índice de desemprego (5,6%), está crescendo, na média, três vezes mais do que previam os economistas que trabalham para  o “mercado”; e está resistindo garbosamente às pressões que o império decadente (mas ainda poderoso) está fazendo contra o país. Trump, o Nero contemporâneo, tentou, em parte instigado pelo traidor filho de ex-presidente miliciano e pelo traidor neto de general-ditador, impedir que o Boçal Fascista fosse julgado pelo crime de tentativa de golpe de Estado. Nero 21 então aplicou tarifas de 50% aos produtos que exportamos para os EUA.  Além disso, cassou de algumas autoridades o visto de entrada nos EUA e aplicou, contra ministros do STF, a Lei Magnitsky, que  bloqueia bens que a pessoa possa ter nos Estados Unidos, mas, mais que isso, pode bloquear também operações financeiras que dependam de sistemas americanos; até um cartão de crédito de bandeira americana (como Visa e Mastercard) poderia ser bloqueado. A lei tinha sido criada, no governo Obama, para punir grandes criminosos – traficantes, genocidas. Mas o Nero contemporâneo (que confessadamente acha que pode fazer o que quiser, porque “sou o presidente dos Estados Unidos”), resolveu aplicar a lei, inicialmente, contra Alexandre de Moraes (e mais tarde contra sua esposa!), relator do processo que finalmente, em 11 de setembro de 2025, condenou o Boçal Fascista a mais de 27 anos de prisão.   Nero 21 queria que o presidente Lula interviesse no STF para barrar o processo. Em julho de 2025, chegou a mandar a Lula uma carta em que diz, referindo-se ao julgamento de Jair Boçal Fascista: “This trial must end immediately.” (“Esse julgamento deve terminar imediatamente.”) Ora, Lula não tem qualquer poder sobre o STF (e, se tivesse, com certeza não agiria em favor do Boçal Fascista). Nero 21 queria que Lula cometesse um crime! Como Lula se manteve firme, Nero aproveitou o pretexto do julgamento do “Trump dos trópicos” (como Jair é conhecido nos EUA) para atacar um dos tijolos do BRICS, o Brasil. (Obviamente estou fazendo um trocadilho com ‘brick’, que é ‘tijolo’ em inglês.)

O que o pretenso “imperador do mundo” deseja é impedir ou retardar a consolidação do chamado “mundo  multipolar” – o mundo em que não há mais um valentão mandando em tudo e em todos, e sim um conjunto de nações trabalhando em paz pelo progresso global. É exatamente esse o objetivo do BRICS, de que fazem parte, além do Brasil, entre os fundadores, também Rússia, Índia, China e África do Sul.  Muitos outros países aderiram ao grupo mais tardiamente, na condição de efetivos ou parceiros.  

A alegação de Nero 21, para impor ao nossos produtos tarifas de 50%, foi que a relação comercial com o Brasil era injusta para os EUA. Ora, essa é mais uma das absurdas mentiras inventadas por quem tem o poder – na linha da fábula O lobo e o cordeiro, em que o lobo, embora estivesse rio acima, acusa o cordeiro de sujar a água que o lobo estava bebendo. A verdade é que, nos últimos 15 anos, os EUA tiveram 410 bilhões de dólares de vantagem no comércio com o Brasil. Ou seja: a chamada “balança comercial” é amplamente favorável aos EUA.

Como foi dito, assim como nenhuma estrela morre sem fazer  tumulto, o império americano  (aliás, título de excelente livro do francês Claude Julien, publicado nos anos 70) está esperneando, espumando, rosnando, mordendo; como um cachorro hidrófobo.



Além de taxar produtos brasileiros em 50% e aplicar sanções a algumas autoridades, especialmente ministros do STF, Nero 21 demorou a conceder vistos de entrada nos EUA aos membros da delegação brasileira que iriam com Lula à Assembleia Geral da ONU. O Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, finalmente recebeu o seu – mas sob várias restrições à sua movimentação nos EUA. Padilha, dignamente, se recusou a viajar.

E por que o Nero 21 colocou obstáculos à entrada de Alexande Padilha? Porque ele, quando ocupou o mesmo cargo de Ministro da Saúde no governo Dilma, criou o programa “Mais Médicos”, que enviou médicos cubanos para cantões do Brasil aos quais médicos brasileiros não queriam ir. (Detalhe: médicos cubanos realizam missões semelhantes no mundo inteiro.)

Nero 21, autoritária e ilegalmente, já havia negado o visto a Mahmoud Abas,  Presidente da Autoridade Palestina, cancelou também o visto do presidente colombiano Gustavo Petro, que se manifestou contra o genocídio em Gaza, e negou o da presidente do PSOL Paula Coradi, sem apresentar explicações. Enfim, Nero 21 age exatamente como seu homônimo histórico.

Parece que, hoje, ter o visto de entrada nos EUA negado é atestado de bons antecedentes!

Nero 21, com essas atitudes ilegais, criminosas, está apressando o fim do império. Muitos analistas sustentam que os EUA já são uma ditadura. Mas, para muitos historiadores e cientistas políticos, eles estão apenas deixando claro o que sempre foram debaixo das aparência e da propaganda. “Democracia aquilo nunca foi” – disse o informadíssimo sociólogo e analista geopolítico Lejeune Mirhan. Hoje, no país da “liberdade de expressão”, onde é possível marchar com uma bandeira nazista e pregar a morte de negros, quem se manifesta contra o genocído praticado por Israel contra os palestinos é espancado e preso. Nero 21 chegou a  congelar o repasse de US$ 2 bilhões para a Universidade de Harvard, que permitiu protestos estudantis pró-Palestina em 2024. Entendeu? Para Nero 21, perseguir (e até matar) negros e latinos é tranquilo; mas falar mal de judeus sionistas, que, sob comando do Hitler 21 (Netanyahu), estão cometendo um dos maiores e mais covardes massacres de nossa era – ah, isso é um crime inaceitável. Se você quiser ter uma ideia do massacre, dê uma olhada em  O sionazismo e o verbo ‘judiar’, em que eu condenso cinco textos que mostram a situação do ponto de vista humano.



Lula ignorou as pressões e rosnados do Nero 21, abriu novos mercados, e as vendas brasileiras até aumentaram... O julgamento da quadrilha que tentou dar o golpe está sendo considerado exemplar: o mundo inteiro reconhece que a Democracia brasileira conseguiu fazer o que a americana não fez; porque o presidente americano deveria ter sido condenado por um crime semelhante ao cometido pelo Boçal Fascista que presidiu nosso país.

Pois bem: com todo o sucesso que está tendo na condução do país, econômica e socialmente, com todo o prestígio internacional, Lula tem índices de aprovação mais ou menos equivalentes aos de desaprovação. Por quê? Não deveria Lula estar com algo como 87% de aprovação, como no fim do seu segundo mandato, em 2010? O povo é maluco? desinformado? burro?

Talvez devêssemos responder, como nas provas de antigamente: “Todas as respostas acima.”

As pessoas que participaram daquele quebra-quebra em 8 de janeiro de 2023, que rezam para pneus ou para ETs, que acham que o Brasil é governado por um dos cinco ou seis clones de Lula – essas pessoas certamente são malucas.

Mas muitas pessoas não são tão insanas: simplesmente odeiam Lula, odeiam o PT. Por quê? Elas não saberiam responder. Mas eu sei: são décadas de propaganda contra o PT, contra qualquer político ou partido que pense no povo. Conheço pessoalmente gente que odeia o PT sem saber por quê. Há vídeos simplesmente hilários de pessoas entrevistadas em manifestações da extrema-direita, apoiadoras do Boçal Fascista. Elas não conseguem fazer uma frase com três palavras para explicar o que estão fazendo na manifestação... Essas pessoas são desinformadas e/ou burras, mesmo.



Muita gente acredita de fato que a Terra é plana. 7% dos americanos acham que leite  achocolatado é produzido por vacas marrons! Um amigo médico ouviu, num congresso, que 50% da população brasileira tem deficiências cognitivas resultantes de desnutrição na infância. Vamos simplificar: metade da população é deficiente mental porque não se alimentou adequadamente (ou passou fome, mesmo) na infância.

Fico sabendo, pelo Google (a enciclopédia e o oráculo da nossa era), que o Brasil ainda tem 9,1 milhões de analfabetos; e que “29% das pessoas entre 15 e 64 anos são analfabetas funcionais”, ou seja: não conseguem entender o que leem. Essa legião de deficientes e analfabetos (reais ou funcionais) é o gado que se deixa envenenar pelas mentiras (hoje conhecidas como fake news).

O Brasil tem tradição de fake news – muito antes que a expressão existisse, muito antes que existisse a Internet. As fake news (no feminino, porque traduzo como “notícias falsas”) são um dos instrumentos usados pelo poder econômico transnacional para fazer valer seus interesses. No texto  “O caso Veja” e o ocaso da mentira, baseado no livro do jornalista Luís Nassif, transcrevi uma passagem da revista Veja, citada numa dissertação de mestrado, que mostra como a revista, já nos anos 80, perseguia Lula: “[...] Em caso de vitória de Lula, existe a possibilidade de elevação da temperatura social do país, com greves e invasões de terras numa escala como nunca se viu.” Eu comento, na sequência: “Todos os brasileiros minimamente informados sabem que a elevação produzida pelos governos petistas foi a do nível socioeconômico do povo, de modo geral. Nem o chamado ‘poder econômico-financeiro’ teve do que reclamar!”

Em anos mais recentes, as mais variadas mentiras circularam sobre a Lula e o PT: que se Lula se viesse a ser presidente, uma pessoa com um apartamento de dois quartos teria de dividir o apartamento com um estranho; que o governo distribuiria nas escolas o “kit gay”; que o PT tinha dado mamadeiras eróticas para as crianças; que o filho de Lula tinha uma Ferrari de ouro e uma imensa fazenda (cuja foto, que circulou nas redes sociais, era na verdade a da sede da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba-SP); que Lula fecharia igrejas evangélicas... A lista é imensa. Mas a mentira mais prestigiada é a do “Lula ladrão.”



Muitas mentiras, sobretudo as que resultaram em processos contra Lula, foram construídas a partir de Washington. (Não nos esqueçamos dos confessos “assassinos econômicos”, que são apenas um dos muitos tipos de agentes do império usados para destruir e dominar outros países.) Hoje não se tem mais dúvidas de que Moro e Dallagnol foram preparados pelos EUA nas técnicas do lawfare. Muitos juristas apontavam que absurdas ilegalidades estavam sendo cometidas pelo juiz de Curitiba – que, para começo de assunto, jamais deveria ter sido indicado para aquele processo, uma vez que o suposto crime do triplex não havia ocorrido em Curitiba. Mas nem mesmo os juristas mais atentos e os jornalistas mais informados podiam imaginar que o bicho era mais feio do que se pensava.

O hacker Walter Delgatti, que por motivos pessoais havia começado a espionar mensagens de celular trocadas por pessoas do meio jurídico, terminou descobrindo que Moro e Dallagnol estavam articulando a condenação de Lula. Ou seja: o juiz, que deveria ser imparcial, que só deveria agir a partir do trabalho do procurador, havia se transformado em mais um procurador, mais um acusador. De fato, o juizeco de Curitiba dava orientações sobre a investigação, e dizia a Dallagnol que entrasse com qualquer medida judicial, por mais esdrúxula e ilegal que fosse, que ele avalizaria.

Capas de revista, muitas vezes, apresentaram Moro como adversário de Lula. (Toda a grande mídia torcia para Moro.) Uma delas chegou a mostrá-los como adversários num ringue de box! Ora, juiz não pode ser adversário de ninguém: juiz tem que ler os autos, ouvir o réu, ouvir o promotor, ouvir o advogado, ouvir as testemunhas, e, então, com base na lei, decidir. Como sabemos, tudo o que Moro fez, em conluio com o igualmente mafioso procurador Dallagnol, foi violar a lei. Lula tinha de ser impedido de concorrer à presidência de qualquer jeito. O enredo do filme nós conhecemos: Lula foi condenado num processo fraudulento, semelhante aos do Nazismo ou da Santa Inquisição, ficou 580 dias preso injustamente e aproveitou para ler dezenas de livros, tornando-se um líder ainda mais preparado. Finalmente, sobretudo a partir da revelação das conversas entre Moro e os demais bandidos da máfia judicial de Curitiba, captadas pelo hacker Delgatti, divulgadas pelo site The Intercept e autenticadas por perícia da PF, o STF teve de declarar Moro um juiz parcial e anular as condenações de Lula. (Em tempo: um juiz ser declarado oficialmente parcial é como um médico ser declarado assassino de seus pacientes.) Como o Brasil é formado por uma legião de analfabetos desinformados, Moro conseguiu se eleger senador; assim como Dallagnol se elegeu deputado federal – mas foi cassado por haver burlado a legislação eleitoral. Por enquanto, Moro continua falando besteiras no Senado e levando lá uma ou outra sarrafada de algum colega mais esclarecido e respeitável. Mas muitos prognosticam que o Marreco será abatido num futuro não muito distante.Em outubro de 2025 ele começou a julgado pela 1ª turma do STF por ter acusado Gilmar Mendes, em vídeo que correu a Internet, de vender habeas corpus; mas ele deverá ser futuramente julgado e condenado por crimes muito mais graves; sobretudo o de ter comandado, na Lava a Jato, um violento ataque à economia brasileira, que resultou na queda do PIB, e na extinção de 4,4 milhões de empregos.

Os estadunidenses são reconhecidamente idiotas e desinformados. (Lembremos do leite achocolatado.) Em geral, nem sabem apontar o Brasil num mapa. (O próprio Reagan, uma vez, chamou o Brasil de Bolívia.) Mas o chamado “complexo militar-industrial” (e financeiro, acrescentaria eu) sabe muito bem o que quer – e sempre quis muito. Livros como Admirável mundo novo, de Huxley; e 1984, de George Orwell, mostram como uma certa elite pode transformar o povo num rebanho obediente. 

E o complexo militar-industrial-financeiro não se contenta em tanger o próprio gado para o curral: ele, sempre de olho nas riquezas alheias – ouro, diamantes, petróleo, minerais especiais de grande valor para a tecnologia atual, biodiversidade, dados (informações), etc. – trata de estender seus tentáculos a todo o mundo; para conquistar o “gado” brasileiro, por exemplo.

Os Estados Unidos, particularmente depois da Segunda Guerra Mundial, se especializaram num outro tipo de intervenção, além da militar, em que tinham muita prática. Aliás, o já citado livro Confissões de um assassino econômico explica que a invasão militar era o último recurso. Se bem me lembro da sequência, primeiro os agentes estadunidenes (os “assassinos econômicos”) tentavam sabotar a economia do país hospedeiro; depois, subornavam os dirigentes locais; se não tivessem sucesso, podiam matar esses dirigentes; finalmente, se tudo falhasse, o governo estadunidense providenciava uma invasão militar. A propósito: neste momento, o governo do Nero contemporâneo mantém navios de guerra estacionados no Caribe, ameaçando a Venezuela, que tem a maior reserva de petróleo do mundo, a pretexto de combater o narcotráfico. Mas os EUA não vão invadir a Venezuela; porque, segundo o jornalista americano Brian Mier, eles fizeram, em seus supercomputadores, várias simulações de guerra com a Venezuela – e perderam em todas. A Venezuela é bem armada, tem um exército nacionalista (ao contrário do nosso), e conta, além do exército regular, com a Milícia Nacional Bolivariana – uma organização que tem milhares de pessoas com treinamento militar. Estima-se que 4,5 milhões de pessoas poderiam se integrar a essa milícia do bem. Por tudo isso é que os EUA sabem que a Venezuela seria um inferno – um novo Vietnã.

Mas eu dizia que invasão militar é sempre o último recurso – embora, como  pudemos ver nos gráficos, o recurso militar tenha sido amplamente utilizado. Eles começam com o soft power (que eu traduziria como “conversa mansa”): a influência cultural, sobreudo através do cinema. A partir de Hollywood, um fluxo avassalador de informações distorcidas e valores estadunidenses tem inundado o mundo há muito tempo. São décadas de lavagem cerebral – brainwashing, em Inglês – termo aliás criado pelo jornalista estadunidense Edward Hunter em 1950. Todos nós aprendemos, com os filmes, que os indígenas, os mexicanos, os russos, os japoneses e chineses eram os “bandidos”; os estadunidenses, em geral branquinhos, bonitinhos, musculosos e espertos, eram os “mocinhos”. Ainda hoje essa ideia predomina na cabeça de muita gente.

Hoje o Japão  ocidentalizou-se e virou “mocinho”. O “bicho-papão”, hoje, é a China – mais temida e odiada do que a própria Rússia. Por quê?

Todos nós – o mundo todo, aliás – ficamos impressionados com o fato de que Lula tirou milhões de pessoas da extrema miséria. Já em 2014, no governo Dilma, que tinha continuado muitas políticas de Lula, o Brasil saiu pela primeira vez do chamado Mapa da Fome, da ONU. Com o impeachment fraudulento e o governo do traidor Temer, o país despencou ladeira abaixo em todos os sentidos: econômico, social, cultural, político. Nós vimos como o trabalhador foi prejudicado depois que Dilma foi derrubada e assumiu Temer, que implementou políticas que jamais tinham feito parte do programa de governo da Dilma. No governo do Boçal Fascista, o Brasil voltou ao Mapa da Fome. 33 milhões de pessoas passavam fome quando Lula assumiu seu terceiro mandato. Em 2023, 24,4 milhões de pessoas já tinham saído da situação de fome. Em meados de 2025, a ONU tirou o Brasil do Mapa da Fome pela segunda vez. Um feito impressionante. Mas nada comparável ao que fez a China, que, desde o final dos nos 1970, tirou quase um bilhão de pessoas da miséria! 

É por isso que a China é odiada. Como é que o Capitalismo, que, segundo o próprio Google, “tem a acumulação de capital como seu objetivo primordial”, vai admitir que a riqueza seja distribuída, que não haja uma multidão de miseráveis (chamados jocosamente por Collor de “descamisados”) sustentando uma elite de ricos e bilionários? 

Minha sogra conheceu uma mulher que, se ouvia alguém falar a palavra “social” – ação social, problema social, etc. –, já ficava achando que a pessoa era “comunista”. Ora, nesse caso até você, Amigo, seria “comunista”; porque me lembro perfeitamente que você falava em ajudar as pessoas carentes, mesmo que fosse preciso subir favelas. (Você pode ter esquecido; mas isso ficou gravado na minha memória dos 15 anos.) E você estaria na boa companhia de outros “comunistas”: Mandela, Gandhi, Luther King, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce, Padre Júlio Lancellotti, São Francisco de Assis, Lula... e até Jesus Cristo. (As comunidades cristãs primitivas, aliás, viviam num regime de partilha, de solidariedade, de fraternidade, que poderia até ser chamado de “comunismo” – muitos séculos antes que a palavra existisse. E só mais uma coisa: o Comunismo, tal como idealizado por Marx, jamais existiu em lugar algum do mundo. O que houve no tempo de Stalin foi uma ditadura comandada por um psicopata.)

O que acontece é que há uma luta terrível para manter as coisas como estão – basicamente um sistema em que uma grande base de pobres e até miseráveis sustenta uma pequena elite de ricos e bilionários: o Capitalismo, atualmente amparado por uma “doutrina de proveta”, o Neoliberalismo. Com isso, a concentração de renda só tem aumentado no mundo. Até nos EUA existem milhões de pessoas na miséria. Cristo aprovaria essa injustiça? Claro que não. Mas os pastores mercenários, “vendilhões do templo” (nem é preciso citar nomes), não só aprovam, como promovem essa injustiça.

Mas o Capitalismo, embora já tenha uns 500 anos, não é o sistema definitivo. Nada é definitivo. (Excetuando a Verdade, com ‘v’ maiúsculo, aquela difundida por grandes sábios, como explicou Cristo: “Passará o Céu e a Terra, mas minhas palavras não passarão.”) Eu até vi um documentário que me deixou preocupado: segundo os cientistas, a taxa de natalidade de estrelas está mais baixa que a taxa de mortalidade. Mais estrelas estão morrendo, que nascendo. Isso significa que, em algum momento do futuro, o universo ficará escuro e gelado.

A Civilização é uma construção constante. Assim como é constante e antigo aquele fenômeno que apenas no século 19 receberia um nome, dado por um certo Karl Marx: luta de classes. Não foi Marx que inventou a luta de classes; assim como não foi Newton que inventou a lei da gravidade. Ela existia no Egito, na Grécia, em Roma, na Índia... A Revolução Russa de 1917 aconteceu principalmente porque o povo tinha uma vida miserável, oprimido pela monarquia. Em 1789 já tinha havido a Revolução Francesa, pelo mesmo motivo. (A propósito: muita gente sente calafrios quando ouve falar em “esquerda”. Mas sabe quando a palavra ganhou esse sentido político? Exatamente na época da Revolução Francesa: na Assembleia Nacional, os parlamentares partidários do rei, conservadores, se sentavam à direita do presidente da assembleia; e os opositores, à esquerda. Foi só no século 20, em grande parte por causa da propaganda americana, que “esquerda” virou praticamente sinônimo de “comunismo”.)

Esquerda significa basicamente mudança. A História só se move para a esquerda. Na passagem do Feudalismo para o Capitalismo, o Capitalismo representava a esquerda! Os senhores feudais, grandes proprietários de terra e exploradores dos camponeses, representavam a direita, ou seja: queriam que as coisas permanecessem como estavam. Eles eram os nobres. Mas já surgia o Mercantilismo, que foi uma espécie de embrião do Capitalismo. Surgiam os comerciantes, que se reuniam nas pequenas cidades e que eram desprezados pela nobreza feudal. Acabo de encontrar no Google a explicação que me foi dada por um velho professor de História: “Vilão” vem do latim villanum, e originalmente a palavra era usada para designar aquele que nasceu ou habitava em uma vila. Entendeu? Para os senhores feudais (os nobres), os comerciantes eram pessoas ruins; e viviam nas vilas. Vem daí o sentido virtuoso da palavra nobre; e o sentido depreciativo da palavra vilão.

Hoje os antigos vilões representam a burguesia, a “gente de bem”. E os nossos senhores feudais (o agronegócio) estão totalmente integrados ao Capitalismo: usam tecnologia de última geração, têm jatinhos particulares (eventualmente usados para transportar meia-tonelada de cocaína), têm ações na Bolsa de Nova Iorque, luxuosos iates e dinheiro em paraísos fiscais.

Em junho de 2024, eu escrevi um texto – A verdade sobre a corrupção  retomando um assunto sobre o qual eu tinha lido mais de 10 anos antes: a questão da “grande corrupção”, nas palavras do saudoso jornalista Pedro Porfírio. Trata-se da roubalheira gigantesca nos meios empresarial e financeiro. Em geral, a mídia só fala da corrupção dos políticos, que ganham apenas gorjetas; mas eis que, no dia 28 de agosto de 2025, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto, “considerada a maior ofensiva contra o crime organizado no país”. O interessante dessa operação é que ela atingiu o coração do Capitalismo no Brasil: o Mercado Financeiro, representado pela Avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, que acolheu 30 bilhões da organização criminosa PCC. (Nem é tanto, considerando que os deputados arrancam do governo, com “emendas pix” e outros artifícios, mais de 50 bilhões – que ninguém sabe exatamente em que são aplicados.) Até a grande mídia, muito a contragosto, teve de dar a notícia. Mas repare: ela sumiu das telas de TV, dos grandes portais de Internet. Porque não interessa à grande mídia (praticamente toda ela, hoje, pertencente a grupos financeiros) que se confirme e divulgue aquilo que muita gente (eu, inclusive) sempre soube: a relação entre crime organizado e Mercado Financeiro (gosto de grafar em maiúsculas para frisar o caráter institucional) não é eventual, não acontece de vez em quando; na verdade, o Mercado Financeiro é que é  grande organização criminosa, que abriga tudo.

“Na guerra, a primeira vítima é a verdade.” Eu conhecia a frase; mas, quando fui ao Google buscar-lhe a autoria, descobri que ela é atribuída a várias pessoas, a começar pelo dramaturgo grego Ésquilo... Bem, da Antiguidade para cá, acho que as coisas só pioraram: a arte de mentir foi extraordinariamente aperfeiçoada.

O que a grande mídia faz é mentir. Sempre fez. Ela, que sempre defendeu os interesses dos ricos e poderosos, hoje pertence quase toda a grupos financeiros; portanto, defende ainda com mais empenho os interesses dos ricos e poderosos. O prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, chamou de “mercenários da Plutocracia” aqueles jornalistas que são pagos para mentir em favor do poder econômico – ou seja, em favor da Plutocracia. (Eu poderia fazer uma lista, que tem nomes bem conhecidos; mas confesso que prefiro evitar a náusea.)

Nesses nossos tempos de Internet, a mentira encontrou terreno muito mais propício ainda para se propagar como fogo em capim seco. Muitas pessoas não se informam, não leem, não pesquisam; vivem nas suas bolhas de WhatsApp, Facebook, Instagram, Tik Tok. Recebem e engolem passivamente as mais absurdas fake news; e as compartilham automaticamente, muitas vezes sem terem nem mesmo tomado realmente conhecimento do assunto. Há estudos sérios sobre isso.

É nesse terreno que figuras hediondas como o jornazista do vídeo sobre os “subversivos” pós-golpe de 1964 criam raízes, florescem e lançam ao vento suas sementes nefastas.

O dia 21 de setembro de 2025 marcou o fim do inverno; no Brasil, foi o dia em que milhares de pessoas foram às ruas, em várias cidades do Brasil, protestar contra a “PEC da blindagem” (a qual exigiria a autorização do Congresso para que deputados ou senadores viessem a ser processados por seus crimes) e contra o projeto de anistia aos golpistas que tentaram a manter o Boçal Fascista no poder, impedindo que Lula assumisse o terceiro mandato. No Rio, o evento em Copacabana foi histórico: no alto do carro de som, figuras quase mitológicas da MPB, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Ivan Lins e Paulinho da Viola (para citar apenas os mais velhos), mais uma vez vocalizaram, pelas canções ou breves discursos, seu apego pela justiça, pela democracia, pela verdade.




Devemos ter sempre em mente a questão da verdade. O nome deste blog é Satyagraha, que significa “apreço pela verdade”. Esse era um dos princípios ético-filosóficos em que Gandhi se sustentava.

Ora, a verdade é artigo raro. Sempre foi. Muitas mentiras, como aquelas sobre as riquezas de Lula ou sobre a Covid-19 (um crime que pode ter resultado na morte de 400 mil pessoas, segundo especialistas), podem surgir espontaneamente ou ser criadas em laboratório. Mas a coisa pode ser pior: há tentativas de criar fatos. Para ficarmos apenas no Brasil e apenas do século 20 para cá:

1) Em 1937 os militares elaboraram o Plano Cohen, “uma das maiores falsificações da história brasileira”, segundo a própria Wikipédia. O plano previa tumultos, incêndios e até assassinatos – tudo atribuído aos “comunistas”. Prossegue a Wikipédia: “Como parte da farsa, ele foi ‘descoberto’ pelas Forças Armadas [...] e, enfim, foi utilizado para legitimar o golpe de Estado que implantou o Estado Novo.”

2) Em 1968, o brigadeiro Burnier, de triste memória, planejou atos terroristas, entre os quais explodir o gasômetro, no Rio de Janeiro. Informa a Wikipédia: “Apenas a explosão do gasômetro, planejada para ocorrer na hora do rush, mataria em torno de 10 mil pessoas. A culpa seria atribuída aos comunistas [...]” Estávamos no auge da ditadura plutomilitar (conduzida pelo militares, porém a serviço dos ricos), mas os militares queriam um pretexto para convencer a opinião pública de que era preciso agir ainda com mais violência. O Capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho (conhecido como Sérgio Macaco) foi encarregado de cumprir a missão terrorista; ele se negou,  e disse que daria “conhecimento de tais fatos ao ministro”. O Capitão Sérgio Macaco, depois disso, foi perseguido na Aeronáutica. Em 1992, o STF determinou que ele deveria receber a patente de brigadeiro – mas ele morreu dois anos depois sem que a decisão do STF tivesse sido cumprida. Na história brasileira, entretanto, ele figura como herói que evitou a morte de milhares de pessoas inocentes.

3) Em 1981, houve o famoso Atentado do Riocentro. Era o governo de João Figueiredo, o último general-presidente da ditadura plutomilitar, que parecia empenhado em surfar a onda da “abertura democrática” e fingir que era ele que produzia a onda. Mas muitos generais – de farda ou de pijama – não concordavam com a abertura. Atentados militares terroristas (é bom enfatizar o termo)  já vinham ocorrendo em toda parte. No ano anterior, Lyda Monteiro, secretária da OAB, havia morrido ao abrir uma carta-bomba endereçada ao presidente da Ordem. Houve banca de jornal incendiada porque vendia jornal que fazia oposição à Ditadura. Enfim, os “gorilas” não queriam largar o osso, não admitiam passar o poder aos civis. Por isso, mais uma vez planejaram um atentado, “com o objetivo de incriminar grupos que se opunham à ditadura militar no Brasil” – nas palavras da Wikipédia. Ou seja: mais uma vez, iam colocar a culpa nos “comunistas”.

No Riocentro, naquela noite de abril de 1981, ocorria um espetáculo, em comemoração ao Dia do Trabalhador, em que grandes nomes da MPB (muitos dos quais estariam no show “sem anistia” em 2025, em Copacabana) entretinham 20 mil pessoas.

O saudoso Alceu Amoroso Lima escreveu, no Jornal do Brasil, um artigo em que ele enfatizava o caráter de justiça divina (as palavras são minhas, mas a ideia era essa) que marcou o episódio: a bomba explodiu dentro do carro (um Puma), no estacionamento. Um sargento morreu, e um capitão ficou ferido. As 20 mil pessoas talvez nem tenham ouvido a explosão.



Vemos, portanto, que, além da tradição de mentiras, de propaganda, de lavagem cerebral, há uma tradição de atentados com false flag (falsa bandeira). Isto é: atentados planejados ou realizados por um determinado grupo, com a intenção de culpabilizar um outro grupo, ou até outro país. Muitos não deram certo, ou nem chegaram a ser realizados. (Na véspera do Natal de 2022, por exemplo, falhou o plano, engendrado pelo bolsonarismo inconformado com a derrota, de explodir um caminhão-tanque no aeroporto de Brasília, o que poderia resultar na morte de centenas de pessoas.) Mas o jornalista Sebastião Nery fez uma lista de uma meia-dúzia de atentados que realmente aconteceram e produziram os efeitos desejados, em várias partes do Brasil. Temos, portanto, de estar em guarda contra contra o terrorismo de Estado – como o praticado por Israel e pelos EUA –, a desinformação, a mentira.

Como as mentiras ditas pelo Boçal Fascista que desgovernou o Brasil  até 2022. Ao pesquisar na Internet, sou informado de que o genocida “mentiu 6.676 vezes durante o seu governo”; o que dá uma média de “4,58 mentiras por dia”, de acordo com a Agência Aos Fatos. Mas a informação foi divulgada pelo PT; portanto, caberia buscar outra fonte. Encontro várias, mas uma me chama a atenção: uma noticia de que Jair contou “1 mentira a cada 3 minutos no Jornal Nacional [...]” O que há de interessante nessa notícia é que ela foi divulgada pelo insuspeito Estadão, o jornal que, em 2018, disse que, entre Haddad e o Boçal Fascista, o eleitor estava diante de “uma escolha muito difícil”. Sim, foi esse o título do editorial em 8 de outubro de 2018! De fato, era muito difícil escolher: Haddad, um professor com PhD, tinha sido excelente ministro da Educação e excelente prefeito de São Paulo; Jair é um miliciano psicopata que nunca na vida fez nada que preste.(Hoje Haddad é o excelente Ministro da Fazenda do terceiro governo Lula; e foi a mão que elaborou o PL que concede isenção de IR a quem ganha até 5000 reais – o que era promessa de campanha de Lula.)

Até o Estadão teve de reconhecer que o miliciano, além de boçal, covarde, preguiçoso, ladrão e genocida, era um mentiroso de primeira ordem.

Enfim, o que eu quero dizer é que nós temos sido enganados. Mentiras – ou fake news – levaram ao suicídio de Getúlio, ao golpe contra Jango (que era fazendeiro e de comunista não tinha nada), ao golpe contra Dilma, à prisão de Lula...

Esse Congresso atual é considerado por muitos o pior da História. Ocorrem-me imediatamente alguns nomes de deputados e senadores desprezíveis, que trabalham contra a verdade, contra o povo, contra a ética – mas  frequentemente em nome de Jesus... Em vez de trabalhar pelas causas de interesse do povo, fazem encenações para gravar vídeos que serão divulgados nas redes sociais. E defendem propostas como o aumento do número de deputados, a blindagem para bandidos e o perdão para golpistas – todas elas devidamente sepultadas por causa do clamor popular.

Por motivos de assepsia, não vou citar nomes; mas esses deputados e senadores são em geral filiados a partidos que defendem os super-ricos, como PL, União Brasil, Republicanos, Novo e outros menos conhecidos.

Amigo, a essa altura você deve estar pensando que sou “ateu e comunista”. Bem aqui vai uma informação: não sou comunista, e muito menos ateu. Eu até acho que aquele Comunismo idealizado por Marx foi mais uma proposta de instalação da Utopia, de criação de um mundo menos desigual.  Em 2018 escrevi um texto – Analfascistas e Esquerdoentes – abordando o assunto: “Ressalte-se que a mera mudança de sistema econômico ou regime politico pode não representar o passaporte para o Paraíso. Platão já falava disso: Como são encantadoras as pessoas! [...] acreditam que, por meio de reformas, terminarão com as desonestidades e canalhices da espécie humana [...] Na verdade, muitos sábios contemporâneos falam a mesma coisa: a mudança social (verdadeira, profunda, profícua) terá que ser antecedida pela mudança pessoal. A qualidade da água de um rio depende da qualidade das infinitas gotas que o formam.” 

Portanto, eu sou “comunista” no sentido em que São Francisco e Gandhi eram comunistas. Gandhi dizia expressamente não acreditar que o Comunismo pudesse ser implantado na marra (claro que não foram essas as palavras), de cima para baixo; mas acreditava no que eu chamo de comunismo informal, aquele regime, baseado na boa vontade e na solidariedade, que prevalecia nas comunidades cristãs primitivas, antes que existissem o Vaticano, o Papa, aquela coisa toda. (No entanto, enquanto isso, temos de ir tentando fazer reformas, criar leis e tribunais para evitar que os criminosos se locupletem e sabotem os progressos civilizacionais que poderiam pelo menos minorar os sofrimentos humanos.)

Quanto a ser ateu: não tenho religião, embora respeite todas. Nunca tive paciência para missas ou quaisquer cerimônias religiosas. (E só agora, prestes a fazer 72 anos, estou lendo a Bíblia, na qual, aliás, estou encontrando um monte de absurdos! Acredito que as coisas melhorarão quando eu chegar ao Novo Testamento...) Mas ateu não sou de jeito nenhum. Ao professar o ateísmo, eu estaria contrariando minha natureza tão radicalmente como se adotasse uma religião qualquer. Um filósofo inglês – Paul Brunton – disse uma coisa com que me identifico bastante: “Não tenho religião e tenho todas.” Na verdade – que nenhum evangélico nos ouça –, todas as religiões são uma só. Faz diferença se falamos Deus, Dieu, God ou Alá? Assim como existem muitas línguas, muitas culturas, existem muitas religiões; ponto final. E existem as pessoas, como eu, que têm sua própria religião – digamos assim – e colhem gotinhas de sabedoria de todas as outras,  assim como o beija-flor bebe o néctar de inúmeras flores.