quarta-feira, 18 de abril de 2018

Manual de autoajuda do iludido político III



Nelson M. Mendes


Esta é a terceira versão do manual. E a mais pessoal, a mais coloquial delas. A menos educada, também.

Explico: é que desisti de minha cruzada cívica. Como vou relatar mais adiante, a partir de um certo momento eu passei a publicar textos, com um intuito remotamente reformista,  em que tentava analisar alguns fenômenos sociológicos. Não sou sociólogo, cientista político, antropólogo, economista; mas, se de médico, poeta e louco todos temos um pouco, certamente nos é lícita a aventura por quaisquer campos do saber humano. Muitas descobertas científicas, aliás, foram feitas por “estranhos no ninho” – pesquisadores que, exatamente por não serem especialistas, estavam livres dos liames (senão preconceitos) atinentes à especialidade.

As minhas análises se centraram basicamente na reação do “respeitável público” diante dos eventos políticos. Eu queria entender a cegueira, o comportamento de manada, a ignorância política. Meu universo de pesquisa eram as redes sociais. No princípio controlei um pouco a irritação e assumi a postura do ensaísta razoavelmente equilibrado, embora de modo algum isento, sem um posicionamento: eu tinha lado, porque o meu lado era o da denúncia, da análise crítica; em outras palavras, eu ficava à esquerda.

Já na primeira versão do manual eu não queria usar exatamente o termo “iludido”; esse foi um eufemismo que usei para disfarçar a ira. Eu não queria, já pelo título, espantar possíveis leitores.

Muitos sempre se impressionaram com a paciência que eu tenho, nas redes sociais, para argumentar com pessoas que são verdadeiros monolitos de estupidez, preconceito e graves falhas de caráter. Recentemente a paciência foi acabando, e eu passei a cunhar termos (e a desfechá-los no Facebook) como bolsuíno, analfascista e esquerdoente. Há poucos dias fiz um post bem desbocado: “Você odeia Lula porque, burro e egoísta, tem medo de ‘comunista’.

Lula é apenas o alvo preferencial do ódio ou, como preferem alguns para quem Lula não é merecedor sequer de tal sentimento, do desprezo dos coxapaneleiros. A razão é simples: Lula nunca foi “comunista”; nunca foi sequer um “esquerdista” digno do termo; mas foi um operário, um líder sindical que, quando conseguiu o feito inimaginável (ó insulto a nossas tradições escravagistas e bacharelescas!) de chegar à presidência, ousou dar um pouco de atenção a milhões de miseráveis e excluídos. Isso o sistema não poderia perdoar. E é claro que a Senzala reproduz o sentimento da Casa-grande.

Mas há perplexidade no ar. Quase arrependimento pelo apoio dado ao golpe vergonhoso que derrubou Dilma; que, bem ou mal, representava a continuidade da proposta de Lula.

É compreensível: dói, dá vergonha ver que foram enganados. Por isso, quando alguém lhes aponta os erros, reagem com irritação, e até com violência. Se a pessoa apresenta uma argumentação baseada em fatos incontestáveis, ou no parecer de alguma autoridade no assunto – aí mesmo é que espumam, procedem como zumbis epiléticos e berram: “Vai pra Cuba!” “Nossa bandeira jamais será vermelha!”


Esse “Medo Vermelho” é importado (o Brasil só importa o que não presta): ele assola os norte-americanos pelo menos desde o New Deal de Roosevelt – programa com que ele salvou o Capitalismo da crise de 1929, mas que é até hoje considerado por muitos uma espécie de  ensaio do Comunismo... Choveram acusações de que o presidente estava sendo “paternalista” e “ajudando vagabundos”. Alguma semelhança com os vitupérios dirigidos aos governos do PT?

Opera freneticamente no Brasil uma transnacional cuja sede fica em Washington: a Fábrica de Zumbis. E uma das ideias básicas geradas pela máquina de fabricar zumbis é a de que “esquerda” significa o Mal. A origem do sentido do termo, em Política, é pitoresca, e remonta à França de séculos atrás: os partidários do rei se sentavam à direita do presidente da Assembleia; os oposicionistas, à esquerda. Apenas isso. Mas o Google informa que “sinistro” (do latim “sinistru”) significa ameaçador, funesto, assustador, desgraçado... e esquerdo. “Canhoto” é um dos nomes do Demônio. Pronto: não foi difícil para a Fábrica de Zumbis propagar a associação que impregna consciências há décadas.

Ora, o que eu canso de dizer para os zumbis é que esquerda sempre existiu e vai continuar existindo; a dicotomia direita/esquerda é uma espécie de manifestação política e sociológica da lei física de ação/reação. A esquerda é o motor da História. Se não houvesse esquerda, ainda estaríamos nas cavernas, coletando frutos silvestres e caçando.

Mas décadas de produção da fábrica sediada em Washington resultaram nessa legião de zumbis a que dou nomes variados: coxapaneleiros, bolsuínos, analfascistas.

Existem alguns antídotos contra a doutrinação: a leitura, o estudo, o convívio com pessoas esclarecidas; e a reflexão. Mas, em geral, os antídotos chegam tarde demais e já não fazem efeito.  Muitas vezes, a pessoa envenenada rejeita furiosamente o antídoto.

A máquina de fabricar zumbis é tão eficiente que eles julgam que realmente é vida e informação aquilo que é automatismo e desinformação. Acreditam-se independentes e informados porque veem televisão, leem revistas semanais e frequentam a Internet.  E seguem vomitando nas redes sociais aquilo que lhes foi inoculado desde que eram inocentes demais para sequer desconfiar de que algo pudesse estar errado.

Mas pergunto a um típico zumbi brasileiro: é você uma inocente vítima do Sistema? Nem tanto. O plano da Plutocracia só funciona por 3 motivos, frequentemente superpostos: você é ignorante (não lê, acredita na grande mídia); é egoísta (desconhece a empatia); e é ambicioso (sonha meramente com a ascensão pessoal). Em resumo, você é um analfascista.

Você estaria ao lado dos escravagistas, que consideravam a Abolição uma perspectiva suicida; estaria ao lado da nobreza  irresponsável e perdulária que seria derrubada pela Revolução Francesa; estaria entre aqueles que promoviam a caça às bruxas na Europa medieval; estaria entre os que marcharam com Hitler e Mussolini; estaria entre os delatores no Macarthismo; estaria entre os que participaram da “Marcha da Família com Deus Pela Liberdade”, clamando pelo golpe plutomilitar destinado à implantação de um modelo econômico excludente; estaria entre os que se opuseram à redemocratização. Hoje você está entre os que apoiaram entusiasticamente o golpe vergonhoso de 2016 contra a Presidente Dilma e entre os que tiveram espasmos de hidrófobo prazer com a absurda prisão de Lula.

Aliás, sobre as comemorações pela prisão de Lula escreveu o jornalista paraense Adilson Ferrera:

Você não precisa concordar com Lula ou PT para achar absurdas e incoerentes essas manobras políticas e inconstitucionais. Como descreveu o publicitário Glauco Lima, “Lamentar o que estão fazendo com Lula não é lamentar a prisão de um comunista, guerrilheiro, revolucionário de esquerda, mesmo porque Lula nunca foi isso. Lamentar a condenação de Lula é lamentar a perda de uma chance de um Brasil mais equilibrado, mais humanizado e menos desigual. Um Brasil que não deixará de ser capitalista, que não deixará de ser privatista, mas certamente caminharia para um futuro menos individualista”.

A perseguição a Lula foi extensivamente descrita no ensaio O lawfare que fere Lula; o problema é que analfascista não lê...

O pretexto da perseguição a Lula é a “corrupção”. A tática é velha: acusar de corruptos todos aqueles que desafinem do coro da Ordem Estabelecida. Aí entram ação os políticos cínicos; os juízes venais e/ou politicamente comprometidos; e os jornalistas mercenários. A perseguição midiática a Lula vem desde meados dos anos 70; já virou um case que será estudado por historiadores e sociólogos. Material não faltará: só capas negativas de Veja são literalmente centenas, conforme pudemos constatar numa dissertação de mestrado.  Afetadas pela radioatividade midiática, as pessoas irão ver pelo em ovo: pedalinhos suntuosos, aviões mitológicos, fazendas quiméricas; mas serão incapazes de aceitar a prova concreta, o documento, o vídeo, a declaração do banco suíço – se os implicados forem os representantes da Velha Ordem. Se as evidências forem demasiado fortes, elas sacam um slogan de ocasião, escancarando a motivação verdadeira da cruzada moralista: “Cunha é corrupto, mas está do nosso lado!”

Explicando: uma boa parcela da população se sente “do lado” de Eduardo Cunha porque ele representa, no imaginário amestrado, o Capital, o Poder, o Sucesso. Essas pessoas têm a fé fundamentalista de que, pela varinha de condão da “Meritocracia”, jogando o jogo de cartas marcadas do Capitalismo, conseguirão ascender à Casa-grande, em que pontificam figuras como Cunha. Do “outro lado” estão os “populistas”, os “comunistas” , o “zé-povinho”.

O que tenho a dizer a esse “pobre de direita”, ou “homem de bem” é o seguinte: a seu lado estão os latifundiários, os banqueiros, a imprensa corporativista, o Judiciário venal; e figuras deploráveis como Bolsonaro, Malafaia, Lobão, Alexandre Frota. Você jamais poderá citar Gandhi, Mandela, Luther King ou o nosso Tiradentes. Não poderá citar Muhammad Ali, campeão do box e das causas cívicas. Ou Leon Tolstoi, segundo o qual “os ricos fazem tudo pelos pobres, menos descer de suas costas”. Não poderá tampouco citar Noam Chomsky, Leonardo Boff, Chico Buarque, Boaventura Santos, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Josué de Castro, Zygmunt Bauman, Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima e muitos outros homens notáveis; porque todos eles sempre se colocaram contra as injustiças da ordem estabelecida – e você é exatamente um defensor da ordem estabelecida.

O distinto público, portanto, por burrice ou má-fé, embarca na cruzada “contra a corrupção”  (de preferência a praticada pelos “comunistas”), convencido de que esse é o maior problema do país. Ora, o Brasil tem problemas muito mais sérios – a começar por políticas em que os interesses brasileiros são colocados abaixo de interesses externos; os interesses do povo, abaixo dos interesses das elites; os interesses do Trabalho, muito abaixo dos interesses do Capital.

O principal problema brasileiro é a desigualdade. Para mantê-la, o Diabo e seus asseclas (políticos, banqueiros, megaempresários, empresários da mídia, jornalistas mercenários, juízes partidários, etc.) tergiversam. Enganam. Iludem as massas. Enquanto o mágico chama a atenção do público para detalhes sem importância, um elefante se materializa no fundo do palco.

E agora o drible da vaca: muitas das linhas acima são retalhos retirados de muitos de meus textos anteriores. Alguém notou o efeito patchwork? Perceberam as costuras? Tropeçaram em alguma emenda?

Não. Isso é a prova daquilo que comentei várias vezes: o meu tema é um só. A mensagem que inutilmente tento passar é uma só.

Reconheço: trata-se realmente de um “samba de uma nota só”. Mas, fazer o quê? Um filósofo disse há tempos que todas as coisas já tinham sido ditas; porém, como ninguém as escutava, era preciso continuar a dizê-las pelos milênios afora...

No Facebook uma vez desabafamos: “O que podem as vozes da lucidez contra as trombetas da grande mídia?” Mas insistíamos, como na parábola em que o beija-flor insiste em tentar apagar o incêndio na floresta com gotinhas d’água transportadas no seu bico. Não está escrito que a verdade há de prevalecer?

E por favor: não me venham com relativismos acadêmicos. Não me venham dizer que há a “verdade de cada um”, e coisas do tipo. A verdade, nesse nosso universo manifestado, raríssimamente está com quem tem o poder econômico, político, militar, cultural, religioso. Via de regra, quem tem o poder oprime e faz qualquer coisa para manter o poder. Estou mentindo? Fiquei louco?

Entendam: eu não procuro “escrever bonito” ou exibir erudição. Todo isso é besteira. O que me interessa é a clareza. Dissipar trevas. Quando escrevo, minha bússola (atualizando: meu GPS) chama-se Satyagraha; esse termo sânscrito significa “apreço pela verdade” – e a ideia, juntamente com Ahimsa, que significa “não violência”, foi um dos pilares da filosofia de Gandhi.

Há uns 10 anos, resolvi criar um blog para abrigar textos interessantes (jamais publicados pela grande mídia) antes que desaparecessem na voragem da Internet. Seus autores eram malditos ou, pelo menos, eram mantidos na geladeira, esquecidos em cantos obscuros das redações; e conseguiam espaço apenas em publicações modestas, alternativas, com raras exceções. Eu ficaria feliz e orgulhoso de tê-los todos à minha mesa: Argemiro Ferreira, Adriano Benayon, Pedro Porfírio, Luis Fernando Verissimo, Eliane Brum; e ainda juristas, sociólogos, pensadores lotados em variadas disciplinas.

Na hora de dar nome ao blog, não tive qualquer dúvida: seria Satyagraha. Porém, é claro que alguém já tinha registrado um blog com esse nome; tive de adicionar um elemento distintivo, e coloquei meu login: nelsonmm. Ficou assim: satyagraha-nelsonmm.blogspot.com.br.

Durante muito tempo, coloquei no blog apenas textos de terceiros. Alguns artigos, valiosos em conteúdo porém demasiado extensos, intrincados e sujos, eu editava, resumia; além, naturalmente, de revisar-lhes o Português, já que mesmo grandes intelectuais costumam tropeçar feio na gramática. Mas, há alguns anos, senti necessidade de dar minha interpretação sobre fatos que repercutiam estrepitosamente nas redes sociais, e comecei a publicar meus próprios textos. Assim – como comentei bem-humorado no Facebook – , eu não precisaria escrever a mesma coisa toda hora: bastaria apresentar o link  do espaço onde minhas ideias sobre determinado assunto estão copiosamente expostas.

Uma última mensagem para você que é coxapaneleiro, bolsuíno, analfascista, um escravo que com orgulho e ódio faz o discurso e e jogo do Senhor, da Casa-grande: você não é “moderninho”, “esperto”, “anticomunista”, “antibolivariano”: você é ignorante e desatualizado; um dinossauro acéfalo. Um iludido político.

E assim, com mais um retalho reciclado (ou reaproveitado, segundo ecoterminologias mais rigorosas), encerro esta minha terceira (e última) versão do manual. Foi um esforço ingente, como se dizia em outros tempos. Mas – e agora reaproveito um retalho que produzi aos 18 anos – sei que tudo não passou de um grito no vácuo. E todo mundo sabe que no vácuo o som não se propaga.
* * *

GLOSSÁRIO

Coxapaneleiro – fusão do termo coxinha, que significa alienado, reacionário, ignorante político, com paneleiro, que designa aquele imbecil que, para desestabilizar o governo Dilma, participou da ridícula sinfonia das panelas, sob a regência da Rede Globo.
Bolsuíno – fusão do sobrenome de um energúmeno fascista, absolutamente desqualificado, com suíno.
Analfascista – a palavra é autoexplicável.

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