segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Terraplanismo climático

 

Uma imagem contendo estrela, água, céu noturno

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

 

 

Nelson M. Mendes

A Odontologia estabeleceu, há muito tempo, que uma boa higiene bucal é importante para a saúde dentária, e que o açúcar é um dos alimentos que mais contribuem para o desenvolvimento de cáries. Estou correto? Acho que 99,999% dos dentistas diriam que sim.

Mas eu não me espantaria se aparecesse um maluco dizendo que ninguém precisa usar fio dental, escovar os dentes, e que o açúcar não é prejudicial para os dentes. Afinal, antigamente acreditava-se que banho fazia mal à saúde, e as pessoas tomavam apenas um banho por ano. (Sabe-se de pessoas que nunca tomaram banho na vida.)

Luiz Carlos Molion é um climatologista, professor aposentado, que corresponde ao 0,001% (espero que a matemática esteja certa) da comunidade odontológica que acha higiene bucal uma besteira, e garante que açúcar não faz mal para os dentes. NINGUÉM no meio científico leva esse cara a sério.  Diz o Google sobre Molion: É um dos principais representantes do negacionismo climático no Brasil, alegando que o homem e suas emissões de gases estufa na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento global”.

Para quem não está familiarizado com a palavra negacionismo: trata-se de uma tendência, ou corrente cultural, ou inclinação emocional (neurótica...) a negar aquilo que está científica ou historicamente demonstrado. Por exemplo: muitas pessoas, de índole nazifascista, negam até hoje que tenha havido o Holocausto – aquele programa de Hitler que consistiu no extermínio, nas câmaras de gás, de milhões de pessoas, 6 milhões delas judias. (Hoje os judeus negam que haja genocídio de palestinos em Gaza.) Ainda há pouco tempo, Jair Boçal Fascista negava que a Covid-19 fosse coisa séria (era “uma gripezinha”), negava a única solução (a vacina) e insistia em tratamentos inúteis e perigosos (Cloroquina e Ivermectina). Especialistas estimam que pelo menos 400 mil vidas poderiam ter sido salvas se Jair Boçal Fascista tivesse agido como um presidente de verdade no enfrentamento da Pandemia.

É claro que o homem não pode produzir, no clima do planeta, o impacto imediato e devastador resultante da erupção de um supervulcão, como o que existe debaixo do Parque de Yellowstone, nos EUA, ou da queda de um grande meteoro. Mas os cientistas já provaram que a emissão de gases de efeito estufa, paralelamente à industrialização, vem fazendo a temperatura subir perigosamente. Vejamos o que diz o Google:

A temperatura média global já aumentou cerca de 1,34°C a 1,55°C acima dos níveis pré-industriais (1850-1900), com 2024 sendo o ano mais quente já registrado e superando temporariamente a marca de 1,5°C. O limite crítico estabelecido pelo Acordo de Paris é de 1,5°C para evitar consequências catastróficas, com um limite máximo de 2°C.

Molion insinua que deve haver algum interesse por trás da ideia do aquecimento global. Ora, o que todos sabemos é que há gigantescos interesses em negar que o uso de combustíveis fósseis produz gases que levam ao efeito estufa, ao aquecimento do planeta. Os ricos produtores de petróleo sempre podem contratar cientistas para provar que esse negócio de aquecimento global é uma “besteira”, como diz Molion, assim como a indústria de tabaco pagou cientistas para demonstrar que o cigarro não fazia mal à saúde. (Houve um sujeito que escreveu um sólido trabalho provando que Napoleão Bonaparte jamais existiu, é uma figura mitológica. Era apenas um exercício de retórica, mas deve ter abalado as convicções de muita gente... Outro que brincou com as convicções alheias foi o físico Alan Sokal: em 1996 ele submeteu o artigo Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica à revista Social Text. Segundo o Google, Sokal propunha que a gravidade quântica é uma construção social e linguística”, e seu objetivo era “testar o rigor intelectual da revista diante de “um artigo repleto de absurdos. A revista não consultou especialistas e publicou o artigo, que gerou grande repercussão. Semanas depois, numa outra revista, Sokal revelou que era tudo uma brincadeirinha, uma farsa.)

O professor aposentado também garante que o desmatamento não causa nenhum problema. Ora, mais uma vez, isso é como negar a lei da gravidade, negar que açúcar causa cáries, negar o que a ciência já demonstrou fartamente.

O extraordinário fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado, falecido em 2025, voltou em 1998 à fazenda da família, em Minas Gerais, e descobriu que o desmatamento a havia transformado num deserto. Sebastião decidiu que iria recuperar a terra. A revista Superinteressante fez matéria sobre o assunto: “Como Sebastião Salgado plantou uma floresta do zero – e salvou 2 mil nascentes”. O documentário “O Sal da Terra”, além de nos deixar atordoados com a beleza e o poder jornalístico das fotografias de Salgado, registra que o reflorestamento fez voltarem até as onças pintadas...

Eu mesmo tive, em ponto pequeno (como se dizia), uma experiência semelhante à de Sebastião Salgado: nos anos 60, toda a família costumava passar férias no sítio dos nossos avós. Meu pai, então, resolveu comprar um outro sítio nas proximidades – um pouco mais escondido, encostado num morro. Eu fiquei fascinado, na primeira vez que visitei o sítio, com um autêntico “olho d’água”, com o diâmetro talvez de uma mangueira de bombeiros, que saía do chão uns dez centímetros, como um pequeno chafariz. Mais para os fundos do terreno, escorria pela lisa pedra uma cortina d’água que meu pai logo batizou de “Cascatinha”, na qual passamos a nos refrescar nos dias de verão.

Corta para os anos 80. O desmatamento na região havia progredido. E nem uma gota de água jorrava do terreno antes tão pródigo. Como não havia nenhum Sebastião Salgado para promover o reflorestamento, jamais as nascentes renasceram.

O climatologista Luiz Carlos Molion não acredita na relação entre desmatamento e desaparecimento de nascentes. É o equivalente a um dentista que não acredita na importância da higiene bucal. Até Dom João VI sabia da relação entre floresta e preservação dos mananciais: em 1817, diante das secas nas fontes de água na cidade, proibiu o corte de árvores em algumas regiões críticas. Como, entretanto, o problema não foi totalmente resolvido, em 1861 Dom Pedro II desapropriou fazendas de café e iniciou o reflorestamento. Assim surgiu a nossa estimada Floresta da Tijuca – uma montanha verde com muitas nascentes e que, destacando-se no meio da cidade, impressiona o turista estrangeiro muito mais do que as famosas praias.

Molion insiste que a capacidade humana de interferir no clima é local. Ora, hoje já está mais que estabelecido que o planeta é um só, e que tudo tem reflexos em tudo. Os cientistas – como Carlos Nobre, esse, sim, um climatologista mundialmente respeitado – estudaram o fenômeno dos rios aéreos que fluem da Amazônia rumo ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul: as nuvens do Norte são conduzidas pelos ventos e causam as chuvas que tornam possível a agricultura em grande parte do país.  Sem esses rios aéreos, todo o miolo do Brasil seria um deserto.

 

Mapa

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Molion diz que é preciso baixar o poder dos ambientalistas, e que o Brasil é muito visado porque “hoje é o único país que pode aumentar a produção de alimentos no mundo”. Ele não explica, mas parece dar a entender que toda essa “besteira” de preocupação com mudanças climáticas é uma espécie de complô para prejudicar o produtor rural – que, segundo ele, é um herói nacional: “O produtor é o grande ator nisso. É graças ao agronegócio que esse país resiste. A roubalheira é tão grande que é até impossível medir quanto está sendo roubado.

Bem, a roubalheira no Brasil é realmente imensa. Nós começamos sendo roubados pelos portugueses; mas fomos roubados pelos ingleses e pelos europeus de modo geral. A partir do século 20, nós passamos a ser explorados pelos Estados Unidos – que promoveram até golpes de Estado no Brasil, para que os interesses estadunidenses fossem defendidos por presidentes serviçais.

Independentemente dessa roubalheira internacional (que aliás sempre contou com a colaboração das classes brasileiras mais abastadas), sempre se roubou muito aqui mesmo dentro do país.

As instituições, no Brasil (creio que no mundo), existem para defender o poder econômico. Daniel Vorcaro, que perpetrou talvez a maior fraude financeira da história do Brasil, poderá, graças aos seus advogados e à mídia, que tenta mudar de assunto para salvar o bandido e, se possível, desacreditar o STF e incriminar o próprio Lula (que nada tem a ver com a história), Vorcaro, dizia eu, poderá escapar da Justiça. (Embora depois que até generais golpistas foram presos, isso tenha ficado mais difícil.) Entretanto, se um faminto roubar um pacote de biscoitos, poderá ser jogado numa cela infecta, onde aguardará por anos o julgamento.

No texto A verdade sobre a corrupção, está registrado que 32% da roubalheira cabem “ao crime organizado, 65% a manobras empresariais ilícitas... e apenas 3% à corrupção política”. Ou seja: os grandes criminosos não são os políticos, como a mídia desonesta gosta de dizer, e nem mesmo os traficantes de drogas ou armas. Os grandes bandidos são os do colarinho branco – como o banqueiro Vorcaro, que, aliás, tem na mão um monte de políticos dos partidos de direita. (Não é por acaso: esses partidos reúnem personalidades que pensam muito em enriquecer e nem um pouco no povo.)

Luiz Carlos Molion diz que é o agronegócio que sustenta o Brasil, acossado pela corrupção. Bem, em primeiro lugar a questão da terra, no Brasil, é um caso de polícia desde os tempos coloniais: a terra foi e continua sendo roubada dos indígenas; a terra foi e continua sendo roubada dos camponeses, dos ribeirinhos, dos quilombolas. A grilagem (roubo de terras através de documentos falsos) é uma instituição no Brasil. Em 20 de fevereiro de 2005, O Globo publicou matéria com o título: “Pará registra maior fraude fundiária da História do país”. A reportagem falava de uma propriedade, no Pará, com duas vezes o tamanho do Estado do Rio, em nome de um sujeito que jamais existiu – um fake forjado por um grupo de grileiros. (E atenção: O Globo tradicionalmente defende o poder econômico, defende os militares, defende os interesses estrangeiros; está muito longe de ser um jornal “comunista”.) Cabe lembrar, a propósito, que não é o MST que toma terras alheias: o MST ocupa terras não utilizadas, abandonadas, para produzir os alimentos que vão para a nossa mesa. (O badalado agronegócio produz basicamente para exportação.) O Google informa, aliás, que “a agricultura familiar é responsável por cerca de 70% dos alimentos consumidos no país”. E informa também que o MST é o maior produtor de arroz orgânico da América Latina”. O sociólogo Emir Sader escreveu em 19 de dezembro de 2004, no Jornal do Brasil, interessantíssimo artigo, do qual destaco apenas uma passagem: “O MST alfabetizou mais gente no campo do que todos os programas oficiais de alfabetização. Seu sistema educacional inclui 1900 escolas [...] Há 10 cursos de formação de professores, entre tantos outros. [...] Produzem sem agrotóxicos, preservam as sementes naturais, organizam cooperativas, comercializam seus produtos, apoiam os que ainda lutam pela terra.” Em 2004 Lula estava no meio do seu primeiro governo. De lá para cá, os serviços prestados pelo MST ao país devem ter se tornado muito mais significativos.

Se Molion insinua que ao ambientalistas podem estar ganhando alguma coisa com a “besteira” da teoria das mudanças climáticas, nós podemos perguntar se ele não estaria sendo financiado pelos gananciosos empresários do agronegócio, que não querem nem ouvir falar em mudanças climáticas, não querem qualquer obstáculo a que continuem devastando o planeta e comprometendo o futuro da próxima geração. (Sim: não se trata mais de “futuras gerações”. A catástrofe está na esquina.)

E não é verdade que o agronegócio sustenta o Brasil. De fato, com o processo de desindustrialização promovido pelos governos neoliberais, que puseram a perder o que foi construído por Getúlio Vargas (Petrobras, CSN, Vale do Rio Doce, etc.), nós fomos voltando a ser um país exportador de matérias-primas e produtos agrícolas. Hoje o agronegócio tem importante participação na nossa pauta de exportações. O principal produto exportado é a soja em grãos... que vai servir de alimento para animais no exterior. Não deveria ser assim, mas é.

Sabendo disso, Lula, um dos maiores (o maior, na opinião de muitos) estadistas do mundo atual, e que nunca foi nenhum “comunista”, prestigia o agronegócio com verbas e tecnologia. (A produtividade dos cultivos resulta, em grande parte, dos estudos realizados pela Embrapa.) Por isso, noticia-se: “Agonegócio brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações de US$ 169 bilhões e superávit de US$ 149,07 bilhões”. Parece impressionante. Mas outra notícia merece destaque: “Governo Federal lança Plano Safra 2025/2026 com R$ 516,2 bilhões para impulsionar o agro brasileiro”. Os seja: os empresários do agronegócio não têm motivos para reclamar de Lula, do PT.

Um estadunidense com cerca de 25 anos me contou que, uma vez, conversava com seu pai sobre os malefícios que as agressões ambientais trariam para o planeta em algumas décadas (que a essa altura, em 2026, já estão chegando). O pai comentou, com um muxoxo (palavra outrora muito apreciada pelos escritores): “Eu já não estarei mais aqui.” O rapaz respondeu: “Mas eu vou estar! Seus netos vão estar!”

Depois de mim, o dilúvio.” (Après nous, le déluge.) A frase, que teria sido dita pela Marquesa de Pompadour no século XVIII, deve ser o lema da vida de Luiz Carlos Molion, um dos mais perfeitos representantes do terraplanismo climático. Com uma alternativa: “Depois de mim, a desertificação do planeta.”

Nenhum comentário: