segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

O Ódio a Lula e a Fábrica de Zumbis

Nelson M. Mendes



Então morreu Marisa Letícia, mulher de Lula. Muita gente (inclusive médicos que a assistiram) torceu pela sua morte. Muita gente, nas redes sociais, comemorou a sua morte. É verdade que algumas pessoas, criticadas por comemorar sem disfarce as doenças de Lula e de Dilma, desta vez tiveram uma certa vergonha de manifestar tão desabridamente o ódio, a morbidez, o preconceito. Mas tudo isso continua lá, no fundo das almas. Por quê?

Por que tanta gente odeia tão fervorosamente não apenas Lula e o PT, mas qualquer político ou partido que possa ser identificado como “de esquerda”? Obviamente, não é porque esses políticos ou partidos sejam “corruptos”; essa é a desculpa mais ridícula que se possa inventar.  Partidos de centro e direita são tradicionalmente “profissionais” da corrupção – mas contam em geral com o acobertamento da mídia e  com a leniência (ou cumplicidade) do Judiciário.  Provas disso são esfregadas na cara do cidadão todos os dias.  Algumas vezes, as evidências de um crime são tão fortes, que até mesmo um “amiguinho” da mídia e das forças conservadoras tem de se explicar; aí a Justiça cumpre a contragosto seu papel e os jornais dão uma notinha (quando dão) sobre o caso. Mas, se descobrirem que Lula um dia pegou uma goiaba podre no quintal do vizinho, o assunto vira capa de Veja e ocupa um tempo enorme no Jornal Nacional. E Lula é preso. Exagero?

Por que são perseguidos pela mídia (e pelo Judiciário, como se tem visto) aqueles que ousam se colocar numa postura crítica em relação ao sistema estabelecido? Porque a mídia (e na verdade todos os governos, segundo muitos pensadores) está aí para defender o sistema, conservar privilégios. Compreensível.  E por que motivo a população, que em sua maioria não tem privilégio algum, também persegue os críticos do sistema? Porque o trabalho da mídia funciona.

Quem tem 15 anos hoje, em 2017, está sob bombardeio da mídia; quem tem 80 anos passou toda a vida sob bombardeio da mídia. Para não irmos muito longe, podemos afirmar que, pelo menos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, estamos todos nós sob o efeito de uma gigantesca máquina de propaganda (de que a mídia é apenas o braço mais visível) que procura nos convencer das excelências do sistema e demonizar, ridicularizar ou incriminar os críticos desse sistema.

Existem alguns antídotos contra a doutrinação: a leitura, o estudo, o convívio com pessoas esclarecidas; e a reflexão. Mas, em geral, os antídotos chegam tarde demais e já não fazem efeito.  Muitas vezes, a pessoa envenenada rejeita furiosamente o antídoto.

A máquina de fabricar zumbis é tão eficiente que eles julgam que realmente é vida e informação aquilo que é automatismo e desinformação. Acreditam-se independentes e informados porque veem televisão, leem revistas semanais e frequentam a Internet.  E seguem vomitando nas redes sociais aquilo que lhes foi inoculado desde que eram inocentes demais para sequer desconfiar de que algo pudesse estar errado.

Uma das ideias básicas geradas pela máquina de fabricar zumbis é a de que “esquerda” significa o Mal. A origem do sentido do termo, em política, é pitoresca, e remonta à França de séculos atrás: os partidários do rei se sentavam à direita do presidente da assembleia; os oposicionistas, à esquerda. Apenas isso. Mas o Google informa que “sinistro” (do latim “sinistru”) significa ameaçador, funesto, assustador, desgraçado... e esquerdo. “Canhoto” é um dos nomes do Demônio. Pronto: não foi difícil para a Fábrica de Zumbis propagar a associação que impregna consciências há décadas.

O Capitalismo, conforme nos foi ensinado na escola, veio depois do Feudalismo. (No Brasil, como se sabe, há resquícios feudais e até escravagistas; mas isso é assunto que não nos interessa no momento.) Grosso modo, podemos dizer que o Capitalismo tem a idade do Brasil. (Não é criança.) Acontece que o sistema é por natureza autofágico; frequentemente tem de ser socorrido pelo Estado.  E socialmente injusto. Por isso, alguns idealistas começaram a sonhar com alternativas. Um tal de Karl Marx, por exemplo.

No século XX, como sabemos, houve tentativas de concretizar os sonhos. A receita conhecida era o Socialismo; ou o Comunismo, que seria uma etapa posterior e mais “completa” em relação à fase socialista.  O Capitalismo reagiu como bicho acuado: quantias astronômicas foram gastas em armas e propaganda para combater o “perigo vermelho”; programas especiais foram criados para dar uma “tinta socializante” nas paredes frias e ásperas do Capitalismo. (Essa é a origem dos “direitos sociais”, de que nem o mais feroz anticomunista quer abrir mão.)  

Os desatinos cometidos por governos autoritários em regimes ditos “comunistas” (o Comunismo de verdade prevê até o desaparecimento do Estado) em nada ajudaram na difusão da nova proposta. Quando o ego avulta, leis e regimes importam muito pouco. Além disso, o Socialismo não aguentou o tranco do contra-ataque capitalista. De qualquer forma, o sonho socialista representou uma tentativa de colocar de pé a Utopia. O sonho já se havia manifestado em outros momentos: na pré-história, por exemplo; e Leonardo Boff lembra que o Cristianismo primitivo era – ó horror! – uma forma de Comunismo. Quanto ao Capitalismo, a sua própria essência é a acumulação, a exclusão, a desigualdade.

No bojo dessa reação do sistema capitalista contra os experimentos socialistas, nós no Brasil fomos culturalmente invadidos, sofremos pressões e tivemos golpes de Estado. (Uma intervenção militar dos EUA esteve engatilhada em 1964, caso o golpe falhasse.) No século XXI – século da sofisticação tecnológica, das virtualidades e sutilezas – ,a  moda é o “golpe parlamentar”. Os EUA (principais guardiães do Capitalismo) já patrocinaram três: em Honduras, no Paraguai e no Brasil. Não que o Capitalismo estivesse ameaçado; mas o sistema se melindra se detectar qualquer vestígio de preocupação social, um viés “esquerdista” em qualquer regime.

O golpe contra Dilma contou com furioso apoio de zumbis criados pela mídia, como vimos. É para isso que funciona a mídia, afinal: para obter do oprimido o apoio ao opressor; fazer a senzala defender entusiástica e ferozmente a Casa-Grande.  O golpe, é verdade, aconteceria com ou sem apoio de parte da população. Mas convém ao sistema manter a massa adestrada, entoando cânticos de adesão ao continuísmo. (E pensando que está fazendo crítica.) O ódio a Lula foi produzido pela fábrica. A fábrica produz ódio contra qualquer político progressista, qualquer intelectual que se coloque um tanto à esquerda de um sistema que já teve seu apogeu e caminha para seu fim.  As manifestações de orgíaca alegria pela morte de Marisa Letícia, mulher de Lula, são resultado desse acúmulo de ódio. O prazer estava em escarnecer da dor de Lula; que nunca foi “comunista”; nunca foi sequer um “esquerdista” digno do termo; mas foi um operário, um líder sindical que, quando conseguiu o feito inimaginável (ó insulto a nossas tradições escravagistas e bacharelescas!) de chegar à presidência, ousou dar um pouco de atenção a milhões de miseráveis e excluídos. Isso o sistema não poderia perdoar.


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