Nelson M.
Mendes
A
Odontologia estabeleceu, há muito tempo, que uma boa higiene bucal é importante
para a saúde dentária, e que o açúcar é um dos alimentos que mais contribuem
para o desenvolvimento de cáries. Estou correto? Acho que 99,999% dos dentistas
diriam que sim.
Mas eu
não me espantaria se aparecesse um maluco dizendo que ninguém precisa usar fio
dental, escovar os dentes, e que o açúcar não é prejudicial para os dentes.
Afinal, antigamente acreditava-se que banho fazia mal à saúde, e as pessoas
tomavam apenas um banho por ano. (Sabe-se de pessoas que nunca tomaram banho na
vida.)
Luiz
Carlos Molion é um climatologista, professor aposentado, que corresponde ao
0,001% (espero que a matemática esteja certa) da comunidade odontológica que
acha higiene bucal uma besteira, e garante que açúcar não faz mal para os
dentes. NINGUÉM no meio científico leva esse cara a sério. Diz o Google sobre Molion: “É um dos principais
representantes do negacionismo climático no Brasil, alegando que o homem e suas
emissões de gases estufa na atmosfera são incapazes de causar um aquecimento
global”.
Para quem
não está familiarizado com a palavra negacionismo: trata-se de
uma tendência, ou corrente cultural, ou inclinação emocional (neurótica...) a
negar aquilo que está científica ou historicamente demonstrado. Por exemplo:
muitas pessoas, de índole nazifascista, negam até hoje que tenha havido o Holocausto
– aquele programa de Hitler que consistiu no extermínio, nas câmaras de
gás, de milhões de pessoas, 6 milhões delas judias. (Hoje os judeus negam que
haja genocídio de palestinos em Gaza.) Ainda há pouco tempo, Jair Boçal
Fascista negava que a Covid-19 fosse coisa séria (era “uma gripezinha”),
negava a única solução (a vacina) e insistia em tratamentos inúteis e perigosos
(Cloroquina e Ivermectina). Especialistas estimam que pelo menos 400 mil vidas
poderiam ter sido salvas se Jair Boçal Fascista tivesse agido como um
presidente de verdade no enfrentamento da Pandemia.
É claro
que o homem não pode produzir, no clima do planeta, o impacto imediato e
devastador resultante da erupção de um supervulcão, como o que existe debaixo
do Parque de Yellowstone, nos EUA, ou da queda de um grande meteoro. Mas os
cientistas já provaram que a emissão de gases de efeito estufa, paralelamente à
industrialização, vem fazendo a temperatura subir perigosamente. Vejamos o que
diz o Google:
“A temperatura média
global já aumentou cerca de 1,34°C a 1,55°C acima dos níveis
pré-industriais (1850-1900), com 2024 sendo o ano mais quente já registrado e
superando temporariamente a marca de 1,5°C. O limite crítico estabelecido
pelo Acordo
de Paris é
de 1,5°C para evitar consequências catastróficas, com um
limite máximo de 2°C.”
Molion
insinua que deve haver algum interesse por trás da ideia do aquecimento global.
Ora, o que todos sabemos é que há gigantescos interesses em negar que o
uso de combustíveis fósseis produz gases que levam ao efeito estufa, ao
aquecimento do planeta. Os ricos produtores de petróleo sempre podem contratar cientistas
para provar que esse negócio de aquecimento global é uma “besteira”,
como diz Molion, assim como a indústria de tabaco pagou cientistas para demonstrar
que o cigarro não fazia mal à saúde. (Houve um sujeito que escreveu um sólido
trabalho provando que Napoleão Bonaparte jamais existiu, é uma figura
mitológica. Era apenas um exercício de retórica, mas deve ter abalado as
convicções de muita gente... Outro que brincou com as convicções alheias foi o
físico Alan Sokal: em 1996 ele submeteu o artigo “Transgredindo as
Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa de Gravidade Quântica” à revista Social Text. Segundo o Google, Sokal “propunha
que a gravidade quântica é uma construção social e linguística”, e seu objetivo era “testar o rigor intelectual
da revista” diante de “um artigo repleto de
absurdos”. A revista não consultou especialistas e publicou
o artigo, que gerou grande repercussão. Semanas depois, numa outra revista,
Sokal revelou que era tudo uma brincadeirinha, uma farsa.)
O
professor aposentado também garante que o desmatamento não causa nenhum
problema. Ora, mais uma vez, isso é como negar a lei da gravidade, negar que
açúcar causa cáries, negar o que a ciência já demonstrou fartamente.
O extraordinário fotógrafo e ambientalista Sebastião Salgado,
falecido em 2025, voltou em 1998 à fazenda da família, em Minas Gerais, e
descobriu que o desmatamento a havia transformado num deserto. Sebastião
decidiu que iria recuperar a terra. A revista Superinteressante fez
matéria sobre o assunto: “Como Sebastião Salgado plantou uma floresta do zero – e
salvou 2 mil nascentes”. O documentário “O Sal da Terra”, além
de nos deixar atordoados com a beleza e o poder jornalístico das fotografias de
Salgado, registra que o reflorestamento fez voltarem até as onças pintadas...
Eu mesmo tive, em ponto pequeno (como se dizia), uma experiência
semelhante à de Sebastião Salgado: nos anos 60, toda a família costumava passar
férias no sítio dos nossos avós. Meu pai, então, resolveu comprar um outro
sítio nas proximidades – um pouco mais escondido, encostado num morro.
Eu fiquei fascinado, na primeira vez que visitei o sítio, com um autêntico
“olho d’água”, com o diâmetro talvez de uma mangueira de bombeiros, que saía do
chão uns dez centímetros, como um pequeno chafariz. Mais para os fundos do
terreno, escorria pela lisa pedra uma cortina d’água que meu pai logo batizou
de “Cascatinha”, na qual passamos a nos refrescar nos dias de verão.
Corta para os anos 80. O desmatamento na região havia
progredido. E nem uma gota de água jorrava do terreno antes tão pródigo. Como
não havia nenhum Sebastião Salgado para promover o reflorestamento, jamais as
nascentes renasceram.
O climatologista Luiz Carlos Molion não acredita na relação
entre desmatamento e desaparecimento de nascentes. É o equivalente a um
dentista que não acredita na importância da higiene bucal. Até Dom João VI
sabia da relação entre floresta e preservação dos mananciais: em 1817, diante
das secas nas fontes de água na cidade, proibiu o corte de árvores em algumas
regiões críticas. Como, entretanto, o problema não foi totalmente resolvido, em
1861 Dom Pedro II desapropriou fazendas de café e iniciou o reflorestamento.
Assim surgiu a nossa estimada Floresta da Tijuca – uma montanha verde
com muitas nascentes e que, destacando-se no meio da cidade, impressiona o
turista estrangeiro muito mais do que as famosas praias.
Molion insiste que a capacidade humana de interferir no clima é
local. Ora, hoje já está mais que estabelecido que o planeta é um só, e que
tudo tem reflexos em tudo. Os cientistas – como Carlos Nobre, esse, sim, um
climatologista mundialmente respeitado – estudaram o fenômeno dos rios
aéreos que fluem da Amazônia rumo ao Centro-Oeste, Sudeste e Sul: as
nuvens do Norte são conduzidas pelos ventos e causam as chuvas que tornam
possível a agricultura em grande parte do país. Sem esses rios aéreos, todo o miolo
do Brasil seria um deserto.
Molion diz que é preciso baixar o poder dos ambientalistas, e
que o Brasil é muito visado porque “hoje é o único país que pode aumentar a
produção de alimentos no mundo”. Ele não explica, mas parece dar a entender que
toda essa “besteira” de preocupação com mudanças climáticas é uma espécie de
complô para prejudicar o produtor rural – que, segundo ele, é um herói
nacional: “O
produtor é o grande ator nisso. É graças ao agronegócio que esse país resiste.
A roubalheira é tão grande que é até impossível medir quanto está sendo
roubado.”
Bem, a roubalheira no Brasil é realmente imensa. Nós começamos
sendo roubados pelos portugueses; mas fomos roubados pelos ingleses e pelos
europeus de modo geral. A partir do século 20, nós passamos a ser explorados
pelos Estados Unidos – que promoveram até golpes de Estado no Brasil, para que
os interesses estadunidenses fossem defendidos por presidentes serviçais.
Independentemente dessa roubalheira internacional (que aliás
sempre contou com a colaboração das classes brasileiras mais abastadas), sempre
se roubou muito aqui mesmo dentro do país.
As instituições, no Brasil (creio que no mundo), existem para
defender o poder econômico. Daniel Vorcaro, que perpetrou talvez a maior fraude
financeira da história do Brasil, poderá, graças aos seus advogados e à mídia,
que tenta mudar de assunto para salvar o bandido e, se possível, desacreditar o
STF e incriminar o próprio Lula (que nada tem a ver com a história), Vorcaro,
dizia eu, poderá escapar da Justiça. (Embora depois que até generais golpistas
foram presos, isso tenha ficado mais difícil.) Entretanto, se um faminto roubar
um pacote de biscoitos, poderá ser jogado numa cela infecta, onde aguardará por
anos o julgamento.
No texto A verdade sobre a corrupção, está registrado que
32% da roubalheira cabem “ao crime organizado, 65% a manobras empresariais
ilícitas... e apenas 3% à corrupção política”. Ou seja: os grandes criminosos
não são os políticos, como a mídia desonesta gosta de dizer, e nem mesmo os
traficantes de drogas ou armas. Os grandes bandidos são os do colarinho branco
– como o banqueiro Vorcaro, que, aliás, tem na mão um monte de políticos dos
partidos de direita. (Não é por acaso: esses partidos reúnem personalidades
que pensam muito em enriquecer e nem um pouco no povo.)
Luiz Carlos Molion diz que é o agronegócio que sustenta o
Brasil, acossado pela corrupção. Bem, em primeiro lugar a questão da terra, no
Brasil, é um caso de polícia desde os tempos coloniais: a terra foi e continua
sendo roubada dos indígenas; a terra foi e continua sendo roubada
dos camponeses, dos ribeirinhos, dos quilombolas. A grilagem (roubo de terras
através de documentos falsos) é uma instituição no Brasil. Em 20 de fevereiro
de 2005, O Globo publicou matéria com o título: “Pará registra maior
fraude fundiária da História do país”. A reportagem falava de uma
propriedade, no Pará, com duas vezes o tamanho do Estado do Rio, em nome
de um sujeito que jamais existiu – um fake forjado por um grupo de
grileiros. (E atenção: O Globo tradicionalmente defende o poder econômico, defende
os militares, defende os interesses estrangeiros; está muito longe de ser um
jornal “comunista”.) Cabe lembrar, a propósito, que não é o MST que toma
terras alheias: o MST ocupa terras não utilizadas, abandonadas, para produzir
os alimentos que vão para a nossa mesa. (O badalado agronegócio produz basicamente
para exportação.) O Google informa, aliás, que “a agricultura familiar é responsável por
cerca de 70% dos alimentos consumidos no país”. E
informa também que o MST é “o maior produtor de arroz orgânico da
América Latina”. O sociólogo Emir Sader escreveu em
19 de dezembro de 2004, no Jornal do Brasil, interessantíssimo artigo, do qual
destaco apenas uma passagem: “O MST alfabetizou mais gente no campo do
que todos os programas oficiais de alfabetização. Seu sistema educacional
inclui 1900 escolas [...] Há 10 cursos de
formação de professores, entre tantos outros. [...]
Produzem sem agrotóxicos, preservam as sementes naturais, organizam
cooperativas, comercializam seus produtos, apoiam os que ainda lutam pela
terra.” Em 2004 Lula estava no meio do seu primeiro
governo. De lá para cá, os serviços prestados pelo MST ao país devem ter se
tornado muito mais significativos.
Se Molion insinua que ao ambientalistas podem estar ganhando
alguma coisa com a “besteira” da teoria das mudanças climáticas, nós podemos
perguntar se ele não estaria sendo financiado pelos gananciosos empresários do
agronegócio, que não querem nem ouvir falar em mudanças climáticas, não querem
qualquer obstáculo a que continuem devastando o planeta e comprometendo o
futuro da próxima geração. (Sim: não se trata mais de “futuras gerações”. A
catástrofe está na esquina.)
E não é verdade que o agronegócio sustenta o Brasil. De fato,
com o processo de desindustrialização promovido pelos governos neoliberais, que
puseram a perder o que foi construído por Getúlio Vargas (Petrobras, CSN, Vale
do Rio Doce, etc.), nós fomos voltando a ser um país exportador de
matérias-primas e produtos agrícolas. Hoje o agronegócio tem importante
participação na nossa pauta de exportações. O principal produto exportado é a
soja em grãos... que vai servir de alimento para animais no exterior. Não deveria
ser assim, mas é.
Sabendo disso, Lula, um dos maiores (o maior, na opinião de
muitos) estadistas do mundo atual, e que nunca foi nenhum “comunista”,
prestigia o agronegócio com verbas e tecnologia. (A produtividade dos cultivos
resulta, em grande parte, dos estudos realizados pela Embrapa.) Por isso,
noticia-se: “Agonegócio
brasileiro fecha 2025 com recorde em exportações de US$ 169 bilhões e
superávit de US$ 149,07 bilhões”. Parece
impressionante. Mas outra notícia merece destaque: “Governo Federal
lança Plano Safra 2025/2026 com R$ 516,2
bilhões para impulsionar o agro brasileiro”. Os
seja: os empresários do agronegócio não têm motivos para reclamar de Lula, do
PT.
Um estadunidense com cerca de 25 anos me contou que, uma vez,
conversava com seu pai sobre os malefícios que as agressões ambientais trariam
para o planeta em algumas décadas (que a essa altura, em 2026, já estão
chegando). O pai comentou, com um muxoxo (palavra outrora muito apreciada pelos
escritores): “Eu já não estarei mais aqui.” O rapaz respondeu: “Mas eu vou
estar! Seus netos vão estar!”
“Depois de mim, o dilúvio.” (Après nous, le déluge.)
A frase, que teria sido dita pela Marquesa de Pompadour no século XVIII, deve
ser o lema da vida de Luiz Carlos Molion, um dos mais perfeitos representantes
do terraplanismo climático. Com uma alternativa: “Depois de mim, a desertificação
do planeta.”
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