quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O pico de Hubbert e o fim dos combustíveis fósseis

José Eustáquio Diniz Alves

Texto editado. Original em:
http://www.ecodebate.com.br/2012/03/07/o-pico-de-hubbert-e-o-fim-dos-combustiveis-fosseis-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

A economia mundial cresceu cerca de 60 vezes entre 1800 e 2010 devido aos combustíveis fósseis: carvão mineral, petróleo e gás. Em dois ou três séculos os seres humanos vão queimar esta riqueza acumulada em milhões de anos. A queima destes combustíveis libera o Dióxido de Carbono na atmosfera, um dos principais gases que provoca o aquecimento global. Ou seja, as gerações passadas e as atuais herdaram riquezas em forma de energia e vão deixar como herança a poluição e o aquecimento do Planeta.

Algumas pessoas chegam a dizer que a natureza está se vingando dos abusos do consumo humano.

Mas os combustíveis fósseis vão se esgotar em um futuro não muito distante. A questão é saber: quando?

O pico de Hubbert (Hubbert’s peak) é uma teoria que modela a produção de petróleo indicando que as descobertas e a produção seguem o comportamento de uma curva desenvolvida pelo geofísico americano M. King Hubbert, que em 1956 publicou que o pico (máximo da produção) deveria ser atingido em torno de 50 anos. Depois cairia, o que provocaria aumento do preço. Será que já chegamos no Pico de Hubbert?

Alguns autores dizem que desde 2008, o preço do petróleo só não disparou por conta da crise econômica internacional. Por outro lado, o aumento do preço viabilizou novas reservas e novas tecnologias que não eram viáveis economicamente. Portanto, o pico pode até ser adiado, porém, a um custo crescente.

Já a indústria do petróleo e seus funcionários dizem que ainda falta muito tempo para se chegar ao pico Por exemplo, a produção águas profundas de 2,8 milhões de barris por dia e deverá atingir 9 milhões em 2020. Além disto, os novos preços possibilitaram a utilização dos “tar sands” (areias betuminosas) no Canadá e existe uma proposta de óleoduto (Keystone XL) até o Texas para o refino nos Estados Unidos. Por enquanto, Obama barrou mas se o Partido Republicano voltar à Casa Branca, vai dar sinal verde para o Keystone XL.

Outra fonte de exploração são as rochas sedimentares de gás de xisto (shale). Utilizando processos que envolvem a perfuração de camadas horizontalmente e injeção de fluidos a altíssimas pressões, essas rochas são fraturadas e permitem produções economicamente viáveis. É a exploração de gás por hydrofracking, que tem um alto impacto ambiental.

Os defensores dos combustíveis fósseis dizem que “tar sands” e gás de xisto poderia gerar milhões de empregos e garantir a segurança energética dos EUA. O Partido Republicano e o lobby do petróleo têm acusado Obama de adiar o início da exploração destas “novas fronteiras” econômicas e querem acelerar as perfurações, como no slogan: Drill, baby, drill.

Já os ecologistas têm feito pressão para que estes recursos não sejam utilizados, pois iriam causar danos ambientais incalculáveis. As areias betuminosas (tar sands) para serem exploradas necessitam da utilização de 3 barris de água para cada um de óleo e é grande a probabilidade de se contaminar os lençóis freáticos e a população. Além disto, a liberação de gases de efeito estufa é maior.

Desta forma, enquanto os interesses da indústria argumentam que as gerações vão se beneficiar da exploração destas novas (e caras) fontes, os ecologistas argumentam que os custos e os danos ambientais vão ser maiores do que os tais benefícios apregoados.
O fato é que o pico de Hubbert Talvez possa ser adiado se novas fontes forem acionadas, como no caso do pré-sal no Brasil. Mas petróleo e o gás vão acabar, mais dia ou menos dia.

No livro “Energy and the Wealth of Nations: Understanding the Biophysical Economy” Charles Hall e Kent Klitgaard mostram que durante os últimos 150 anos, a economia tem sido tratada como uma ciência social com base no fluxo circular de renda entre produtores e consumidores, ignorando o fluxo de energia e materiais do ambiente e vice-versa. Mas escassez de energia fóssil pode minar a riqueza das nações.

Como mostrou James Howard Kunstler, o pico do petróleo já chegou para os Estados Unidos desde a década de 1970 e para o mundo em torno de 2005. O autor considera que o pico de produção mundial de petróleo, coincidindo com as mudanças climáticas, a escassez de água e a instabilidade econômica mundial, pode forçar populações do mundo a viver de forma mais localizada e em comunidades auto-suficientes.

Chris Nelder considera que o pico do petróleo será atingido entre 2010 e 2020 e a produção deverá cair em 5% ao ano O autor alerta os governos a se preparar para um estilo de vida radicalmente diferente.

Mas, sendo possível, seria bom adiar o fim do mundo do petróleo?

A resposta é não. Os danos que o uso da energia fóssil estão provocando já estão superando os seus benefícios. Além disto, já existe tecnologia para energias alternativas e limpas. O uso da energia solar e eólica pode não só mitigar efeito estufa como criar novas oportunidades de criação de empregos verdes.

Mesmo a energia da biomassa é menos poluente do que a energia fóssil. O governo brasileiro, no afã de investir no petróleo do pré-sal, deixou de lado os investimentos no pró-álcool e hoje em dia existe escassez de álcool.

Quanto mais rápido os países avançarem na produção de energias renováveis e limpas, menor será o efeito negativo do pico de Hubbert. Com planejamento e investimentos corretos, a economia e o meio ambiente só têm a ganhar com o fim do mundo do petróleo.
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