domingo, 19 de outubro de 2014

O Instituto Millenium

Saudades de 1964
02.01.2013 09:11

Leandro Fortes


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Texto editado por NMM. Original, recolhido em 21 /02/  2013, no link abaixo:


Em 1º de março de 2010, uma reunião de milionários em São Paulo foi festejada como o início de uma nova etapa na luta contra o ateísmo comunista e a subversão dos valores cristãos. O 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão teve como anfitriões Roberto Civita, dono da Editora Abril, Otávio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, e Roberto Irineu Marinho, da Globo.

O evento foi uma das primeiras manifestações do Instituto Millenium, organização  semelhante ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), um dos fomentadores do golpe de 1964. Como o Ipes, o Millenium funda seus princípios na liberdade dos mercados e no medo do “avanço do comunismo”. Muitos de seus integrantes atuais sustentaram a ditadura. Outros, mais jovens, construíram carreiras com um discurso tosco de criminalização da esquerda, dos movimentos sociais, de minorias e contra qualquer política social.

Financiado por grandes empresas, o instituto vende a imagem de um refinado clube do pensamento liberal. Mas seus integrantes têm as mesmas ideias que emanam do carcomido auditório do Clube Militar.

O Millenium funciona sob uma impressionante estrutura hierárquica. Criado em 2005 com o curioso nome de “Instituto da Realidade”,  transformou-se em Millenium em dezembro de 2009 após ser qualificado como  (Oscip) pelo Ministério da Justiça. Bem a tempo de se integrar à campanha de José Serra nas eleições de 2010. Em pouco tempo,  virou um bunker antiesquerda e principal irradiador do ódio de classe e do ressentimento eleitoral dedicado até hoje ao ex-presidente Lula.

O batalhão de “especialistas” conta com 180 profissionais de diversas áreas, entre eles José Nêumanne Pinto, Roberto DaMatta e Rodrigo Constantino.

Os “especialistas” são todos, curiosamente, brancos. A tropa é comandada pelo jornalista Eurípedes Alcântara, diretor de redação da revista Veja. Alcântara é um dos dois titulares do Conselho Editorial da entidade. O outro é Antonio Carlos Pereira, editorialista de O Estado de S. Paulo.

A dupla de jornalistas representa dois dos quatro conglomerados de mídia que formam a bússola ideológica da entidade, a Editora Abril e o Grupo Estado. Os demais são as Organizações Globo e a Rede Brasil Sul (RBS).

O Millenium possui uma direção administrativa formada por dez integrantes, entre os quais a diretora-executiva Priscila Barbosa Pereira Pinto, que recusou-se a explicar o formidável organograma que inclui uma enorme gama de empresas e empresários.

Entre os “mantenedores e parceiros” estão a Gerdau, a Localiza e a Statoil. No “grupo máster” aparece a Suzano, gigante de papel e celulose. No chamado “grupo de apoio” estão a RBS, o Estadão e o Grupo Meio & Mensagem.

Há ainda uma lista de 25 doadores permanentes, entre os quais João Roberto Marinho, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva, filho do José Alencar, vice-presidente de Lula. O organograma possui também uma “câmara de fundadores e curadores”, entre eles o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e Pedro Bial, uma “câmara de mantenedores” (14 pessoas) e uma “câmara de instituições” com nove membros. Gente demais para uma simples instituição sem fins lucrativos.

Uma das atividades fundamentais é a cooptação, via concessão de bolsas de estudo no exterior, de jovens jornalistas brasileiros. Esse trabalho é feito por um de seus agregados, o Instituto Ling, mantido pelo empresário William Ling, do setor de petroquímicos. O programa “Jornalista de Visão” concede bolsas de mestrado ou especialização em universidades dos Estados Unidos e da Europa a funcionários dos grupos de mídia ligados ao Millenium.

Em 2010, quando o programa se iniciou, cinco jornalistas foram escolhidos, um de cada representante da mídia vincula-da ao Millenium: Época (Globo), Veja (Abril), O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Zero Hora (RBS). Em 2011, à exceção de um repórter do jornal A Tarde, da Bahia, o critério de escolha se manteve. Os agraciados foram da Época (2), Estadão (1), Folha (2), Zero Hora (1) e revista Galileu (1), da Editora Globo. Neste ano foram contemplados três jornalistas do Estadão, dois da Folha, um da rádio CBN (Globo), um da Veja, um do jornal O Globo e um da revista Capital Aberto, especializada em mercado de capitais.

Os aprovados são obrigados a fazer uma espécie de juramento: prometer trabalhar “pelo fortalecimento da imprensa no Brasil, defendendo os valores de independência, democracia, economia de mercado, Estado de Direito e liberdade”.

O Millenium investe ainda em palestras e debates voltados para assuntos econômicos e para a discussão sobre liberdade de imprensa e de expressão. Entre os convidados estão Marcelo Tas, da Band, e Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, ambos de Veja. Humoristas jornalistas. Ou vice-versa.

O que toda essa gente faz e quanto cada um doa individualmente é mantido em segredo. Apesar da insistência de CartaCapital, a diretora-executiva Priscila Pinto mandou informar que não iria fornecer as informações requisitadas. Limitou-se a enviar um resumo  sobre a missão do instituto. Na rubrica “código de valores”, consta a premissa da transparência, voltada para “possibilidade de fiscalização pela sociedade civil e imprensa”. Valores, como se vê, bem flexíveis.

O que há de transparência no Millenium não vem do espírito democrático de seus diretores, mas de uma obrigação legal: disponibilizar ao público os dados administrativos e informações contábeis atualizadas.

A contabilidade disponível no Ministério da Justiça, contudo, revela a pujança da receita da entidade, uma média de 1 milhão de reais nos últimos dois anos.

Em 2009, quando foi certificado pelo Ministério da Justiça, o instituto conseguiu arrecadar  595,2 mil reais. Naquele ano, a entidade fechou as contas com prejuízo de 8,9 mil reais.

Em 2010, graças à adesão maciça de empresários e doadores antipetistas, a arrecadação  foi de 1 milhão de reais, e as contas fecharam no azul, com superávit de 153,9 mil reais.

Segundo as informações referentes ao exercício de 2011, a arrecadação do Millenium caiu pouco (951,9 mil reais).

 No ano passado [2012], a entidade amargou um prejuízo de 76,6 mil reais, mixaria para o volume de recursos reunidos em torno dos patrocinadores e mantenedores. Apenas com verbas publicitárias repassadas pelo governo federal, a turma midiática do Millenium faturou no ano passado 112,7 milhões de reais.

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