quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

QUAL É MESMO O PROBLEMA?

QUAL É MESMO O PROBLEMA? (3)
Nelson Moraes Mendes
21 de dezembro de 2016.


O problema era Dilma; o problema era Lula; o problema era o PT. O problema era a corrupção.

A corrupção sempre existiu no Brasil, desde os tempos de Cabral. Com Juscelino, o tocador de obras, as empreiteiras começaram a se locupletar – e os “intermediários” políticos também. O esquema continuou na ditadura (mas nada se divulgava na época, claro). Manteve-se durante a chamada “redemocratização”. Durante o governo tucano de FHC, a apoteose:  foi o período da “privataria”, quando, segundo o autor do termo, Elio Gaspari (que está longe de ser petista), muita gente ganhou muito dinheiro “sem produzir um único prego”.

Mas corrupção de direita não dói. Que os políticos roubem à vontade, desde que os “comunistas” sejam mantidos longe daqui. Nas ruas e nas redes sociais, se viu a seguinte mensagem, recentemente: “Eduardo Cunha é corrupto, mas está do nosso lado.” O “nosso lado” é o lado do anticomunismo, do antibolivarianismo, do antipetismo. Esse definitivamente não é o lado do homem comum, do trabalhador; principalmente daquele que vive numa das sociedades mais desiguais do mundo.  Mas décadas de doutrinação, à sombra da Guerra Fria e através de todos os recursos da chamada “indústria cultural” (cinema, telenovelas, propaganda direta, “jornalistas amestrados”, etc.) convenceram esse homem comum de que o que era bom para os banqueiros era bom para ele; o que era bom para os EUA era bom para o Brasil. E a senzala passou a fazer o jogo e o discurso da Casa-Grande.

Está claríssimo (e é isso que a História deverá registrar) que o problema de Lula e Dilma nunca foi a corrupção. Tanto que o golpe que derrubou Dilma foi promovido por um Congresso infestado de fichas-sujíssimas, com assessoria de um Judiciário venal e partidário, e entusiástico apoio de uma mídia que dispensa adjetivos. O governo Temer (o títere usurpador) mais parece uma organização criminosa; e veio para implementar o programa que interessa a todos: bancos, megaempresas, empreiteiras, multinacionais, previdência privada, rentistas em geral – menos ao homem comum.  Mas pelo menos os “comunistas” foram expulsos do governo.

A crise econômica que alcançou o governo Dilma não era culpa dela: tinha raízes estruturais, como em vão escreveu o economista Adriano Benayon e explicaram muitos outros pensadores. Mas problemas econômicos e “pedaladas fiscais” (manobras comuns em todos os níveis de governo) forneceram o pretexto para os que nunca aceitaram o PT, nunca aceitaram qualquer concessão da Casa-Grande à senzala. E veio o golpe.

A promessa era a de que, com Temer, a economia se recuperaria, haveria mais emprego, os investidores estrangeiros retornariam – todo esse blá-blá-blá a que estamos acostumados.  A situação econômica está pior do que nunca. Culpa do Temer? Em parte, sim: fiel ao princípio capitalista de privatizar o lucro e socializar o prejuízo, ele tratou de passar a conta da crise exatamente para quem menos tem (e não foi culpado pela crise). Toca a meter a faca na Previdência, na Saúde, na Educação, nos programas sociais. Isenções a megaempresários continuaram; o implacável “serviço” de uma dívida pública jamais auditada continuou comprometendo quase metade do Orçamento Federal. Mas as panelas não cantaram em protesto, porque os “comunistas” tinham sido expulsos.

Estaria a situação melhor com Dilma? Em parte, sim: ela não teria sido tão enfática na aplicação do “pacote de maldades” que fere a carne da senzala e poupa as banhas da Casa-Grande. Porém, ainda aqui temos que reiterar: as causas da crise são estruturais.

O problema não é Dilma, não é Lula, não é nem mesmo o boneco usurpador Temer.

Diga-se às células cancerosas que parem de multiplicar-se; elas obedecerão? Diga-se ao leão que não mate os filhotes que não são seus – procedimento que visa a induzir o cio na fêmea; ele obedecerá?  A índole “animal”, “selvagem” do homem não foi extinta. A civilização tem sido um esforço para controlar um tanto essa índole. A solução terá forçosamente que vir de dentro – lá do coração, onde, segundo o saudoso Alceu  Amoroso Lima, mora a verdadeira sabedoria. Enquanto esse tempo não chega, a humanidade segue ingenuamente, como já lembrava Platão, fazendo experimentos com doutrinas e sistemas.

O problema é que o Capitalismo é a institucionalização (ou “naturalização”, como esquisitamente se diz hoje em dia) da “lei do câncer”; ou “lei da selva”. Vale multiplicar indefinidamente; vale tomar do outro. Nada disso é considerado desvio, ilegalidade. Não sabemos o que virá depois do carcomido Capitalismo. Mas chegou a hora de um novo experimento.

Enquanto a sabedoria não vem.



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