quinta-feira, 27 de abril de 2017

O Brasil, o Diabo e os Detalhes

Nelson M. Mendes

Dizem que o Diabo mora nos detalhes. A tergiversação, uma de suas diletas filhas, também.

Vamos, pois, deixar de lado os detalhes: a delação, o juiz partidário, o grampo ilegal, o vazamento seletivo de informações, o STF, o dinheiro, a prisão, o político, o jornalista.

Vamos nos fixar no essencial. E o que seria isso? A corrupção?

A julgar pelo destaque dado pela mídia ao assunto, a corrupção é, sim, o grande problema brasileiro. E, para continuarmos atentos ao essencial, esqueçamos que a corrupção vem dos tempos coloniais, nutriu-se nos intestinos da ditadura inaugurada em 1964, etc.  Vamos acompanhar a narrativa da grande mídia nas últimas décadas: a corrupção, se não foi inventada pelo PT, foi “aperfeiçoada” e potencializada pelo PT.

Você acredita mesmo nisso? Respondemos: não, você não acredita nisso. Você QUER acreditar nisso porque, desde que era muito jovem, foi ensinado a temer e odiar qualquer coisa que significasse um questionamento do sistemão que prevalece há séculos e, em seu upgrade chamado neoliberalismo, domina o planeta desde a primeira metade do século XX. E o que o PT tem a ver com isso? Ora, na ótica radical e fundamentalista dos adeptos do sistema, o pecado está até no nome: “Partido dos Trabalhadores” só pode ser coisa de comunista.

Parece muito cru e simplista o raciocínio? Pois trata-se exatamente disso: simplismo, reducionismo, lavagem cerebral. A tergiversação, nesse contexto, é até uma evolução.

A tergiversação entra para fazer as massas acreditarem que a corrupção é o grande problema brasileiro, e que o PT (a bola da vez progressista, nas últimas décadas) é o partido mais corrupto de todos. Como queremos nos fixar no essencial, não vamos mencionar as riquezas fantasiosas atribuídas a Lula (aviões decorados a ouro, fazendas suntuosas, etc.) ou, no outro lado do espectro político, mencionar aeroportos particulares construídos com dinheiro público, helicópteros com meia-tonelada de cocaína, contas bilionárias no exterior, e assim por diante; ou ainda falar de um governo ilegítimo que tem a recordista quantidade de nove ministros citados numa investigação policial.  Não vamos falar nada disso, porque a corrupção não é o assunto que nos interessa.

E o que nos interessa?

O que nos interessa é denunciar falácias. Como a de que a principal sangria do Orçamento Federal é a Previdência – quando é o serviço da Dívida Pública (nunca auditada) que compromete quase metade dos recursos do país; ou a falácia ainda mais prestigiosa de que a corrupção – e particularmente do PT – é o principal problema brasileiro.  

Ora, o Brasil tem problemas muito mais sérios – a começar por políticas em que os interesses brasileiros são colocados abaixo de interesses externos; os interesses do povo, abaixo dos interesses das elites; os interesses do Trabalho, muito abaixo dos interesses do Capital. (Não, ninguém aqui é marxista. Jamais sequer lemos Marx. Mas temos olhos para ver, cabeça para refletir, e repelimos os produtores de falácias, os tergiversadores.)

Então é isso: o principal problema brasileiro é a desigualdade. Para mantê-la, o Diabo e seus asseclas (políticos, banqueiros, megaempresários, empresários da mídia, jornalistas mercenários, juízes partidários, etc.) tergiversam. Enganam. Iludem as massas.


Prestidigitação é isso: enquanto o mágico chama a atenção do público para detalhes sem importância, um elefante se materializa no fundo do palco.

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